Escritor como personagem (30): Nathaniel Hawthorne — Viver com um estigma, de Elaine Maria Machado

Após o lançamento e o sucesso do livro, as duas nunca mais foram vistas e em Salem a história de Hester Prynne tornou-se um folclore

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Nathaniel Hawthorne — Viver com um estigma

Elaine Maria Machado

Em busca de algo inusitado para escrever o livro que o levaria ao topo da carreira como um dos mais importantes escritores do século XIX, Nathaniel Hawthorne entrou no navio e foi explorar a vila de Salem na terra do tio Sam.

Tomou uma identidade falsa e foi para o trabalho de campo. Chegou na pacata e puritana cidade e se apresentou como reverendo Arthur Dimmesdalle. Ele era um jovem de aparência tranquila, muito educado, tímido e conhecedor das palavras para aquietar a alma daqueles que vinham em busca da salvação e, como ninguém, sabia como expurgar os pecados.

Após muito estudo, ele descobriu que naquele lugar, as pessoas não aceitavam quaisquer atos fora dos padrões da normalidade e, se não soubessem como explicar casos extremos, como a peste ou algo similar, acusavam de bruxaria e iam em busca das bruxas, levando-as à fogueira para serem queimadas vivas.

Num daqueles dias nublados, muito frio, o sol ainda não havia dado o ar da graça, um soldado trazia uma moça bem apessoada com um recém-nascido nos braços; era Hester Prynne. Ela foi exposta na praça, humilhada por todos os presentes por adultério e como castigo, trazia no peito esquerdo, bordado por ela mesma com exímio, a letra “A” escarlate.

Aquela moça aparentemente desamparada, apertava a criança conta o corpo, querendo ora protegê-la, ora assegurar que ninguém a tiraria de seus braços e fazia questão de deixar que todos vissem o seu estigma, a letra “A” escarlate no peito.

Naquela angústia, gritos de insultos e xingamentos, no meio da multidão ela percebeu um senhor de aparência mais velha, mostrando uma deficiência no ombro, em companhia de um indígena, destacando-se entre os demais. Seu corpo estremeceu. O pavor correu-lhe nas veias e a fez gelar. Com todas aquelas pessoas insultando-a pelo pecado de adultério, o pastor Dimmesdalle veio acalmar sua alma.

Após ditas as palavras de conforto e paz, feito o pedido para que ela indicasse quem lhe fizera tal agressão resultante do nascimento daquela criança, ela permaneceu calada, jamais diria quem era o pai da menina; carregaria para o túmulo aquele segredo; em seguida, ela foi levada de volta para a prisão e aconselharam o guarda a chamar um médico para olhar mãe e filha que pareciam bem agitadas com o tumulto na praça.

Na cela escura da prisão, chegou o dr. Roger Chillingsworth com uma aparência assustadora. Hester Prynne entrou em pânico! O horror em seus olhos causava espanto em quem quer que ali estivesse. Ela, novamente, apertou a criança contra si e relutou para não se deixar examinar.

O médico, com uma calma estudada e planejada, conseguiu medicar mãe e filha e saiu para continuar sua tarefa de salvar o corpo das pessoas, pois a ama quem salvaria era o pastor.

O tempo passou, Hester Prynne foi morar na periferia da vila, sempre prestando serviços à comunidade para dar conforto à filha que, a cada dia, mostrava-se mais bela e meiga com a mãe, contudo avessa aos contatos com as pessoas estranhas.

Aquela bela jovem senhora passou por momentos terríveis de preconceito, insultos, discriminação, portando sempre a letra escarlate no peito esquerdo e, numa tarde, foi ao palácio entregar uma encomenda à esposa do governador e quiseram tirar-lhe a filha. Pearl era o nome da criança. Ela rogou por piedade ao pastor Dimmesdalle que lhe amparou com palavras de alívio, mostrando o quanto a menina, fruto do pecado da mãe e da maldade do esposo que a abandonara sem motivos, era uma bênção na vida daquela pobre mulher.

Com o tempo, Arthur Dimmesdalle começou a se definhar. Estava pálido, aparência esquelética e, pela preocupação dos fiéis, o dr. Roger foi consultá-lo. Conversa daqui, remédio dali, foi criando uma intimidade com o paciente, um vínculo de amizade e resolveram morar na mesma casa, assim seria mais fácil o médico acompanhar o caso do paciente e, ao mesmo tempo, o pastor cuidaria do doutor que tinha a idade avançada.

Dr. Roger foi, cada vez mais, buscando informações sobre o intelectual do reverendo para tratar-lhe o corpo, como se estivesse em uma caverna escura, a procura de uma luz que clareasse sua curiosidade de homem que deseja vingança. O que ele nem sonhava, era que o pastor tinha um lado muito reservado em se abrir aos supostos cuidados do até então amigo.

Algumas pessoas já haviam notado mudanças no procedimento do profissional em medicina. Ele não aparentava mais a calma de antes e passara a adquirir atitudes maléficas. Dia após dia, ele continuava cavando o coração do paciente em busca de uma revelação que, para ele, seria a descoberta do ouro. O terapeuta continuou fazendo perguntas sobre a alma do religioso e este ficou furioso e, em determinado dia, saiu do consultório a passos largos.

Este fato não impediu que um permanecesse ao lado do outro e dr. Roger continuou aparentemente calmo, mas no íntimo mostrava uma vingança felina e mortal ao passo que o pastor conservava tímido e sensível, embora nada revelasse sobre seu âmago, também nada demonstrava a respeito da antipatia que passou a sentir pelo velho companheiro de tratamento.

E a devoção da população ao reverendo crescia cada dia mais, e sempre ele tinha uma palavra para confortar os fiéis, contudo no interior do seu eu ele carregava o pecado de encobrir sua verdadeira identidade; ele era o escritor em pesquisa e tinha também outro segredo que não queria nem que sua consciência escutasse o clamor de sua alma, mesmo querendo se abrir para aqueles que lhe depositavam fé dizendo: “Seu pastor é um imundo, um infame e um grande mentiroso”. Todavia, fechava-se no silêncio da angústia que carregava no peito e que o definhava a cada passo de sua existência.

Dessa forma, Hester Prynne foi falar com o dr. Roger e mostrar o que seu espírito pedia. Ela resolveu contar toda a verdade ao pastor; desejava libertar o ministro do demônio que se tornara Roger e sua vingança. E, no mesmo instante, ela se odiou por ter sido casada com aquele homem hediondo em época e lugar distantes.

Na margem do rio, enquanto Pearl brincava com os peixes, ela avistou Dimmesdalle e os dois se olharam com espanto, como se fossem almas e outro mundo. Ele então começou a falar de sua agonia, desventura, desgosto e como se sentia infeliz; tudo para ele trazia o sabor da morte.

Com o desânimo dele, ela se ergueu com coragem e lhe disse que o inimigo morava sob o mesmo teto que ele; aquilo o fez dar um pulo de susto; caiu ajoelhado no chão, cobrindo o rosto com as mãos, quando ouviu que o dr. Roger era seu ex-esposo. Ele ficou chocado! Não sabia que rumo tomar dali adiante. Suas forças foram erguidas pelo fato de Hester ter arrancado a letra “A” do peito e jogado longe, prometendo que os três sairiam da vila para viver o grande amor que sentiam e ela chamou Pearl para conhecer o pai.

Ele não voltou para casa. Sentia-se um demônio. Foi para o palanque e chamou a população para revelar-lhes o grande segredo que guardava sob sete chaves. Segurou a mão de Hester e de Pearl e pediu-lhes perdão. Ao povo, revelou que ele não era o homem santo que todos pensavam e agradeceu o carinho recebido. Afirmou que a mácula que ela carregava, ele também a trazia no peito, corroendo-lhe a carne, queimando sua alma. Com um safanão, arrancou a faixa do hábito sacerdotal e todos viram a marca “A” cravada em sua pele como castigo pelo pecado cometido há sete anos. Todos viram a sensação de liberdade nos olhos dele enquanto o dr. Roger lhe jogava pragas e xingamentos.

Neste momento, o ministro caiu, sendo amparado por Hester e viu Pearl lhe beijar a face com carinho. Para os fiéis, pessoas muito respeitadas, aquele foi um ato de compaixão, caridade e humildade cristã, demonstrando sua crença em Deus, provando aos presentes a benevolência daquela mulher que viveu anos carregando a mancha do adultério. Ele deu o último suspiro nos braços da amada.

O tempo passou, elas se mudaram e, quando Pearl, que havia guardado os escritos do pai por anos, lançou o livro póstumo “A Letra Escarlate”, em memória de seu pai, Nathaniel Hawthorne, homem que pregou o amor e soube se desculpar pelos erros cometidos.

Após o lançamento e o sucesso do livro, as duas nunca mais foram vistas e em Salem a história de Hester Prynne tornou-se um folclore.

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