Entrevista com o poeta Martín López-Vega

“Nenhum leitor de poesia na Espanha duvida de que Lêdo Ivo seja um dos poetas mais importantes da poesia universal do século XX. Ficaria muito triste de saber que o Brasil não reconhece isso. Triste não por Lêdo, mas pelo Brasil mesmo”

Poeta e tradutor espanhol Martín López-Vega

Wladimir Saldanha
Especial para o Jornal Opção

Martín López-Vega (Poo de Llanes, Asturias, Espanha 1975) é autor de vários livros de poesia, que já reuniu em dois volumes: “Retrovisor” (2013) e “La eterna cualquiercosa” (2014). Publicou recentemente a obra ensaística “Obreros de la luz” (2017). É tradutor de Lêdo Ivo, de quem verteu para o espanhol 7 livros de poesia (o último deles, “Relâmpago”, ainda inédito no Brasil) e uma antologia da prosa crítica.

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Começo por uma recordação. Em 2008, há nove anos, éramos ambos publicados na Revista DiVersos, do poeta português José Carlos Marques. Não era então possível imaginar que o “livreiro de Madri”, como dizia a nota sobre o poeta Martín López-Vega, teria em comum a admiração por Lêdo Ivo, a quem seriam dedicados os meus próprios poemas daquela edição. Em um dos seus textos, está dito: “Só com os andaimes da memória/ se constroi a felicidade”, o que soa essencialmente lírico, recordativo. Ainda pensa assim?

Lembro-me bem daquela revista! Quanto aos andaimes, eu gosto de poetas que sejam contraditórios, e não há maneira melhor de ser contraditório do que ser total, como era o nosso Lêdo Ivo. O que eu queria dizer com esses versos não é que só exista a felicidade no passado, mas que não existe sem ele. As boas lembranças acompanham, e as más fazem-nos ficar agradecidos pelos bens do presente. Eu vivo acompanhado não só daqueles que estão agora ao meu redor, mas também dos amigos de outros tempos, dos velhos amores. E não magoam: acompanham. Minha maneira de ser feliz hoje inclui ficar em paz com todos eles.

Como se deu o seu contato com a obra de Lêdo Ivo e em que circunstâncias decidiu traduzi-lo?

Eu li os poemas de Lêdo Ivo pela primeira vez quando era estudante na Universidade do Minho, em Braga, Portugal. Naquela altura foram publicados alguns poemas dele no Jornal de Letras de Lisboa, e eu imediatamente fiquei apaixonado por aquela poesia. Traduzi um daqueles poemas imediatamente para publicá-lo na revista “Reloj de arena” que eu então dirigia nas Astúrias. Anos depois, Jeannette Lozano me perguntou se eu gostaria de traduzir dois livros de poesia de Lêdo para a Vaso Roto – e, claro, aceitei com grande alegria. O poema que eu tinha traduzido em Portugal estava incluido num daqueles livros, “O rumor da noite”.

Em seu pronunciamento na sessão em homenagem a Lêdo Ivo na Academia Brasileira de Letras, você disse que ele “era já um poeta espanhol”. No Brasil, apesar de algum reconhecimento, sua obra permanece semiobscura, sobretudo pela associação de seu nome à lírica de caráter discursivo. Como tradutor que acompanhou a recepção do poeta na Espanha, você avalia que seu país se manteve de algum modo mais permeável ao tipo de linguagem de Lêdo Ivo? Sim ou não – e por quê?

É muito importante que a nossa leitura das gerações anteriores não fique dependendo do que é “chique” em cada momento. Eu não sabia, por exemplo, que a lírica discursiva não estivesse em moda no Brasil agora, mas, de qualquer maneira, acho que um país que se esquece de um poeta, de uma figura intelectual como Lêdo Ivo, fica muito empobrecido – e automaticamente menor do que merece. Se o que você diz é verdade e ele permanece semiobscuro, isso não diz da valia de Lêdo Ivo, mas da incapacidade do seu país para julgar um autor imenso, talvez o poeta brasileiro mais traduzido para outras línguas, e com certeza para o espanhol. Não há outro poeta brasileiro mais traduzido para o espanhol do que o Lêdo: nem Drummond, nem Bandeira, ninguém. E quase posso dizer que há muito poucos poetas estrangeiros tão traduzidos quanto o Lêdo. O que é incrível, pois sabemos bem como a anglofilia dominante determina que sejam os poetas estadunidenses os mais traduzidos. Lêdo tem muitos leitores na Espanha, mas não acho que tenha a ver com a discursividade da poesia dele; os leitores de poesia na Espanha são variados no seu gosto. Acho que tem mais a ver com a profundidade, a variedade, da obra dele; obra que é ao mesmo tempo brasileira e universal e, nos últimos tempos, cheia de referéncias a autores espanhóis, especialmente os do chamado Século de Ouro. Nenhum leitor de poesia na Espanha duvida de que Lêdo Ivo seja um dos poetas mais importantes da poesia universal do século XX. Ficaria muito triste de saber que o Brasil não reconhece isso. Triste não por Lêdo, mas pelo Brasil mesmo.

Você acaba de lançar uma obra ensaística, Obreiros da luz, sobre a influência do pensamento de Bergson na literatura. Essa obra tem o título colhido em um poema de Lêdo Ivo sobre o pintor Vermeer. Fale-nos um pouco desse trabalho e das conexões com sua produção tradutória e autoral.

Mais do que um ensaio, esse livro é uma poética, e quase, se você quer, uma auto-justificação; nele, eu leio os meus poetas preferidos à procura do sentido do que eu próprio tento fazer com a minha poesia. Não acho que possa ser lido como uma interpretação unívoca da poesia dos últimos séculos, mas apenas como uma leitura possível, que é a minha, e que de qualquer maneira escrevo para tentar deixá-la atrás e dar mais um passo. No livro eu falo da “durée” de Bergson como equivalente do que na vida é a intensidade, e de como procuramos isso no poema. É um conceito muito aberto, que pretende ser mais uma janela do que uma teoria.

Como percebe a situação da poesia que você faz, traduz e analisa, de um modo geral, na contemporaneidade – isto é, que espaço existe para a lírica discursiva hoje?

Sou um leitor onívoro, então é impossível para mim responder à sua pergunta. A poesia que eu prefiro é uma poesia que pensa, que tem em conta a história, a filosofia… Ocorre-me um Auden, um Brodsky. Mas também uma poesia que sabe que a única maneira de achar certa verdade nisso tudo é quebrar o discurso – e penso então em poetas como Adrienne Rich ou Muriel Rukeyser. Mas sou capaz de achar felicidade leitora em muitas outras coisas. O que é complicado para mim é achar interesse num certo tipo de lírica mais autorreferencial, sem ambição, que canta por cantar. Prefiro que me façam pensar. Mas, claro, isso é uma ambição minha que provavelmente não tenha nada a ver com os poemas que escrevo. E ainda bem: isso quer dizer que ainda posso melhorar (espero!).

Poema “Arte Pobre”, de Martín López-Vega, seguido de tradução inédita de Wladimir Saldanha e Marcio Gomez Benito

Arte Pobre
Junté cuatro traviesas de la vía
que mi abuelo vigilaba
junto al paso a nivel de Pancar
y sobre ellas pinté,
como sobre una mesa de pueblo,
manzanas agrias, con la huella
de una mano y pájaros
y un camino señalado
para el gusano que susurra:
ser o no ser —lo mismo da;
estar o no estar —así es como el almiar
traduce a Shakespeare.

Primero el filo y luego la simetría.
Ha sido ese nuestro camino.

Cada segundo, cada centímetro
de mi piel es atravesado
por más de cien mil millones de partículas.
Vienen de otras galaxias,
del sol,
de mundos que no conocemos,
van de camino
a otros mundos igual de extraños.

Mientras,
sobre las brasas
la pota puesta a cocer.

En realidad
en el arte pobre
todo depende de la luz;
si alguien se lleva a la cuadra
el candil de carburo
en la cocina
nos quedamos a oscuras.

Arte Pobre
Juntei quatro dormentes da estrada
de ferro que o avô zelava
na passagem de nível em Pancar
e sobre eles pintei,
como sobre uma mesa rústica,
maçãs azedas, com a marca
de uma mão e pássaros
e um caminho demarcado
para o verme que sussura:
ser ou não ser – pouco se me dá;
estar ou não estar – assim é que a meda
traduz Shakespeare.

Primeiro o gume, depois a simetria.
Tem sido esse o nosso caminho.

Cada segundo, cada centímetro
de minha pele é perpassado
por mais de cem bilhões de partículas.
Vêm de outras galáxias,
do sol,
de mundos que não conhecemos;
vão a caminho
de outros afins mundos estranhos.

Nisso,
por sobre as brasas,
o marisco abre fervura.

A bem dizer,
na arte pobre
tudo depende da luz;
se alguém leva ao curral
o lampião de carbureto,
cá na cozinha
ficamos no escuro.

 

Wladimir Saldanha é poeta e tradutor.

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Fátima

Pode começar a ficar triste Martín. Ledo Ivo não é conhecido e estudando nas escolas brasileiras q dirá do público em geral.

ADALBERTO DE QUEIROZ

Bravo! à Wladimir Saldanha, que, além de nos trazer um dos mais impressionantes livros de poesia dos últimos anos (Leiam-no, leiam-no!! “Natal de Herodes” é o melhor livro de um católico poeta no Brasil que perdeu a inteligência católica nos últimos anos…) – dizia: além disso, é bom entrevistador e tradutor. Deus abençôe o talento de Wladimir Saldanha e que nos traga outros versos ao longo de sua vida. Longa vida ao poeta. E revivamos Lêdo Ivo, se é que tomamos vergonha na cara, depois disso que nos diz o entrevistado. … “Nenhum leitor de poesia na Espanha duvida de… Leia mais