Décimo terceiro livro lido em 2024: “As Convidadas”, da argentina Silvina Ocampo (1903-1993).

Carlos Willian Leite

O escritor argentino Bioy Casares (teve caso até com a mulher do poeta mexicano Octavio Paz, a escritora Elena Garro), que compartilhou 53 anos de um casamento relativamente “aberto” com Silvina Ocampo até o fim de sua vida em 1993, aos 90 anos, descreveu sua obra com uma frase que, de certa forma, captura sua essência: “Sua literatura não se assemelha a nada, como se fosse influenciada apenas por ela mesma” (há quem postule que sua linguagem está mais próxima de Julio Cortázar e não de Bioy Casares e Jorge Luis Borges).

A coletânea “As Convidadas” (Companhia das Letras, 264 páginas, tradução de Livia Deorsola), que reúne 44 contos, é considerada o ápice da maturidade estilística de Silvina Ocampo, que também era artista plástica. Nos contos, superstições entrelaçam-se com a realidade, criando personagens que são ao mesmo tempo familiares e completamente desconhecidos.

O que une os diversos temas abordados por Ocampo é uma ironia aguda e, muitas vezes, implacável, que à primeira vista pode parecer minimalista, mas que no fundo revela uma profunda capacidade de multiplicar interpretações sem se perder em excessos ou exageros. Tudo soa natural e factível, mesmo aquilo que é insólito e estranho.

O extraordinário e o mundano

Ocampo transforma os sutis horrores do dia a dia em elementos banais, infundindo a rotina com uma surpreendente normalidade. Os contos destacam-se pelo dom de reinventar o familiar, transformando o habitual em um palco para o inesperado. O extraordinário se mescla ao mundano com a casualidade de um chá da tarde, engendrando histórias permeadas por um humor perspicaz, entrelaçadas com uma ingenuidade e pureza aparentes, que, no entanto, sutilmente desvendam uma astúcia perversa.

Não é um livro para todos, mas é definitivamente indicado para aqueles que queiram conhecer um pouco mais da contística fundamental da América Latina, da segunda metade do século 20.

Nota: 8,5

Carlos Willian Leite é poeta, jornalista e editor da Revista Bula.