Escritor como personagem (28): H. P. Lovecraft — Sonho Abissal, de Júlio César PsyDuck

Talvez a maior burrice do ser humano seja acreditar que conseguem salvar o amor de sua vida

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

H. P. Lovecraft — Sonho Abissal

Júlio César PsyDuck

— Howard, atrás de você! – exclamou uma voz.

Uma rápida cortada no ar fez com que a cabeça de um homem-peixe rolasse pelo chão de areia manchada de vermelho escarlate. Gotas de suor pingavam de Howard.

— Sônia, nós precisamos sair daqui. — Outro corte no ar, outra cabeça no chão. — Não vamos conseguir sozinhos.

— Vamos sim, lute.

— Eu e você seremos mortos por essas aberrações aquáticas, Sônia.

A cada momento mais criaturas das profundezas abissais davam as caras na praia de Newburyport. Sônia, ao observar o aumento no número de homens-peixe, gritou para Howard:

— É… Talvez você tenha razão.

Uma das criaturas se agarrou em Howard e o derrubou, Sônia também estava cercada e não podia ajudá-lo.

— Lute contra eles, Howard, lute — gritou desesperada.

— Fuja daqui Sônia, eu consigo me virar, eu acho… — Howard se calou quando outro homem-peixe lhe deu um golpe na cabeça.

Howard acordou com seu rosto colado na areia, se levantou sentindo seu corpo dolorido e em sua frente se projetava um homem careca, um pouco esguio de pele totalmente negra e com um sorriso maquiavélico, estava sentado na água. Howard que ainda estava um pouco abatido após a derrota, acabou por sentir que uma corrente presa a um toco de madeira fora presa ao seu pescoço por um grilhão.

— Saudações, senhor Lovecraft.

Howard trincou os dentes.

— Não fique com raiva, seja ao menos educado, e bem, não sabia que o senhor era casado, isso me surpreendeu. — terminou com um sorriso simpático, como se estivessem em uma conversa de bar.

— Você? – perguntou Howard, com uma expressão de nojo. — Você não existe, nunca existiu.

— Bom, você sabe que isso não é verdade. De certa forma, o atual estado das coisas me obrigou a retomar contato.

O homem olhou para o mar cinzento por algum momento, ele parecia estar em uma espécie de devaneio.

— R’lyeh chama. — pronunciou o homem negro, enquanto virava o rosto de volta a Howard — E a hora se aproxima, presumo que o senhor já saiba disso.

— Vai se foder. — Howard disse.

A figura era extremamente familiar para ele, e se Howard só poderia descrevê-la como “caotica”. O homem ignorou o palavrão e continuou calmo:

— Senhor Lovecraft, as estrelas se alinharam, finalmente. Essa é a hora.

— E você se acha na posição de me dar ultimatos, Nyarlatothep?

— Eu sou o caos rastejante. — ele deu uma gargalhada enervante. — E você sabe que ele voltará, pois Ph’nglui mglw’nafh Cthulhu R’lyeh wgah’nagl fhtagn.

— Seu desgraçado! — xingou Howard — Eu juro que enfiarei uma faca em seu coração, se é que você tem um.

— Você sabe muito bem que eu não tenho um, bom, pelo menos não um dentro do meu corpo. — o homem negro fez um sinal e um corpo fora jogado em frente a Howard e um coração despojado na mão de Nyarlatothep.

Os cabelos relativamente curtos e negros fizeram com que Howard entendesse de quem era.

— So… Sônia? — gaguejou.

— Sabe, talvez a maior burrice do ser humano seja acreditar que conseguem salvar o amor de sua vida. — O homem negro se aproximou do cadáver, se abaixou e puxando o cabelo de Sônia, mostrou para Howard o rosto completo da moça.

— Seu desgraçado, eu vou te matar! — berrou Howard em uma falha tentativa de se lançar sobre o homem, já que a corrente que lhe prendia o pescoço o puxou, impossibilitando o avanço –

— Você não vai fazer nada, e você sabe que a vida dela vale tanto quanto a sua — soltou a cabeça e o corpo caiu com um baque mudo na água turva. — Ctchullu não pode sonhar para sempre, senhor Lovecraft.

Passado algum tempo depois, Howard acordou novamente, a primeira coisa que se ouviu foi o som do mar e o enjôo marítimo o atordoou logo em seguida.

— Pelo menos seu nariz parou de sangrar, querido.

Howard observou o rosto de Sônia e com algumas lágrimas no rosto sorriu para a mesma.

— O que aconteceu?

— Bem… Você estranhamente dormiu no meu colo e seu nariz começou a sangrar.

— Isso é estranho. — Porém, Howard preferiu não contar nada para sua esposa

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