Engenheiro constrói ponte entre o homem da era da informação e o Antigo Testamento

Lançado em Goiânia, “Em Conexão” traz uma visão didática, para crentes e não crentes, dos textos mais antigos e de difícil compreensão da Bíblia

Em algum momento por volta do ano 1,2 mil antes de Cristo, um nômade decidiu escrever uma intrincada história sobre a origem do mundo, da humanidade, das línguas e da relação de tudo isso com o seu Criador. Muitos desses relatos eram repassados há séculos boca a boca e ensinados de pai para filho. Segundo a tradição judaico-cristã, esse homem era Moisés – ele mesmo protagonista de um enredo riquíssimo, que passa pela fuga de um infanticídio coletivo, adoção e a ascensão a um dos postos mais importantes do maior império da época e culmina às portas da terra prometida após a travessia de um deserto inóspito.

Os cinco livros atribuídos a Moisés (para muitos fiéis, uma certeza; para muitos estudiosos, algo improvável - alguns exegetas acreditam que a transcrição só ocorreria no pós exílio, 700 anos depois de Moisés), conforme a organização do cânon, são os primeiros da Bíblia – na verdade, uma coleção de livros. Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deutoronômio formam o pentateuco, a Torá judaica. Nesse conjunto, são narrados a criação do mundo e do homem pelas mãos de Deus, o início da formação do povo escolhido por Ele e uma série de legislações civis e morais e, ainda, instruções para práticas religiosas.

Ao longo de mais ou menos 800 a 1.000 anos, outros livros foram sendo escritos, até chegar aos 39 que compõem o que conhecemos como Antigo Testamento – acrescido do Novo Testamento, ele forma a Bíblia cristã. A maior parte do texto original foi composto em um hebraico arcaico e uma parte menor, em aramaico. O livro Sabedorias, incluído no cânon católico, foi escrito em grego, mas não foi adotado nem por judeus nem por igrejas protestantes.

Como, portanto, esse livro pôde falar ao nômade, aos egípcios e aos mesopotâmios da antiguidade? Aos gregos dos tempos de Aristóteles e aos romanos do período de Nero? Ao imperador Constantino? Aos homens medievais, como Lutero e Calvino? E como ele continua tendo impacto tão forte no homem da era da informação, contemporâneo de Bill Gates, Steve Jobs e Mark Zuckerberg ?

Curiosamente, um engenheiro goiano, não teólogo, tem ajudado muitas pessoas responder essas questões: é a mensagem contida na Bíblia que a torna compreensível para homens de épocas, culturas, línguas, contextos e nível de conhecimento tão díspares. Cláudio Carvalho, que atua no ramo da construção, acaba de lançar, em Goiânia, o livro “Em Conexão – O Antigo Testamento para uma Nova Geração” (Sal Editora, 440 páginas).

O autor não se denomina teólogo, ainda que tenha MBA em Teologia e Transformação Social e faça parte do conselho do Ministério Sal da Terra em Goiânia. Na verdade, a obra é fruto de 30 anos de estudos, que começaram ainda na juventude, quando se reunia com amigos de escola para ler e discutir a Bíblia.

Cláudio Carvalho, o engenheiro que dá aulas sobre o Antigo Testamento | Foto: Divulgação

Essa bagagem resultou em um curso voltado ao Antigo Testamento, em que fornece caminhos para a leitura dessa parte da Bíblia, muitas vezes negligenciada mesmo pelos cristãos, mais familiarizados com o Novo Testamento. O passo natural foi transformar o conteúdo em livro, tão didático quanto as exposições em salas de aula (não por acaso, o autor foi professor em escolas seculares). Segundo Cláudio Carvalho, “Em Conexão” é uma releitura do Antigo Testamento, sob a luz do Novo Testamento.

Na introdução, o leitor é apresentado a um resumo esquemático dos 39 livros do Antigo Testamento: pentateuco (Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio), históricos (Josué, Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias e Ester), poéticos (Jó, Salmos, Provérbios, Eclesiastes e Cantares) e proféticos (Isaias, Jeremias, Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oseias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miqueias, Naum, Habacuque, Safonias, Ageu, Zacarias e Malaquias).

O esquema os encaixa em dez períodos: princípios, patriarcas, Egito, êxodo, deserto, Canaã, juízes, monarquia, exílio e reconstrução. Dessa forma, o leitor acompanha o desenrolar da relação divina com o “povo escolhido”, da criação do mundo ao retorno pós-exílio, por volta de 400 anos antes de Cristo – o último capítulo, inclusive, trata do período intertestamentário (ou seja, entre Malaquias e Mateus, que abre o Novo Testamento), conhecido como os anos de silêncio.

Esse guia introdutório torna a viagem pelas páginas do AT mais confortável. Mas Cláudio Carvalho não se furta a fazer um alerta: “[A Bíblia] não é um texto científico, não é histórico e nem tem preocupações geográficas como as nossas”. Portanto, não há que se falar em incongruências entre o que a ciência diz (ainda que atualmente existam grupos de cientistas declaradamente confessionais) e o que a narrativa bíblica conta.

Ao abordar Gênesis, o escritor volta a chamar a atenção do leitor: “É bom pensarmos que vamos tratar exatamente dos capítulos mais mal compreendidos, mais criticados e que mais são objetos de piadas”. Afinal, é no início do livro que abre a Bíblia que estão passagens como a que fala da criação do homem por meio do barro (e da mulher pela extração de uma costela do homem), a que cita o fruto proibido (uma maçã, segundo o imaginário popular, mas nunca mencionada na Bíblia) e a que cita a serpente que fala. Obviamente, narrativas que vão de encontro ao conhecimento científico.

Cláudio Carvalho não se aprofunda em todos os livros do AT, tarefa impossível para uma única obra. Ao longo das 400 páginas, pinça os relatos e personagens mais significativos, contextualiza com aspectos históricos e geográficos (o leitor pode, inclusive, por meio de um QR Code, acessar mapas) e traduz os nomes dos atores mais proeminentes – o que proporciona uma nova compreensão de algumas passagens, devido à importância que os nomes têm na cultura hebraica da época – do Gênesis ao exílio.

Dessa maneira, o leitor terá uma compreensão de fatos e símbolos que muitas vezes passam despercebidos na leitura da Bíblia. O autor, didaticamente, explica questões relacionadas às pragas do Egito, ao tabernáculo construído no deserto, aos ritos e rituais daquele povo, que muitas vezes nos parecem estranhos e incompreensíveis.

Especialmente útil para tornar a travessia pelo Antigo Testamento menos tortuosa são os capítulos 8 e 9, que tratam do período em que Israel tornou-se uma monarquia. Além de discorrer sobre a transição do tempo de juízes para o de reis – e sobre alguns deles, como Saul, Davi e Salomão –, o autor recorre novamente a um resumo esquemático para auxiliar o leitor com tantos nomes e sequências de monarcas. E é com essa pegada que a obra segue até o retorno do exílio e a reconstrução do templo.

“Em Conexão” é uma obra evidentemente de um homem que tem convicções religiosas. Contudo, é uma leitura agradável mesmo para quem não as tem, mas que quer conhecer um pouco desse que é um dos mais importantes livros da humanidade.

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