Erotismo e laços familiares em “Certos casais”, de Hugo Almeida

Chama a atenção no autor sua melhor qualidade, o manuseio da linguagem que, em fluxo contínuo, dá unidade a todas as narrativas desse livro exemplar

Álvaro Cardoso Gomes

Especial para o Jornal Opção

Foi com o maior prazer que eu aceitei o convite do Hugo Almeida para apresentar o seu livro, recém-saído do forno, “Certos Casais”, lançado pela Editora Laranja Original, de São Paulo. Eu diria que é uma prestimosa incursão nesse gênero enganadoramente tão fácil (talvez pelo tamanho), mas, na realidade, tão difícil, tão complexo e que só respeita aqueles praticantes que, ao escrever, aderem a um caso único, exemplar, servindo-se da concisão e, sobretudo, da força do diálogo. É o que acontece em todos os textos do autor, cujo exemplar mais notório é “Trovões” que lembra, em princípio, um hai-kai, no seu modo contido de traduzir os “desastres do amor” em poucas palavras, a lembrar, como não poderia deixar de ser, o mestre Trevisan:

I

– Tã, minha filha, seu pai largou tudo.

         – Meu Deus!, o que houve, mãe?

– Ele foi embora, Tã.

– Pra onde?

         – Sei lá. Pra sempre.

II

Palmira espanta a mosca do nariz.

– Por que ele fez isso, mãe? Por quê?

– Você não conheceu seu pai, Tâmara.

– Eu amava ele, mãe.

Palmira pisca.

A lágrima cai, quente, gorda, no lábio do marido.

Hugo Almeida, escritor: sua melhor qualidade é o manuseio da linguagem que, em fluxo contínuo, dá unidade a todas as narrativas | Foto: Reprodução

“Certos Casais” é dividido em duas partes bem distintas. A primeira é formada de oito narrativas, toda circunscrita a uma família, cujos membros se alternam numa fala contínua, num longo discurso indireto-livre, através de que expõem os seus encontros, os seus desencontros e, sobretudo, o acender e o arrefecer do erotismo, do amor. Já a segunda é formada de uma só narrativa, com um título para lá de expressivo, “Amor Radioativo”, e que tem um forte caráter histórico, biográfico, pois se concentra na trágica e comovente história do famoso casal de cientistas Pierre (1859-1906) e Marie Curie (1867-1937).

Assim, chama a atenção em Hugo Almeida sua melhor qualidade, o manuseio da linguagem que, em seu fluxo contínuo, dá unidade a todas as narrativas. As vozes, alternando-se e mostrando desencontros e desenganos, compõem um mundo em que o som da fala é que pauta as relações humanas, numa corrente interior que se exterioriza, promovendo movimentos como numa pauta musical, como se pode ver no fragmento abaixo:

Aí, ela muda de alvo. Você já viu o que o Gil traz naquela pasta gorda? Mexer nos papéis dele? Seria quase assinar o atestado de óbito. Quem o vê assim, gentil, um cordeirinho, não imagina como ele é, como pode ser violento. Um crápula, mãe. Não inventa, minha filha, não inventa.

(Do conto “Fogo baixo, labareda”)

Apesar dos laços de sangue e dos laços de um pretérito e suposto amor e/ou paixão, acabam por desvelar um mundo em que os seres se encontram por circunstâncias e pela força de um destino que os impulsiona para o espaço da dúvida de desalento, a ponto de, em “O sono do vulcão”, um dos protagonistas produzir um sintomático aforismo – “Deus fez o mundo à toa”, como a representar a falta de sentido dos laços familiares, de amor e da existência como um todo. Viver é, pois, uma aventura errante de vozes que parecem se procurar apenas para afirmar a força do desencontro, já que são movidas por anseios que não atingem uma meta, já que o acaso parece determinar seus caminhos. Nada, pois, tem sentido, tudo é ilusão, derrisão, como numa narrativa romanesca baixa.

Contudo, o exasperado niilismo – sempre temperado pelo humor ácido – de Hugo Almeida encontra sua contradição no último conto do livro. Nele, o amor é uma dádiva, pois vem acompanhado de uma entrega dos protagonistas a uma alta missão. O amor é amor que mata, na medida em que é radioativo; contudo, em contrapartida, aponta o caminho para a redenção do homem.

Em realidade, o amor à ciência do casal Curie poderia ser similar ao amor pela arte, ao ofício dos pintores (alguns dos quais são comentados, por meio de ekphrasis em “Fogo baixo, labareda”) e, como não poderia deixar de ser, ao do escritor. Fazer destilar uma fala contínua, procurando exibir interioridades represas e fazendo vir à luz o que manda o subconsciente é uma das tarefas mais nobres, pois que revela, por trás do véu fosco das coisas, as pulsões mais profundas do ser.

Com todas essas qualidades, nós podemos chegar à conclusão que esse é um livro exemplar. Exatamente pelo fato de não só por traduzir o consciente, o inconsciente das pessoas, mas também por trazer reflexões artísticas não só da literatura, mas também da literatura irmanada a uma das artes que é a pintura.

Portanto, eu recomendo com entusiasmo uma obra desse naipe, que é um dos mais importantes lançamentos do Brasil na atualidade.

Álvaro Cardoso Gomes, paulista, é escritor e doutor em Literatura pela Universidade de São Paulo (USP), onde foi professor. Lecionou também na Universidade da Califórnia, Berkeley, como Visiting Professor, e em Middlebury, como Visiting Writer. Já publicou mais de 90 livros.

Biografia de Hugo Almeida

Hugo Almeida (1952), escritor e jornalista mineiro radicado em São Paulo desde 1984, é autor de mais de dez livros, entre eles o romance “Mil Corações Solitários” (Prêmio Nestlé-1988), os infantojuvenis “Todo Mundo É Diferente”; “Meu Nome É Fogo”; “Porto Seguro, Outra História” e “Viagem à Lua de Canoa”, este foi selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE), do Ministério da Educação, em 2011.

Doutor em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), Almeida organizou “Osman Lins — O Sopro na Argila” (Nankin, 2004), ensaios, e as coletâneas de contos “Nove, Novena: Variações” (Olho d’Água, 2016) e “Feliz aniversário, Clarice” (Autêntica, 2020). “Certos Casais” é o seu quarto volume de contos.

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