Escritor como personagem (14): Rubião e Kafka — Encontro nas portas do inferno, de José Fábio da Silva

Kafka encontrou os escritos que queimou. Estavam lá, intactos, prontos para serem queimados novamente, mas não existia nada que pudesse gerar alguma chama

(O que pode acontecer quando aqueles que escrevem literatura se tornam eles mesmos literatura? Literalmente, tudo. Explorar essas múltiplas possibilidades é a proposta dessa série de contos publicados pelo Jornal Opção, com o apoio do escritor e doutor em História Ademir Luiz, presidente da União Brasileira de Escritores-Seção Goiás. Veremos transformados em personagens escritores e escritoras célebres como Clarice Lispector, Albert Camus, Guimarães Rosa, Machado de Assis, Edgar Allan Poe e muitos outros. Acompanhe a série e espere pela aparição de seu escritor preferido.)

Murilo Rubião e Kafka — Um encontro casual nas portas do inferno

José Fábio da Silva

“E ficarão sabendo que eu sou o Senhor quando eu executar sobre eles a minha vingança.” — Ezequiel 25:17

Abri os olhos e estava morto. Não vi luz, não vi túnel, não vi anjo. Vi somente uma enorme fila parada. Fiquei lá por horas, ou dias, talvez semanas… Mas pouco importava. Estava morto e como defunto não tinha para onde voltar. Pensei, a princípio está no céu, pois não tinha mais nenhum compromisso ou lugar para chegar atrasado. Outra coisa que me levou a essa conclusão era a existência de coelhos brancos por toda a parte. Pareciam bolas macias de algodão. Os olhos vermelhos, todavia, não deixava margem para engano: eram demônios.

Com o tempo — e foi muito tempo — percebi que os demônios não se importavam com quem estava na fila. Abandonei o meu lugar e parti à procura de seu início. Caminhei sem pensar no tempo. Se aquilo era o inferno, os demônios não trabalhavam bem, pois carecia de um pouco de sofrimento. A fila começava em uma gigante escadaria. Depois da escadaria se dissipava. Cada um fazia o que lhe viesse na cabeça. Alguns conversavam. Outros ficavam sentados com cara de paisagem. Pela postura dos presentes era de se suspeitar que todos eram intelectuais. A arrogância deixava o ar até mais pesado. Sim, eu estava de fato no inferno.

A escadaria levava a um grande portão. Existia somente o portão, sem paredes ou colunas a sua volta. O portão estava aberto. Em termos lógicos, nem deveria existir. Mas se estava lá, certamente tinha uma função. Perto dele estava um sujeito magricelo acariciando um coelho. O reconheci de imediato, era Franz Kafka. A princípio achei estranho o encontro, visto que ele era judeu e eu um incrédulo simpatizante do catolicismo. Suspeitei que estava ali para me receber, pois, segundo a crítica, tínhamos características literárias em comum. Antes que eu perguntasse algo, todavia, o coelho em seu colo tratou de me explicar a situação.

Me disse que, como artista, eu não merecia o céu. Não existe pecado maior do que a criação. Aquele lugar, entretanto, ainda não era o inferno. Não bastava mal traçadas linhas para merecer o submundo. Os medíocres ficavam para sempre condenados àquela fila. “Um mau escritor não merece o esforço de um demônio.” Por isso, eram deixados em eterna espera, sem explicação ou motivo. O demoníaco coelho de ar angelical saltou do colo de Kafka e pediu para eu segui-lo. “Lewis Carroll pensou que estava sonhando quando isso lhe aconteceu.” Perguntei a Kafka se ele não nos acompanharia. “Não, senhor. Me recuso a entrar, temo que a minha condenação seja perder novamente a minha voz. Muito sofri em vida, e ao chegar aqui me senti bem como nunca antes. A propósito, estou muito feliz em conhecê-lo, senhor Murilo Rubião. Gosto do seu trabalho. Se o que escreveu fosse meu, certamente não os queimaria.”

Me surgiu a dúvida de como ele me conhecia, visto que já estava morto quando comecei a escrever. Provavelmente era parte da punição, os escritores presos nesse submundo passavam a eternidade a ouvir as novas histórias que nasciam. Por aqui, até onde sei, não existem canetas, máquinas de escrever e ou computadores. Ah, se em meu tempo de existência computadores já fossem objetos comuns do dia a dia, seria muito mais fácil revisar os meus textos. Mas isso é passado, agora me resta a eternidade.

O coelho pediu para eu convencê-lo a entrar. A punição dele seria mais terrível que a simples perda da voz ou a fome eterna. O inferno era baseado em experiências distintas das experimentadas em vida. Não foi preciso muito para fazê-lo nos acompanhar. Creio que já estava entediado de ter uma fila como eterna paisagem. Seguimos o coelho branco pelo portão. Saímos em uma espécie de portal que flutuava sobre uma enorme cidade cheia de edifícios. O demônio nos explicou que cada edifício era destinado a uma Bela Arte. Apenas a Arquitetura não possuía um prédio. Os grandes arquitetos estavam condenados a passar a eternidade flutuando em um espaço vazio, sem a possibilidade de um ambiente a ser preenchido com um projeto qualquer. No edifício da Música os instrumentos permaneciam eternamente desafinados e os cantores não tinham voz. “Sorte sua não ser um cantor”, disse o demônio alfinetando Franz.

O portal flutuante em que estávamos ficava logo acima da torre de um prédio. Saltamos direto para lá. O demônio se apreçou em nos apresentar o lugar. “Vejam só que maravilha de obra são os nossos nove círculos infernais. Cada andar está destinado a um tipo de punição. Sim, copiamos do Dante, pois não fazemos questão em sermos criativos. Isso deixa os grandes escritores putos da vida.” Da cobertura, era possível ver que o prédio ainda estava em construção. O coelho das trevas nos explicou que aquilo fazia parte do castigo, o prédio era uma obra inacabada, dois círculos ainda não estavam em funcionamento. “Como todos ficarão aqui para sempre, têm a esperança de um dia ver a obra finalizada. Mas isso nunca vai acontecer.”

A cobertura era o primeiro círculo, reservado a escritores que fizeram muito sucesso em vida, mas caíram no ostracismo depois da morte. Fazia parte da pena que todo recém-chegado passasse por eles e não os reconhecesse. Ficavam todos lá mendigando que alguém dissesse o seu nome nem que fosse mais uma vez. Infelizmente, não reconheci nenhum deles.

No segundo círculo, no andar inferior, estavam os escritores que inventaram títulos marcantes para as suas obras. Cada escritor, tinha um coelhinho em seu ombro que ficava por toda a eternidade repetindo o título do livro e uma piadinha pouco criativa. Assim, o coelho nos ombros de Marcel Proust dizia que “Em busca do tempo perdido era uma perda de tempo”. Outro falava para Carson McCullers que “O coração é um caçador tão solitário que não tem companhia nem da caça”. Aldous Huxley fugia de um coelho saltitante que repetia incessantemente “eu não deveria estar com você, mas com o Shakespeare”. O mais estranho deles passava batom em seus lábios. O nosso guia informou que ele se preparava para receber a Marçal Aquino, ainda que ele fosse demorar para chegar. Me falou da dedicação dos funcionários do local. A punição de Stephen King, por exemplo, já estava pronta: ele passará a eternidade assistindo a versão de Stanley Kubrick para “O Iluminado”. Kubrick, por sua vez, é obrigado a ver a versão feita pelo próprio King para a TV.

Não passamos pelo terceiro círculo. Este permanecia secreto, apenas para despertar a curiosidade dos eternos moradores. No quarto círculo, estavam os escritores plagiadores ou que contratavam ghost-writers. Reconheci a muitos deles. A grande maioria foi uma surpresa para mim. Estavam todos diante de espelhos que refletiam não a própria imagem, mas a figura do escritor plagiado ou contratado.

O quinto círculo era o nosso, destinados a escritores insatisfeitos com a sua obra. Por incrível que pareça, estava praticamente vazio. O demônio nos informou que, apesar de todo escritor demonstrar insatisfação com o que escreve, esse tipo se constitui um exemplar raro. Segundo o nosso guia, no andar de baixo estavam os escritores que cometiam o pecado da falsa modéstia. Eram obrigados a conviver pela eternidade com críticos literários. Já o sétimo círculo era reservado aos filósofos. Estes ficavam putos da vida ao ter as suas teorias equiparadas a mera ficção. Nos disse que apenas Nietzsche ficou feliz com essa notícia. Ele, todavia, não era mais residente, mas trabalhador contratado.

O nosso andar era dividido em salas. Ao chegar em sua sala de punição, Kafka encontrou os escritos que ele mesmo queimou em vida. Estavam lá, amontoados e intactos, prontos para serem queimados novamente, mas não existia nada que pudesse gerar alguma chama. Tentou ao menos rasgá-los, mas o esforço foi em vão. “Agora sim, isso parece o inferno.” A sua angústia, entretanto, diminuiu ao perceber que na sala ao lado estava Heinrich von Kleist a padecer do mesmo mal. Quanto a mim, também fui obrigado a conviver com os meus escritos. Todos em uma tela de computador, prontos para serem revisados. O teclado da máquina, como era de se esperar, não funcionava.

O coelho guia nos disse que, se precisássemos de algo, ninguém nos atenderia. No mais, estávamos livres para percorrer todas as salas daquele andar. Naquele lugar tudo era permitido, menos alterar a própria obra ou realizar saraus. Pelo visto, mesmo o inferno tem limites no que se trata de punição.

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