Entre a toga e o perdão: a epopeia ética de Pedro Soares Correia e a redenção pelo afeto
10 fevereiro 2026 às 19h59

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A obra “Entre a Toga e o Perdão”, de autoria do consagrado jornalista e escritor Salatiel Soares Correia, apresenta-se como um marco na literatura memorialista e biográfica brasileira. O autor — figura de proeminência intelectual, engenheiro eletricista pelo Inatel, administrador pela PUC-Goiás, mestre em Planejamento Energético pela Unicamp e sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás — utiliza sua nona obra para realizar um mergulho profundo na complexa relação entre pai e filho. O livro não é meramente um registro de fatos, mas uma jornada motivada por um relacionamento outrora conturbado com uma figura paterna de extrema respeitabilidade na sociedade goiana por sua atuação no serviço público. Salatiel opera, através destas páginas, uma transmutação do antigo conflito em uma serena compreensão das profundezas do afeto paterno, transformando o que começou como um “ajuste de contas” em um relato poderoso de reconciliação, superação de traumas pessoais e cura emocional. Escrever este livro foi a forma encontrada pelo autor para perdoar a si mesmo e ao pai, libertando ambos de mágoas e silêncios acumulados ao longo de décadas.
A narrativa remete à década de 1920, no Porto do Vau — localidade que viria a ser o município de Itacajá, no então norte de Goiás, hoje estado do Tocantins. Pedro Soares Correia nasceu em 1926, em um ambiente rural marcado por condições inóspitas, onde a infraestrutura era escassa e as distâncias quase intransponíveis. O cenário é descrito pelo autor como uma das “Macondos” brasileiras, em alusão ao realismo mágico de Gabriel García Márquez: pequenas cidades marcadas pelo isolamento, casamentos consanguíneos, cabarés e a resistência contra um subdesenvolvimento crônico.
O Sertão como Cárcere: A Saga de Luiz Rodrigues da Silva
Para ilustrar a precariedade estrutural da época, o autor resgata a saga de outras famílias através de pesquisas, como a de Luiz Rodrigues da Silva. Natural do Piauí e órfão de mãe, Luiz vivia em um “sertão bravio” onde imperava o desemprego, a saúde precária e terras secas. Luiz sabia que, se permanecesse lá, ele e o pai morreriam de fome. Ele relata: “Nós viemos para cá porque lá, no Piauí, tudo era ruim demais… a fome deu em cima de modo que eu quase morri de fome lá”. A travessia até o Porto do Vau foi feita inteiramente a pé, com os parcos pertences — comida, rede e pouca roupa — carregados no lombo de um jumento. É neste substrato de luta extrema que se forja a vontade inquebrantável de Pedro.
A Odisseia do Império da Toga no Sertão: Cinquenta Vacas ou o Mundo?
A trajetória de Pedro Soares Correia é definida por sucessivas rupturas com o determinismo geográfico e social. O momento divisor de águas ocorreu sob a sombra de uma árvore em Itacajá, quando seu pai, Salatiel de Souza Correia, tentou convencê-lo a permanecer na terra natal oferecendo-lhe cinquenta vacas — uma para cada ano de trabalho que o jovem dedicaria à lida rural perto da família.
Salatiel de Souza, em tom suplicante, tentou dissuadi-lo: “Não vá, meu filho. Não precisa ir tão longe para ser alguém na vida”. Contudo, movido por uma vontade imensa de romper com o destino de isolamento e a necessidade de ver o que existia além do sertão poeirento, Pedro demonstrou uma determinação inabalável. Ele respondeu ao pai: “Pai, agradeço de coração por tudo… mas preciso ir. Preciso enfrentar essa situação… preciso estudar, aprender e crescer”. Vendo a convicção nos olhos do filho, o velho Salatiel resignou-se, colocou a mão no ombro do jovem e disse: “Vá, meu filho. Enfrente o mundo. Mas saiba que estarei aqui, sempre esperando por você”.
Em meados dos anos 1940, ele iniciou uma odisseia extenuante de 2.500 quilômetros rumo ao Recife. A jornada envolvia canoas pelo Rio Tocantins, estradas de terra a cavalo ou carroça e trens lotados que cruzavam as paisagens de Goiás e Minas Gerais até a Bahia, onde seguia em caminhões ou ônibus até o Nordeste. Ao chegar ao Recife, o neto do Capitão Agostinho Soares submeteu-se à mais profunda humildade: no tradicional Colégio Americano Batista, Pedro limpou banheiros e lavou roupas em troca de abrigo, estudo e comida. Sua dedicação exemplar e brilhantismo acadêmico levaram-no de faxineiro a encarregado da biblioteca, pavimentando o caminho para sua graduação em Direito.
O “Batismo do Magistrado”
A ascensão de Pedro Soares Correia na magistratura teve seu marco inicial após sua formatura em Direito, ocorrida em 1959. Após atuar brevemente como promotor de justiça substituto, foi aprovado em concurso e nomeado em 1961 para sua primeira comarca: Miracema do Norte, situada a mil quilômetros da capital. Constituída como município em 1948, a cidade refletia o subdesenvolvimento do interior brasileiro. O autor utiliza a poesia de Carlos Drummond de Andrade para descrever a atmosfera pacata de Miracema, onde “as janelas se fechavam lentamente ao entardecer” e a vida seguia um ritmo de “preguiça crônica”. Para sua esposa, Lenir Pedrosa Soares Correia, enfrentar aquele “sertão bravio” sem recursos ou infraestrutura básica foi um desafio imenso, especialmente cuidando de dois filhos pequenos. Em um mundo sem lei, Pedro tornou-se a face visível da justiça, assumindo um papel intenso que muitas vezes dificultava a separação entre a figura do juiz e a do pai dentro de casa.
O Confronto com o “General”: Integridade sob Ameaça
A integridade de Pedro Soares Correia foi posta à prova em episódios de extrema tensão ética e física, notadamente na cidade de Pedro Afonso. O magistrado foi visitado pelo preposto de uma autoridade local influente, apelidada de “General”. O objetivo era obter a regularização de terras devolutas na região de Guaraí. O visitante ofereceu-lhe um Fusca zero quilômetro, entregue em qualquer parte do país, em troca de sua “boa vontade”. Pedro recusou a oferta prontamente, afirmando que seguiria o rito processual. Diante da recusa, o interlocutor mudou o tom para a ameaça, demonstrando sua habilidade com armas ao prometer acertar o olho de uma galinha a cinquenta metros de distância.
Imperturbável, o juiz respondeu: “Diga a seu patrão que, embora estejamos distantes, a mais de mil quilômetros da capital, o Poder Judiciário está presente aqui para fazer cumprir a lei, custe o que custar”. Sua carreira foi marcada por uma evolução contínua: atuou como juiz em diversas comarcas antes de alcançar os cargos superiores na capital, sendo promovido ao cargo de Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado de Goiás (TJGO), integrando o Órgão Especial da Corte. Teve papel de destaque no Tribunal Regional Eleitoral de Goiás (TRE-GO), onde serviu como Vice-Presidente e, posteriormente, como Presidente no período de 12/09/1990 a 12/09/1991. O magistrado faleceu aposentado aos 84 anos de idade, sendo sua trajetória reconhecida como um exemplo de determinação e resiliência nas “Macondos” do Brasil.
O Portal das Memórias e a Madeleine de Proust no Sertão
Inspirado pela célebre “madeleine” de Marcel Proust, Salatiel Soares Correia utiliza a sua escrita para revisitar o passado não apenas como cronista, mas como um filho em busca de compreensão. Para o autor, cada fragmento de memória — o cheiro do cerrado, o silêncio da casa, o rigor dos ritos — funciona como um portal que entrelaça o presente às suas raízes em Itacajá e Goiânia. A narrativa revela o peso de crescer sob a sombra de uma figura tão imponente. O autor descreve a infância marcada por uma dualidade: o acolhimento na casa da avó materna, Dona Tina, em Goiânia (onde conviveu com figuras que viriam a ser ícones culturais, como o cantor Christian), em contraste com a disciplina férrea imposta pelo pai. A exigência de notas exemplares e comportamento impecável era a forma de Pedro proteger os seus: no seu entendimento, o “filho do juiz” deveria ser inatacável para sobreviver a um mundo de privilégios e preconceitos. Salatiel recorda o pavor de apresentar boletins; qualquer nota abaixo de nove era recebida com severidade, sob o argumento de que a honra da família dependia da excelência de cada um.
O Mosaico dos Afetos e a Herança da Resiliência
As figuras femininas foram pilares de sustentação: Lenir Pedrosa Soares Correia, Procuradora de Justiça aposentada, foi a companheira inseparável que enfrentou o isolamento das comarcas do norte com altivez; Enedina Ferreira Soares, a mãe de Pedro, representava a resiliência das mulheres sertanejas; e Suelene Pedrosa Soares, a filha que se tornou médica de reputação consolidada. Um ponto de relevo é a trajetória da Dra. Suelenita Pedrosa Soares Correia, Juíza de Direito que honra a toga paterna. Atualmente, ela figura em posição adiantada na lista de antiguidade para promoção ao cargo de Desembargadora do TJGO, fechando um ciclo de excelência que começou com o jovem limpando banheiros no Recife. Mesmo no auge, Pedro manteve uma ligação umbilical com a sua essência, preservando na sua fazenda uma cabana de palha e terra batida como um “lembrete da origem”, declarando que nunca esqueceu o jovem camponês de Itacajá que desafiou o destino.
Embora a convivência tenha sido marcada por silêncios, um evento físico serve como alicerce para a reconciliação: o salvamento de Salatiel por seu pai no Rio Tocantins. Naquele instante de desespero, o juiz austero lançou-se às águas para resgatar o filho e, ao chegarem à margem, abraçou-o e chorou convulsivamente. Para Salatiel, esse batismo foi a prova de que, sob a formalidade da toga, pulsava um zelo infinito. Nos dias que precederam o seu falecimento, aos 84 anos, Pedro quebrou o gelo com uma pergunta sobre Gilberto Freyre, unindo pai e filho pelo intelecto. No dia 5 de julho de 2010, Pedro partiu em paz, sendo velado por centenas de pessoas. Salatiel, em discurso memorável, narrou a história da cabana de palha, selando o ciclo de um homem que saiu do nada para garantir luz à sua linhagem.
O Veredito da Memória
A obra de Salatiel Soares Correia opera uma fusão sofisticada entre o rigor biográfico e a sensibilidade do romancista, estabelecendo diálogos com mestres da literatura. Com Guimarães Rosa, compreende que o sertão é uma dimensão da alma, ecoando: “O real não está no início nem no fim, ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”. Com Gabriel García Márquez, captura a atmosfera de isolamento: “O mundo era tão recente que muitas coisas careciam de nome”. Com Franz Kafka, o embate com a autoridade paterna ressoa: “Minha escrita era sobre ti, nela eu apenas me queixava do que não podia queixar-me em teu peito”. Com Carlos Drummond de Andrade, evoca Miracema: “Um homem vai devagar. Um cachorro vai devagar. As janelas olham”.
Salatiel Soares Correia, nascido em 1957 em Piracanjuba, é engenheiro eletricista pelo Inatel, administrador pela PUC-GO e mestre em Planejamento de Sistemas Energéticos pela Unicamp. Dedicou décadas à CELG e consolidou-se como ensaísta com mais de 30 anos de atuação na imprensa e nove livros publicados. Sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, sua escrita é caracterizada por uma elegância culta, onde o rigor técnico encontra a sensibilidade humanista. Em “Entre a Toga e o Perdão”, atinge sua maturidade literária ao converter memórias pessoais em literatura universal. Atualmente, reside em Goiânia, dedicando-se à preservação do legado familiar e ao fomento da literatura como ferramenta de cura e compreensão social. O triunfo de Salatiel reside em transformar um “ajuste de contas” privado em uma odisseia universal sobre integridade e reconciliação afetiva. Ao perdoar a rigidez do pai, o autor perdoa a própria história, provando que o amor, mesmo quando mudo, é a força que constrói impérios de dignidade.
Fontes Consultadas e Referências Biográficas
- CORREIA, Salatiel Soares. Entre a Toga e o Perdão. Goiânia: Edição do Autor, 2024.
- TRIBUNAL REGIONAL ELEITORAL DE GOIÁS (TRE-GO). Galeria de Ex-Presidentes: Biografia de Pedro Soares Correia. Acervo Histórico Institucional.
- ASSOCIAÇÃO DOS MAGISTRADOS DE GOIÁS (ASMEGO). Comunicado de Falecimento e Nota de Pesar: Desembargador Pedro Soares Correia (2010).
- TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE GOIÁS (TJGO). Lista de Antiguidade da Magistratura e Composição do Órgão Especial.
- INSTITUTO HISTÓRICO E GEOGRÁFICO DE GOIÁS (IHGG). Perfil Biográfico do Sócio Titular Salatiel Soares Correia.
- ENTREVISTAS E DEPOIMENTOS FAMILIARES. Registros de Lenir Pedrosa Soares Correia e Suelenita Pedrosa Soares Correia.
- Abílio Wolney Aires Neto é Juiz de Direito, Professor e doutorando em Direito pelo IDP em Brasília. Autor de 18 títulos publicados (15 físicos e 3 digitais).
- Graduando em Filosofia, História e Jornalismo. Membro da Academia Goiana de Letras-AGL, Instituto Histórico e Geográfico de Goiás-IHGG, Instituto Bernardo Elis-ICEBE, União Brasileira de Escritores-UBE, Academia Goianiense de Letras AGnl.

