Encontro Nacional de Mulheres Negras: brasileiras de luta, de pé, de fé

Com a tão aguardada presença de Angela Davis, dos Panteras Negras, e nomes como Benedita da Silva e Conceição Evaristo, evento discutiu temas urgentes para o movimento negro feminino

Angela Davis na solenidade de abertura do Encontro Nacional de Mulheres Negras – 30 anos. Foto: Itandehuy Castañeda

Dava para sentir a emoção no ar. Uma calorosa e efusiva salva de palmas foi igualmente retribuída em uma fala protocolar, mas sincera. “Primeiramente, deixe-me dizer a enorme honra que é ter sido convidada para participar deste Encontro Nacional de Mulheres Negras”. Foi neste clima que começou a tão aguardada participação da aclamada Angela Davis na abertura, na noite de quinta-feira (6/12), do evento em Goiânia que celebrou os 30 anos da primeira edição, em 1988. Nos últimos três dias, o Centro de Convenções da PUC Goiás foi ponto de encontro para milhares de mulheres negras de Goiânia, Goiás, Brasil e do mundo, que participaram de uma intensa e variada programação com feiras, apresentações culturais, oficinas, palestras e rodas de conversa. As atividades prosseguem ao longo deste domingo (9/12), último dia do evento.

Com o slogan “Contra o Racismo e a Violência e Pelo Bem Viver – Mulheres Negras Movem o Brasil”, o encontro abordou temas urgentes para o ativismo negro feminino, como saúde, religiosidade afro-brasileira, encarceramento em massa e desafios e perspectivas do movimento de mulheres. Mas uma questão foi reiteradamente lembrada, inclusive na saudação de Angela Davis na abertura: o assassinato da vereadora Marielle Franco, em março deste ano no Rio de Janeiro, ao qual chamou de “brutal”. “Nós devemos manter seu legado vivo, enfatizando as interconexões entre racismo, misoginia, pobreza e homo e transfobia”, reiterou.

A grande atração da noite, no entanto, não estava sozinha. A mesa do painel de abertura do evento era composta de outras grandes expoentes do movimento de Mulheres Negras no Brasil. Nomes como a deputada federal Benedita da Silva e a escritora Conceição Evartisto marcaram presença ao lado de Ieda Leal (Coordenação Executiva Nacional), Iyá Sandra Lee (Renafro), Creuza Oliveira (Fenatrad), Selma Dealdina (Conaq), Bianca Pereira (Negras Jovens), Luíza Carvalho (ONU Mulheres), Cristina Almeida (deputada estadual), Wania Sant’Anna (Comissão Executiva – ENMN) e Savana Brito (Fundo ELAS).

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A morte de Marielle também foi assunto em uma coletiva concedida por Angela Davis a ciberativistas jovens negras, responsáveis pela cobertura em tempo real do evento nas redes sociais. “A segurança vem de construir uma comunidade. Ao mesmo tempo, nunca se sabe. Nunca poderíamos prever que Marielle seria assassinada daquela forma. Quem a matou, quis, sobretudo, enviar uma mensagem a toda comunidade negra. Uma mensagem para a gente retroagir e não fazer o trabalho que é necessário neste momento. No entanto, não podemos sentir medo. Quando estive presa, também fiquei amedrontada. Não sabia o que poderia acontecer. Mas o medo que eu sentia não era mais importante do que seguir na luta. Percebi que não estava só. Por isso que construir uma comunidade é uma melhor forma de sentir segura. Não posso dar um conselho, mas quando tinha a idade de vocês, praticávamos autodefesa. É um meio que está a ao alcance e devemos recorrer a todos aqueles possíveis, para garantir nossa integridade; enquanto indivíduos e enquanto comunidade”, pontuou.

Angela Davis integrou o Partido Comunista dos Estados Unidos, tendo sido candidata a vice-presidente da República em 1980 e 1984. Por sua atuação junto ao Partido Panteras Negras (Black Phanter Party), foi presa na década de 1970 e ficou mundialmente conhecida pela mobilização da campanha “Libertem Angela Davis” (Free Angela Davis). A ativistas fez questão ainda de frisar que a luta das brasileiras é uma inspiração para as mulheres negras dos Estados Unidos. “Durante a minha última visita ao Brasil, há cerca de um ano, tive a oportunidade de testemunhar o crescimento e a força das jovens negras”, comentou.

A ativista norte-americana integrou o movimento dos Panteras Negras. Foto: Reprodução/Twitter

Relevância
Para a advogada, artista plástica e curadora da Feira de Arte e Cultura Luiza Mahin, Iara Leal, uma das responsáveis pela realização do Encontro Nacional em Goiânia, o grande objetivo é dar visibilidade à força e à presença da mulher negra nos vários segmentos da sociedade brasileira. “Essas mulheres estão empoderando-se cada vez mais. Não só em casa, mas indo à luta, superando todas as adversidades. Temos hoje mulheres negras extremamente importantes na Política, nas Ciências, na Educação e no Empreendedorismo. Hoje, como curadora da feira, vi mulheres de todos os Estados do País. Além das artistas, não só na galeria, mas também na Música. Tivemos um dia todo de apresentações, desde música popular a música clássica”, enumera. Ela ressaltou o papel da nova geração neste processo. “Vemos um nível de conscientização muito forte. Uma juventude que se posiciona. Que sabe que é negra, de suas dificuldades e que luta para diminuir essas barreiras”, anima-se.

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Iara afirma que o engajamento ganha ainda mais relevância frente ao cenário que se descortina com a iminência do governo do presidente eleito, Jair Bolsonaro. “É um cenário que preocupa a todos. O que a gente espera, do fundo do coração, é que ele possa melhorar as condições do povo brasileiro de uma maneira geral. Mas em seu discurso ele já demonstrou que não contempla as minorias. Só que agora, como presidente do País, ele deverá zelar por todo o povo. E o povo brasileiro tem negros, homossexuais, deficientes, indígenas, nordestinos…. Não tem só militares. A Política é muito mais abrangente. Ele tem compromisso com a nação; essa nação preta que está aqui e, querendo ou não, construiu o Brasil. A dívida histórica do País com os negros é impagável e está sendo resgatada com sangue e muitas lágrimas.”

Em conversa com jornalistas momentos antes da abertura, a escritora Conceição Evaristo ressaltou a importância da perspectiva histórica do movimento negro. “É uma luta que vai continuar, assim como continuamos os passos das que vieram lá atrás. Nossos atos hoje, sem sombra de dúvidas, vão moldar as ações futuras”, comentou. Ela declarou ainda que é quando sujeitos de grupos subalternizados, de uma forma ou de outra pela sociedade, tomam a palavra e se autorrepresenta, eles entram em confronto com uma representação que as classes dominantes ou que outras culturas criaram sobre si. “Cada persona que se levanta e coloca sua voz, exerce um poder político. Porque falar também é uma ação política”, ponderou. Em sua saudação na solenidade, a escritora negra comentou o quão Angela Davis lhe inspirou em sua juventude e emocionou a todos ao revelar o que disse à ex-Pantera Negra quando a encontrou pela primeira vez: “Muito obrigada, my sister!”

Com colaboração da fotógrafa mexicana Itandehuy Castañeda

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