Escritor como personagem (27): Cora Coralina — Pelas janelas do rio, de Rafael Fleury

Como daquela criança fraca nasceu uma torrente de vida? De qual nada nasceu sua poesia? Donde sua força vivaz? Donde lhe brotou a substância milagrosa de viço?

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Cora Coralina — Pelas janelas do rio

Rafael Fleury

Na noite anterior pedira a bênção ao seu avozinho… Dormiu. Sonhou. Acordou. Assim mesmo: na obviedade serena das sucedências normais.

Quando despertou, já era bem cedo, qual de costume. E também de manhã, de novo: “A bença, avozinho!”. Fez a primeira oração do dia. Ergueu-se na cama. Já se abraçou à sua muleta — sempre encostada do lado. Levantou-se. Calçou os chinelos. Vestiu um vestidinho azul com poá branco. Abriu a janela detrás da sua cama. E viu a cena que a inspirava a cada manhã… E viu, sempre em deleite, aquela amostra de cenário que era a inspiração da sua pena e as pedras da sua inspiração. E inspirou. Num trago profundo de ar, como agarrasse pelas narinas e pelos pulmões toda a sorte de ar que pudesse bastante para viver todo um dia. E pegou o alento para um dia. Alento que, na verdade, poderia lhe soprar toda uma vida. Sim, o alento de um instante. O hálito de uma vista. De um trago de ar, de pedras, de mãe: cidade. O hálito de uma vida. Um inspirar. Uma inspiração.

Quando despertou, já era cedinho. Ouvia sempre aquele murmurar do rio. Que lhe era um embalo mavioso e fascinante de tudo… Era como uma coisa de poesia plena, que servisse a qualquer poema, a um poema todo, de verve e cerne e carne e pulsar de coração… Era todo um rio de uma perfeita poesia, tão palpável e tão indecifrável, que, na infinidade de sentidos, nem sabia para onde corriam aquelas águas… Quando ela era alegria, o rio cantava. Quando ela era festa, o rio vertia. Quando era dor, eram só pedras as águas. Quando era flor, virava um jardim seu rio. Quando era lágrimas, o rio não cabia em seus olhos. Quando era dúvida, o rio parava. Quando era pensamento, ele respeitava. Quando era só, ele abraçava.

Assim que a oração não acabava nunca antes de se levantar. Que a primeira parte apenas recitava mentalmente. Mas seguia sua oração no refletir de tudo o que lhe rolava pelas águas sob sua janela…

As outras duas janelas, que davam do seu quarto para o quintal, quase jamais ela as abria de manhã, pelo óbvio motivo de não as ter fechado à noite. Quase nunca as fechava, que amava dormir com a brisa gostosa soprada do quintal… Eram quase dois buracos na parede: sempre abertos, escancarados, mesmo no pequenino modesto de seus tamanhos simples. Eram um canal para o vento e para as emoções do tempo… Canal pelo que o quintal ficava-lhe a soprar histórias e estórias desde sua bisavó e desde suas raízes atemporais, radicadas, aliás, além: em todas as vidas. Eram duas janelinhas tão pequenas para o imenso a que se abriam. Janelinhas metáfora da vida, que pela madeira de suas feitas e pelos adobes circundantes, nos que se encaixavam na parede de vigor virente entanto torta — singela compostura —, nunca nem não se poderia pensar em todo o tudo que ao anímico exprimiam… Janelas intensas… Umbigos do quintal… Umbigos da vida… Janelas imensas, enormes… Janelas de sentir… Janelas da vida… Essas janelas sentiam tanto que Ana a elas se irmanava, a elas se entranhava, num enredar intestino do que não se via, num sentir profundo, das energias do quintal da vida tudo sentindo como uma seiva vívida que sugasse dos fluidos umbilicais do quintal para sangrar sereno à pena, em sua mesinha de escrever paixões e sabores de terra e amores e aromas de currais e gentes e coisas de becos e de Goiás…

Desceu do quartinho. Foi ao xixi, e, contínuo, direto à cozinha. Quero café! E foi fazer. Não no fogão de lenha, que pra café não carecia o trabalho que dava. Mas no fogãozinho de quatro bocas mesmo. Daqueles fogões de roça, que são esmaltados, que nem os pratos e xícaras da roça, que são coisinhas dum airoso simples de lembrar o paraíso. E têm esses fogões um forno bem nostálgico embaixo, que quem mais usava eram os antigos.

O coador de pano encaixado no bule — também esmaltado —: casal fiel, inseparável, fértil, que sempre espera a água negra fervilhante. Eram os preparativos para a oração do café, a celebração do café, a liturgia do café. O rito sagrado das manhãs da Vila Boa e de todo um Brasil. No silêncio quase prevalente dos dias de Ana, a luz divinal chegava pelas janelinhas da cozinha e tomava desta o ventre todo. E ela despejava com vagar solene a água fervente no coador, num encaixe perfeito e dinâmico e vivo ao encaixe primeiro — aquele dito —: ouro negro líquido encaixando-se em movimento ao coador das manhãs de sol resplendente… E Deus a tudo observando, que o preparar de um café é muito apreciado pelo Pai: dá-lhe terna alegria ver Seus filhos alvorecendo com o amor de viver, para seguir em viço renovado a luta desta vida, fazendo um cafezinho, tão simples como sublime… Em movimento de cascatinha de regato do mato, na cópula da água negra com o coador, ela fecundava o bule para parir o café que tomava, a cada manhã sagrada de vida… E enquanto rolava essa cascatinha, naqueles instantes eternais de absoluto foco de fecundação do bule — a tudo assistindo o Criador — subia aos páramos a fumaça divina e cheirosa que emana o café ao se o cozer… Subia aos céus a fumaça do café — sagrada oferta da alquimia do grão: plantado, crescido, frutificado, colhido, torrado, moído e liquefeito — qual incenso para a glória de Deus, por Suas maravilhas. Que todo bule é um turíbulo. Que todo pó de café é incenso. E sua fumaça sacra  — a cada manhã — é sinal emocionado de gratidão ao Pai por mais um arrebol do dia dado à luz, chegado em braços de raios do nascente. Mais um milagre que cada manhã encerra, ou que cada manhã liberta.

Daí então, era só Ana fecundar a xícara: café pronto, cheiroso, gostoso. Tomava o primeiro gole de pé, inda rente ao fogão. Depois ia sentar à mesa sobre o piso de mezanela para tomar o resto da primeira colocada e, em seguida, mais uma xícara.

O pão Seu Vicente já comprara mais cedo, por ato gracioso, que gostava de fazer. Ele e Grampinho já haviam comido, que cada qual tinha sua rotina e seu jeito. Grampinho, aliás, já saíra para suas caminhadas sobre as pedras da Vila, com sua trouxa na cabeça, onde ficava a vagar demoradamente, sem hora para voltar, sem ninguém a quem dar contas, que era Maria, das muitas que rolam pelo mundo… Que era passarinho, de asas remendadas com trapos e retalhos e botões, remendos da senda da vida, asas libertas de esvoaçar libérrimo…

Depois, qualquer hora, passariam os dois na cozinha para tomar café, quando quisessem, Grampinho, aliás, quando voltasse — se voltasse. Então à mesa, Ana comia seu pão com manteiga, às vezes, tinha também biscoito, broa, um bolo de arroz ou de milho — do milho orante, que ela e o milho se amavam.

Café tomado, ia tomar ar fresco do seu quintal das maravilhas. Levantava-se da mesa, passava defronte à cristaleira com o azul-pombinho e outras loiças priscas, pouco mais adiante, defronte também aos quadros de Padim Ciço e de seu pai finado: gestos de lembrança dos seus laços nordestinos. Descia a escada arcaica, vetusta, de laje bronca, e ao seu lado sinistro estava a biquinha, que balbuciava, consuetamente, suas lhanas canções de antanho. Suas águas tímidas, pudicas, humildes e viçosas, pariam-se no seio da serra, e vinham rasgando, serenamente, o chão da Vila, e vinham fecundando esse solo, numa força seminal, que, chegando à madeira lavrada da biquinha, era já colostro que se dava a quem queria — e a quem queira —: água fresca, água-leite, materna, parida e entregue à humanidade, que, mãos-concha, recebe-a: mãos postas, joelhos genuflexos, reverenciosos — outra oração que inspira a casa velha da ponte. Que era um santuário aos milagres prosaicos dos dias e da natureza e da poesia da terra. E também um barco encalhado no Rio Vermelho, sim, Ana dizia. E barco navegante no vasto dos mares da vida…

Ana andava distraída pelo quintal, plácida, a saborear a manhã, a sentir o sol na pele, o frescor verdejante das sombras das suas árvores e plantas, quando um sopro forte e encorpado de vento das árvores senhoras fê-la mirar fixa para ao depois da colcha de folhas das mangueiras… Olhar distante… Mirada profunda… Mirando, deveras, para si, bem dentro, viajava a tempos idos, antigos, de sua puerícia e do palmilhar da própria vida… Viajava a Anas idas, que fora, na metamorfose que a todo humano se impõe… Viagem tão funda fazia no fugaz daquele momento…

Aninha, pequena, petiz, pernas moles, caindo à toa no chão do quintal, moleirona, pandorga, chorava boba… Contemplava, velha, sua criança. A menina que fora, há tanto… E a jovem e as mulheres e as idades que fora na mulher toda que era… Tentava compreendê-las e compreendê-la una, senti-la, vê-la a força que já tinha, sob o véu tão frágil e desvalido…

Como daquela criança fraca nasceu uma torrente de vida? De qual nada nasceu sua poesia? Donde sua força vivaz? Donde lhe brotou a substância milagrosa de viço e de fulgor? Como conseguira tanto caminhar nas veredas estreitas dos dias, das décadas? Como lograra lutar tanto justo até aquele passeio no quintal? E as intempéries temperadas tantas que lhe trespassaram e ela atravessara, forte? Quem era você, Aninha? Aninha, quem é você?

— Dona Cora! Dona Cora! — Alguém, de lá da porta da Rua Dom Cândido, a gritava. Queria comprar doces. E queria ganhar poesia.

Firmada na sua muleta, Ana veio andando do quintal, subiu os degraus ao lado da biquinha, atravessou todo o corredor, cruzou a porta do meio, chegou à porta da rua: – Tudo bem, meu filho? Quer doce?

O menino ficou corado.

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