A “Era de Ouro” das polêmicas capas de discos

Muitas histórias e até mitos envolvem a arte de grandes álbuns de artistas como os Beatles, Gal Costa e Tom Zé

 

Beatles II

De 1966, o álbum “Yesterday And Today” ficou conhecido por sua “capa de açougueiro” (acima), o que gerou muita polêmica | Fotos: Reprodução

Ademir Luiz e José Maurício
Especial para o Jornal Opção

A cultura do disco de vinil, principalmente entre as décadas de 1960 e 1980, possuiu muitas particularidades. Uma delas era o trata­men­to artístico dado às capas. Com a substituição industrial dessa mídia pelo CD, em meados da década de 1990, os projetos de capa dos lançamentos tiveram que ser repensados. Em alguns casos, discos antigos foram relançados em CD com capas diferentes, bastante simplificadas ou apenas com detalhes recortados da imagem original. A justificativa era a de que o espaço diminuiu muito e tornou-se impossível viabilizar trabalhos gráficos mais sofisticados. Houve exceções, é claro, mas a regra passou a ser variações mais ou menos estilizadas da foto do artista. Ou seja, um retrocesso. Voltou a ser o que era até a década de 1950.

Devido a polêmicas com a capa original, a gravadora teve que colar uma nova imagem por cima da antiga | Foto: Reprodução

Devido a polêmicas com a capa original, a gravadora teve que colar uma nova imagem por cima da antiga

Embora haja alguma controversa, normalmente se reconhece que os Beatles foram os principais responsáveis por disseminar a ideia de que a capa de um disco de música pop poderia ser um objeto artístico. Seus primeiros álbuns, como “Please Please Me” e “With the Beatles”, ambos de 1963, e “Beatles for Sale”, de 1964, ousavam discretamente. Mostravam a tradicional foto da banda, mas por ângulos inusitados. Em “Please Please Me”, o fotografo está no andar de baixo de um prédio e registra a banda na sacada do andar de cima. Em “With the Beatles”, numa imagem em preto e branco, cada um dos músicos mostra apenas metade do rosto, num jogo de luzes e sombras. A aparente simplicidade de “Beatles for Sale” engana. Os mais atentos perceberão que os Beatles estão em foco, mas em segundo plano. O primeiro plano parece ser partes da folhagem de uma floresta.

A partir de “Help”, de 1965, que mostra a famosa imagem com os integrantes da banda numa paisagem glacial, cada um representando um sinal referente ao pedido de ajuda do título do álbum, as capas ficaram cada vez mais sofisticadas e, em alguns casos, ousadas; em determinados momentos a ponto de serem polêmicas.

O exemplo mais célebre é “Yesterady and Today”, de 1966, que ficou conhecida como a “capa do açougueiro” (Butch Cover) ou a “capa proibida dos Beatles”. Trata-se de um disco lançado apenas nos Estados Unidos e Canadá, contendo uma seleção de músicas lançadas originalmente em “Help”, “Rubber Soul” e “Revolver”.

A capa mostra os sorridentes meninos de Liverpool vestindo jalecos de açougueiros, sujos de sangue, cercados por bonecas de plástico decapitadas e mutiladas, e pedaços reais de carne. A foto, de péssimo gosto para alguns, não foi gratuita. Planejada pela banda e realizada pelo fotografo Robert Whitaker, o mesmo que foi responsável pela capa de “Rubber Soul”, a imagem tratava-se de um protesto contra o desmembramento de seus trabalhos originais, e, portanto, do conceito de cada álbum, pelas subsidiarias da gravadora EMI no mercado internacional, particularmente o dos Estados Unidos.

A iniciativa rendeu controvérsia, mas não foi bem sucedida comercialmente. Aparentemente, a primeira prensagem de 750 mil cópias da capa do açougueiro foi distribuída apenas entre lojistas e emissoras de rádio, como forma de divulgar o lançamento. Porém, houve recusa em massa em expor e tocar o disco, motivado pela repulsa à capa. O disco foi rapidamente recolhido, uma nova capa foi colada sobre a anterior e redistribuído. A capa original tornou-se lendária e um valioso item de colecionador.

Foto: Reprodução

Foto: Reprodução

O protesto dos Beatles gerou polêmica pela forma explícita com que foi produzida. O lendário guitarrista Jimi Hendrix usou uma estratégia diferente quando lançou seu terceiro e último trabalho de estúdio, “Electric Ladyland”, em 1968. A capa principal do disco era um close psicodélico em tons avermelhados de Hendrix, po­rém, abrindo o álbum, o encarte revelava uma foto mostrando um grupo de mulheres nuas sentadas ou deitadas no chão em um ambiente de penumbra. Mulheres caucasianas, negras, louras, ruivas e morenas. Em primeiro plano, apenas mulheres brancas. Uma delas, ligeiramente bronzeada, segura uma foto de Hendrix. Quem seriam essas mulheres? O harém de Jimi?

Como era de se prever, houve reclamações vindas de todos os lados. Os mais conservadores reclamaram da nudez em si, outros se intitulavam libertários da exploração erótica das mulheres. Mas controvérsias à parte, “Electric Ladyland”, desde o lançamento, foi considerado um dos maiores álbuns de rock de todos os tempos.

No Brasil, uma das polêmicas mais célebres com artes de álbuns envolve a cantora Gal Costa, com Índia (1973)

No Brasil, uma das polêmicas mais célebres com artes de álbuns envolve a cantora Gal Costa, com Índia (1973)

Mas, como dizem, não existe pecado ao sul do Equador. Será? O Brasil também teve suas polêmicas envolvendo álbuns que exibem a nudez feminina. Um dos casos mais célebres envolveu uma de nossas principais cantoras: Gal Costa. Décadas antes de estrelar o espetáculo “O Sorriso do Gato de Alice”, dirigido por Gerald Thomas, no qual cantou com os seios nus, nossa Rainha da Afinação lançou o disco “Índia”, de 1973. A capa mostra um close do púbis da cantora, que não está nua, mas usando um tapa-sexo vermelho das antigas, do tipo que as modelos usavam para desfilar de roupas intimas — caso houvesse alguma transparência —, que hoje chamaríamos de tanga, e retirando uma saia indígena.

A capa de Décio Pignatari objetivava afrontar o moralismo do regime militar

A capa de Décio Pignatari objetivava afrontar o moralismo do regime militar

Na contracapa, vemos a cantora de corpo inteiro, paramentada com indumentárias pretensamente indígenas, mais parecida com uma “pele vermelha” de faroeste americano; mas, detalhe, de seios à mostra. Na verdade, trata-se de uma imagem até singela, mas bastou para chamar a atenção dos censores responsáveis pela “moral” e pelos “bons costumes”. O problema era a exposição pública nas lojas de disco.

Para solucionar o problema “legal”, sem precisar destruir as capas já impressas, a gravadora Philips envolveu o disco em embalagens de plástico preto ou azul. Para ver, teria que comprar. Com certeza, muita gente esbugalhou os olhos.

Por falar em olhos, no mesmo ano, 1973, o maestro Tom Zé lançou o álbum “Todos os olhos”. Se o problema do disco da Gal era o que se via, o disco de Tom Zé era o que se pensa que vê. Circulam diversas teorias sobre esta capa. A mais recorrente é que se trata não de um olho de vidro, mas de uma bola de gude encaixada no ânus. Aparentemente, a ideia original, proposta pelo poeta Décio Pignatari, sócio da agência de publicidade E=mc2, era mesmo essa.

O objetivo, claro, era afrontar o moralismo imposto pelo Regime Militar. Um tanto constrangido, não de todo convencido, Tom Zé concordou. O assistente de estúdio Reinaldo Moraes ficou responsável por realizar as fotos. Tentou com uma namorada, fã do tropicalismo, mas não deu certo. As imagens ficaram explícitas demais, não gerariam a dúvida do “será que é isso mesmo?” esperado. Outro fotógrafo, Chico Andrade, tentou com uma prostituta, novamente sem sucesso. Optaram por chamar a namorada de Reinaldo Moraes de volta e fotografá-la com uma bola de gude na boca, com os lábios levemente crispados. Dessa vez, as fotos ficaram perfeitas e foram usadas na capa do disco.

A essa altura a história da bola de gude anal já tinha se espalhado. O próprio Tom Zé só foi informado da verdade tempos depois que o disco foi lançado. Hoje, a lenda tornou-se fato. Como se diz no clássico faroeste “O Homem que Matou o Facínora”, de John Ford, “se a lenda é mais interessante do que a verdade, publica-se a lenda”.

Foto: Reprodução

Capa do livro “The Lowbrow Art of Robt. Williams”, de 1979 | Foto: Reprodução

Em alguns casos, o que parece que está em questão não seria verdades ou mentiras, mas limites da liberdade de expressão. Parece ser o caso da capa do álbum de heavy metal “Appetite for Destruction”, lançado pela banda americana Guns and Roses, em 1987. A capa mostra, segundo a interpretação mais corrente da ilustração, um ser metálico, possivelmente um robô, prestes a ser atacado por uma criatura monstruosa, após ter violentado uma jovem, que aparece jogada no chão, desmaiada e desnuda. Curiosamente, o desenho não era original. Havia sido feito pelo cartunista Robert Williams, que o intitulou exatamente “Appetite for Destruction”, tendo sido usada para ilustrar a capa de seu livro “The Lowbrow Art of Robt. Williams”, de 1979.

A capa potencialmente geraria múltiplas interpretações sobre as complexas relações entre homem e máquina, inteligência artificial e coisas do tipo, mas acabou se tornando controversa única e exclusivamente porque foi considerada ofensiva. Não pelo público heavy metal, que não se abala facilmente, mas pelo imenso esquema midiático no qual a banda estava se enveredando.

O álbum de estreia do Guns gerou polêmica e, após pressão, acabou substituída

O álbum de estreia do Guns gerou polêmica e, após pressão, acabou substituída

O Guns and Roses era um sucesso pop anunciado e “Appetite for Destruction” seu álbum de estreia. Se por um lado os metaleiros de carteirinha não se importavam nem um pouco com o potencial agressivo da imagem, por outro os pais dos adolescentes gritadores que se vestiam de preto movidos pela moda do metal podiam se assustar.

Os lojistas e a MTV encabeçaram um movimento exigindo a mudança da capa, o que de fato aconteceu, sendo substituída pela famosa imagem da cruz com as caveiras dos integrantes da banda. Entre a cruz e a caldeirinha, salvaram-se todos, pois o disco é fantástico.

E fantástica foi essa “Era de Ouro” das capas de discos. Lamenta­velmente, o que era ruim piorou e depois da redução das imagens com o CDs veio a indigência completa com a difusão do formato MP3 e similares. Nessas horas, até conseguimos dar alguma razão para os ludistas.

* Ademir Luiz é historiador e professor da UEG e José Maurício é engenheiro eletricista e também professor da UEG.

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