Entre o humano e o fantasmagórico, a via-crúcis pela poética que há na morte

Em “A casa antiga”, Gregory Haertel acompanha a jornada de um homem para enterrar a esposa numa cidade inundada

De linguagem experimental bem elaborada, o catarinense Haertel encorpa a obra de uma poética crua, que ganha relevo na tradução dos sentimentos, na escuridão da carne e decomposição da matéria

De linguagem experimental bem elaborada, o catarinense Haertel encorpa a obra de uma poética crua, que ganha relevo na tradução dos sentimentos, na escuridão da carne e decomposição da matéria

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

“O que é um fantasma?”, questiona-se o narrador de “A espinha do diabo”, na introdução do longa de 2001, co-escrito e dirigido pelo mexicano Guillermo del Toro. “Um momento terrível condenado a repetir-se uma e outra vez? Um instante de dor, talvez? Algo morto que parece por algum momento vivo? Um sentimento suspenso no tempo? Como uma fotografia borrada. Como um inseto preso em âmbar. O que é um fantasma?”.

Um livro pode ser um fantasma. Ter, na cultura do seu enredo, uma atração fantasmagórica. “A casa antiga”, de Gregory Haertel, é um livro fantasma em sua forma, pois instila uma atração fantasmagórica, compactuando as interrogações que predizem o destino do narrador do longa à existência de seu protagonista. Um homem preso a um instante de dor, condenado a um momento terrível que se repete uma e outra vez, em ra­zão do qual tem de conviver com algo morto que parece por algum momento vivo, e pelo qual conserva um sentimento suspenso, como se ele próprio se fizesse uma fotografia borrada, um inseto preso em âmbar; um fantasma, afinal.

“O homem desperta sentindo o corpo morto de Alice esfriando o seu” é a primeira frase do romance, e carrega, em si, toda sua força simbólica. Tudo ali é gélido, lânguido e desolador. O cenário de abertura é o sótão da casa onde vivem marido e mulher. Eles se encontram refugiados porque a parte baixa está inundada pelo rio que corta a cidade, que transbordou depois de dez dias de chuva incessante. Toda a cidade de Aguardo está debaixo d’água, portanto. Ilhados, com o auxílio de uma vela moribunda e escassos suprimentos, o homem assiste a esposa agonizar e, sem socorro, morrer. O que vem a seguir é o esforço sobre-humano para dar um fim digno ao corpo.

O escritor catarinense constrói sua trama entre a jornada do personagem e a história mental. Desse modo, numa referência bíblica, os capítulos são divididos da morte ao luto, dos seis dias de via-crúcis até o enterro. Esse é o tempo real, mas não o expositivo. Durante a sua convivência com o cadáver, e toda provação de enfrentar a força da natureza, o homem percorre uma sequência de eventos de várias temporalidades, visitando a memória e mantendo um diálogo com uma voz onisciente que é a sua e também a presença latente da esposa falecida. “Como é que eu pude amar tanto algo que não era este corpo que está nos meus braços, mas era também este corpo?”, indaga-se.

“O homem desperta sentindo o corpo morto de Alice esfriando o seu” é a primeira frase do romance, e carrega, em si, toda sua força simbólica

“O homem desperta sentindo o corpo morto de Alice esfriando o seu” é a primeira frase do romance, e carrega, em si, toda sua força simbólica

A bivalência narrativa cria um palco para a ascensão da subjetividade, penetrando na psicologia dos personagens e evocando fantasmas que antecederam às suas atuais condições. O primeiro encontro, o namoro, as transas no andar de cima, enquanto os pais dela, no andar de baixo, assistiam televisão, o acidente automobilístico que matou os pais dela, o casamento e a mudança para a casa antiga dos pais dela, a impossibilidade de terem filhos, a traição. Haertel estrutura seu enredo num formato não convencional, no qual os diálogos se infiltram nos parágrafos, transitando entre passado e presente de uma frase a outra, e alinhavando a tessitura por meio de repetições, elipses, metáforas e imagens de tonalidades expressivas, ora parecentes a delírios, ora parecentes a pesadelos.

Tal efeito contamina a linguagem que, a despeito de um alto teor de experimentalismo, é bem elaborada, e se encorpa de uma poética crua, pungente, que ganha relevo na tradução dos sentimentos, assim como, num caráter mortiço, na escuridão da carne, na decomposição da matéria. “O que era Alice está retorcido e verde. A pele solta-se dos membros moles. Moscas morrem grudadas na gosma que cola o que era Alice, no carrinho. A língua da mulher, inchada e coberta por feridas, salta pelo orifício da boca. Ocupa o buraco dos olhos um líquido viscoso pontilhado por ovos pretos. Ainda frio, o corpo parece menos sólido e gasoso. A nuvem grossa do cheiro é mais palpável e firme do que aquilo que sobrou de Alice no corpo exposto. (‘Pare de me olhar assim’)”.

No ato final, a elevação de outro drama aproxima o texto de uma combinação entre o conto “A casa inundada”, do uruguaio Felisberto Hernández, e o argumento de “A passagem tensa dos corpos”, do mineiro Carlos de Brito e Mello. O paralelo, contudo, não macula a originalidade de um romance que foge dos padrões e, por assim ser, alcança sua própria excelência. O que é um fantasma? Um sentimento? Uma palavra? Uma vida? Um fantasma é uma casa antiga. Uma que resplandece.

Leia um trecho de “A casa antiga”, romance do catarinense Gregory Haertel

O sol seca a cidade. Mesmo assim, o térreo da casa é um aquário raso. A televisão, esquecida, afogou todos os personagens. Os pais de Alice, se ainda andassem por ali carregando a sua obesidade, teriam que caminhar com água nas cinturas. O homem olha a lagoa de barro e pensa que viveu três meses em uma palafita, sem saber. Ele procura o ouvido de Alice mais fácil de ser alcançado e sussurra ‘vivemos três meses em uma palafita, amor. Alguma vez imaginaste isso?’ O homem sabe que dali em diante, daquela manhã em diante, tudo o que ele viver, tudo o que pensar, tudo o que sentir, será somente dele. Acostumado, tenta de novo ‘vivemos três meses em uma palafita, amor. Alguma vez imaginaste isso?’. Ele sabe que Alice não pode responder. Ele sabe que Alice não tem como entender aquele comentário. O homem, apesar de Alice, apesar da casa, apesar dos improváveis peixes disputando espaço com os móveis esquecidos no térreo, sente-se sozinho. Pela primeira vez desde que Alice morreu, o homem chora.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

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