Escritor como personagem (24): Franz Kafka — O julgamento, de Eliézer Cardoso de Oliveira

“Certa, manhã, depois de despertar de sonhos conturbados. Adolf Hitler encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso”

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Franz Kafka — O julgamento

Eliézer Cardoso de Oliveira

A sala estava repleta e todos os olhares se dirigiram para a figura tímida e pálida de Franz K. Ele enfrentou os olhares, não se detendo em nenhum deles especificamente, mas não baixando a cabeça. Aparentando algum desconforto, sentou-se à mesa e proferiu as palavras que lhe cabiam naquele ritual: “Vamos dar início ao julgamento do senhor Adolf H., cujos crimes estão registrados no Livro”. Livro era a maneira prática de se dizer. O que se via em cima de quatro mesas coladas umas nas outras era uma verdadeira biblioteca de pecado e maldade.

“Objeção meritíssimo.” Exclamou o senhor Friedrich N., que em vida fora filósofo, mas agora desempenhava a tarefa de advogado do réu. “Não desmerecendo a sua pessoa, achamos que um julgamento de tal envergadura mereceria alguém mais…” Enquanto o senhor N pensava no eufemismo adequado, o senhor H levantou (era um homem impaciente) e disse: “Eu exijo ser julgado pelo Número 1 e não por um semita insignificante”. O advogado colocou a mão num dos ombros do senhor H, fazendo pressão para que se sentasse, e retomou a palavra: “O que meu cliente quer dizer é que um julgamento tão complexo mereceria alguém com experiência prática em magistratura e que fosse mais neutro etnicamente”.

O senhor K olhou fixamente para os olhos pequenos do advogado e respondeu com um misto de doçura e firmeza: “Somos humanos, fizemos mal ou bem a outros humanos e nada mais coerente que sejamos julgados por humanos”. Depois dissertou que a empatia humana era essencial para a justiça e arrematou de modo irônico (desta vez olhando para o senhor H): “O Número 1 também é, de certa forma, semita”.

Após isso, a palavra foi dada à senhora Hannah A., que também fora filósofa profissional, mas que desempenhava, com aparente satisfação, o papel de promotora (parece que, afinal, a filosofia servia para alguma coisa). Com um cigarro fumacento, que ficava mais em sua mão do que na sua boca, ela enumerou os crimes do réu. (Na Terra, isso teria durado alguns meses, mas ali a contagem humana de tempo já não fazia mais sentido.)

Certa vez, ele escrevera as palavras testamentárias: “haja fogo!”. Mas não houve fogo, houve livros. Agora, como sentenças, suas palavras viravam coisas. Ele era o senhor do destino daquele homem que estava à sua frente

Terminada a fala de acusação, o juiz passou a palavra ao réu para que se defendesse, caso quisesse.

O senhor H falou de modo raivoso e desorganizado (ele era nitidamente vaidoso com sua suposta eloquência). Afirmou que a morte e a submissão dos fracos pelos fortes era uma lei natural, que o leão devorava a gazela da mesma forma que o buraco negro devorava uma estrela, que o próprio Número 1 já havia feito algo parecido, muito embora, se lhe fosse permitido opinar, de modo grosseiro e lamacento, que orgulhava dos seus atos, que não se importava em ser torturado ou queimado, que havia espaço vital, que um bravo valia mais do que um milhão de covardes, que… que… que…

Por sua vez, o advogado discursou mais didaticamente (a sua eloquência era admirada por todos): “Desafio alguém a provar que o bem e o mal, o certo e o errado existem absolutamente. São apenas palavras, cujos significados dependem das relações de poderes. É o Poder que define o bom e o mal, o certo e o errado. A força da potência nunca pode estar errada. O meu cliente é um tipo superior de humano que almejou grandeza para si e para a sua pátria, fazendo o mundo sair da sua preguiçosa apatia”. Depois de uma pausa, ele encerrou sarcasticamente, olhando para o juiz: “Ele fez isso e viu que isso era bom!”.

Encarando o advogado (a promotora não disfarçava a sua admiração), a senhora A argumentou: “O senhor N tem razão: o certo e o errado são inegavelmente imposições de poder e não há meio de retrucar isso logicamente”. O advogado sentiu uma satisfação interior (ele era um homem carente de reconhecimento). “Esse julgamento — continuou a promotora — é a demonstração pura do Poder. O poder cria e altera as regras. De fato, o Leão devora a gazela assim como o buraco negro devora uma estrela. Devoravam porque podiam, mas não podem mais. Agora é hora de o poder prestar conta a si mesmo pelos seus atos. É o momento dos fracos julgarem os fortes e da gazela fazer o leão tremer.” (Disse isso, olhando com desprezo para o réu.)

Agora só faltava o juiz definir a culpa e a inocência do réu e, no caso da culpa, especificar a pena. O senhor K finalmente compreendeu o motivo de ter sido escolhido para julgar um caso tão importante. Ele fora um literato, um homem com muitas palavras, mas com pouco poder. Na sua impotência, só lhe restou ironizar em suas obras a falta de sentido da justiça humana e divina, mas agora ele era a Justiça. Suas palavras não eram mais inofensivas. Certa vez, ele escrevera as palavras testamentárias: “haja fogo!”. Mas não houve fogo, houve livros. Agora, como sentenças, suas palavras viravam coisas. Ele era o senhor do destino daquele homem que estava à sua frente.

“Certa, manhã, depois de despertar de sonhos conturbados. Adolf Hitler encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.”

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