“Escrever é uma reação um tanto patética contra o desaparecimento inevitável de tudo que existe”

Prêmio Jabuti de 2013, o autor do recente “O amor dos homens avulsos” fala sobre seu processo de criação, das artes e da internet e de seu interesse pela memória

 “Amei Cosmim como você amou o seu primeiro amor (…) Como André amou Luca, como Tayana amou Nanda, eu amo Cosmim, o primeiro e o único”

Victor Heringer, “O amor dos homens avulsos”

Carioca, o escritor Victor Heringer cresceu no Chile e, logo com o romance de estreia, venceu o Prêmio Jabuti, em 2013 | Foto: Divulgação

Carioca, o escritor Victor Heringer cresceu no Chile e, logo com o romance de estreia, venceu o Prêmio Jabuti, em 2013 | Foto: Divulgação

Márwio Câmara
Especial para o Jornal Opção

Com 28 anos, Victor He­rin­ger já guarda na estante um troféu do renomado Prêmio Jabuti de Litera­tura, pelo romance de estreia “Glória” (7Letras, 2012). Durante os quatro anos de intervalo que levou para publicar sua recente obra, a intitulada “O amor dos homens avulsos” (Com­panhia das letras, 2016), o autor não esteve ausente da literatura; ao contrário, tornou-se colunista da Revista Pessoa, especializada na produção literária de língua portuguesa, além de produzir trabalhos audiovisuais dentro e fora da internet — o conto “Lígia” (e-galáxia, 2014), em formato digital, e um pocket livro artesanal de poucas páginas, com o título de “O escritor Victor Heringer” (7Letras, 2015).

Apesar da pouca idade, He­ringer se mostra um escritor de mão cheia, alternando não somente na prosa e na poesia, como em diferentes linguagens artísticas — algo bem característico de seu tempo. O fato é que o jovem carioca, formado em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), parece possuir uma latente inquietude no ser, o que consequentemente fica registrado em todas as suas produções.

Sem dúvida, ele é uma das grandes promessas da literatura brasileira contemporânea. Embora a aparência bela e juvenil não faça jus à explícita maturidade que apresenta em sua escrita, a serenidade nos olhos e a segura execução de suas palavras ao abordar sobre o ofício da escrita já nos dão a entender que Heringer não se trata de um rapaz comum, porém de um dedicado e sensível artista.

A sensibilidade e dedicação ficam claramente evidentes em “O amor dos homens avulsos”, que narra o envolvimento amoroso entre dois garotos, no subúrbio carioca dos anos de 1970. Esta história de cumplicidade e afeto, e que se dá no florescer da puberdade, é conduzida através das reminiscências de um manco de meia-idade chamado Camilo, que não esquece o que viveu com o amigo Cosme, vítima de assassinato.

Em entrevista exclusiva ao Opção Cul­tural, o autor conta sobre o processo de criação de seu segundo romance, a relação com a literatura e as artes visuais, a internet como espaço de divulgação para os novos escritores, além de seu profundo interesse pela memória.

Seu recente livro, “O amor dos homens avulsos”, fala sobre temas como a descoberta da sexualidade, a questão das diferenças, o preconceito, a solidão e a nostalgia de se viver o primeiro grande amor. Quando e co­mo os personagens Camilo e Cos­me surgiram em sua mente?
Eu sonhei com o início desse romance. Nunca presto atenção aos meus sonhos, não os anoto nem vejo muito mistério na inspiração onírica, mas sonhei com um menino desconhecido chegando a minha casa — como em todo sonho, não era bem eu nem bem a minha casa de infância. O espanto dessa situação ficou comigo. A partir daí, as personagens começaram a ganhar corpo.

É sempre um processo doloroso de incorporação: quando o livro ainda não tem forma, eu também não tenho. Vou recobrando meu senso de existência à medida que as personagens vão se tornando “reais”, e o livro começa a ter voz. No fim, eu que ganho os traços do livro, muito mais do que ele os meus. Por debaixo das técnicas da escrita, está esta ansiedade terrível de ser ninguém. A ilusão da personalidade é muito confortável. Tenho saudades dela.

A temática homoafetiva já era algo que pensava em trabalhar no romance? Como foi criar, para a narrativa, um microcosmo do subúrbio carioca, que é o bairro fictício de Queím?
Nunca sento para escrever pensando “vou trabalhar este tema”. É uma saída fácil, soa como os intermináveis artigos sobre “o tema tal na obra de Fulano”, clichê máximo da crítica literária. E poderia descambar para um oportunismo atroz: escrever com um olho nos supostos temas da vez, com a pretensão triste de ser um autor do seu tempo. As questões surgem durante a escrita, e muitas delas me pegam pelo tornozelo. É uma consequência daquele processo de incorporação sobre o qual falei.

Queím é um bom exemplo. O Rio de Janeiro tem a tendência de se infiltrar em tudo que escrevo. Nasci no Rio, mas não cresci na cidade. Se fosse para ter nostalgia, teria pelo Chile, onde me tornei adolescente (quando voltei ao Brasil, tinha sotaque). Mas o Rio se impôs à medida que fui escrevendo — e eu fui ganhando os traços dessa cidade escrita. O Queím não é só o subúrbio da minha infância, onde minha avó morava, onde a vi pela primeira vez baixar um santo, coisa que eu mesmo viria a fazer depois. É o Rio incorporado. Essa cidade é uma eterna visão dupla para mim.

Embora apresentem abordagens distintas, os romances “Glória” e o “O amor dos homens avulsos” se interligam por cultivar o interesse pela memória. Ambos são ambientados no Rio de Janeiro antigo e alicerçam a forte presença da família no bojo das relações que circundam as tramas. Fale um pouco sobre seu interesse por esses vínculos, que acabam por se tornar característicos em seus respectivos romances, sobretudo no que tange o campo memorialístico.
Escrever é um esconjuro do esquecimento, uma reação um tanto patética contra o inevitável, não só o desaparecimento do corpo, do nome, dos livros, mas das cidades, da espécie e, na perspectiva cosmológica, de tudo que existe. Sinto muita ternura pelo nosso impulso de registro, de documentação, porque é tão bobo e tão megalomaníaco. As coleções de bricabraque, os arquivos nacionais, os álbuns de foto, os filmes de férias em família, aquele disco que enviaram nas naves Voyager são reafirmações bonitas da vida da gente.

Hoje, quando a crise climática já anuncia o fim de um mundo (não necessariamente o fim do mundo), esse impulso faz um sentido bastante pungente. Quando a própria noção de futuro está em jogo, a memória também se recoloca como questão — justo décadas depois de inventarmos a internet, onde encontramos não só as grandes obras e os grandes feitos, mas, felizmente, também as miudezas.

Como surgiu o interesse de incluir elementos visuais nas páginas de “O amor dos homens avulsos”?
Eu sou um escritor promíscuo e toda linguagem me interessa. A fotografia, o vídeo, o desenho, a performance, todas as práticas e códigos contaminam o trabalho. Embora eu me aventure além das fronteiras do livro, no fim tudo re­torna a ele. Ao escrever o romance, por exemplo, aprendi a desenhar como o Camilo-criança. Desenhar não como criança, mas como essa criança. É um gesto ficcional.

Você pertence a uma geração de jovens autores que conseguiram conquistar o seu respectivo público através da internet. Mesmo que as redes sociais sejam um canal facilitador de divulgação da obra de um determinado artista, há quem diga que a figura do autor anda mais em alta do que a sua obra. Qual sua visão sobre isso?
A internet foi essencial para escrever “O amor dos homens avulsos”. Sua espinha dorsal, a lista de nomes enviados pelos futuros leitores, é fruto da esquisita proximidade entre autor e público online. Foi uma das coisas mais bonitas que me aconteceram, esse pacto de confiança. E se eu não fosse, mal e mal, uma “figura do autor” na internet, não teria como fazê-lo. Então, além de utilizar a internet como plataforma de divulgação ou conquista de público, me interessa pensar essas potencialidades. Claro que as redes sociais fazem parte da máquina do espetáculo, que cria e mói celebridades. Em tese, o escritor não está a salvo da tritura, mas tendemos a dar uma importância desmedida aos nossos holofotes.

De Joyce para cá, o romance de uma forma geral nunca mais foi o mesmo. Não estamos mais presos a padrões narrativos pré-estabelecidos. A reinvenção da linguagem literária, que eclode lá no início do século 20, de certa forma, ainda ecoa bastante em nossa produção atual, sobretudo se analisarmos a confluência das linguagens artísticas que alguns escritores vêm trabalhando dentro de suas respectivas obras. Você mesmo trabalha conciliando texto e audiovisual. Inclusive, chegou a participar de uma exposição que apresentava essa mescla. Pode falar um pouco sobre isso?
O romance tem uma trajetória de reinvenções constantes. Quan­do Laurence Sterne publicou “Tristram Shandy”, no século 18, o romance nunca mais foi o mesmo. Quando Machado publicou “Memórias póstumas de Brás Cubas”, em 1880, o romance nunca mais foi o mesmo. E Joyce, Gertrude Stein, Georges Perec, Hilda Hilst, César Aira… O romance está sempre nunca mais sendo o mesmo.

O eco de permanente revolução é o que anima os romancistas e é o que me leva a explorar diferentes práticas artísticas. Retorno ao romance após esses exercícios como quem volta de viagem, bem-disposto, com as ideias arejadas e os músculos da ficção tonificados. Gosto de acreditar no artista completo, de muitas artes e uma arte só, cuja preocupação maior é a fundação de mundos (a famosa poiesis), independente de gênero, forma ou técnica. Essa, claro, é uma fantasia teórica. Dá bons frutos, híbridos e saborosos, mas há algum tempo aceitei ser irrealizável de forma plena.

Como é a sua rotina de criação?
Costumo reescrever o mesmo livro quatro, cinco vezes. Há momentos de entusiasmo, em que consigo trabalhar todos os dias, por semanas, independentemente das pressões externas (o aluguel, sobretudo), mas em geral não consigo estabelecer uma rotina digna do nome. Essa incerteza de certa forma me motiva.

O que tem achado da literatura brasileira contemporânea? Quais são os autores que têm lido ultimamente?
Algo que tem me encantado é a proliferação de microeditoras, uma produção interessantíssima, livros de artistas, zines, poesia, fotolivros etc., que se reúnem em feiras pelo país. Por exemplo, a Luna Parque, dos poetas Marília Garcia e Leonardo Gandolfi, dois dos meus preferidos, que recentemente lançou uma tradução/dublagem de “Traffic”, do Kenneth Goldsmith, e vem publicando autores brasileiros contemporâneos. Diferentes modos de publicação são sinal de saúde do meio literário. Há coisas ótimas por toda parte, em editoras de todos os portes.

Lendo “A carteira de meu tio”, de Joaquim Manuel de Macedo, romance escrito no fim do século 19, vejo que, desde então, pouca coisa mudou dentro do cenário da política brasileira. É possível ainda ter esperança e acreditar em boas novas em dias cada vez mais sombrios como os nossos?
Os dias andam cada vez mais sombrios, mas eu tenho alguma confiança na política. Não na política engravatada, essa cafonice transcendental, mas na potência libertadora de movimentos que, ao menos em princípio, são avessos à tomada do poder institucional. O início das jornadas de junho, em 2013, foi um vislumbre do que poderia ter sido: a pressão popular que exigia o direito à cidade (a democratização do acesso ao espaço público) abria a possibilidade de se expandir para algo que nem nós mesmos sabíamos o que era, mas tinha uma direção bastante clara, a participação real do cidadão.

Esse impulso foi usurpado pelos engravatados dominantes que, numa disputa palaciana, polarizaram o país nesta farsa que vai se desenrolando de maneira cada vez mais absurda. Nós, ainda atônitos com o vaudeville macabro, aos poucos, vamos nos lembrando de que, há quase quatro anos, éramos autônomos, confundíamos o poder e estávamos tentando criar uma linguagem nova, porque não há política nova sem linguagem nova. Esse desejo não desapareceu. Hoje está nas escolas ocupadas.

Dos seus primeiros escritos para o mais recente livro, o que mudou no autor Victor Heringer com relação ao ofício literário?
Pouco a pouco, vou me diluindo nos livros que escrevo. No futuro, assim espero, poderei enfim ser ninguém em paz. l

Márwio Câmara é jornalista e pesquisador nas áreas de Literatura e Cinema. Mora no Rio de Janeiro.

Uma resposta para ““Escrever é uma reação um tanto patética contra o desaparecimento inevitável de tudo que existe””

  1. Josefina Neves Mello disse:

    gostei muito de ler isto <3

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