Encaixotando os clássicos: como escolher grandes livros

Mercado editorial está lotando as livrarias com grandes autores que merecem ser lidos em qualquer tempo; muitos vêm em obra completa ou coleções, trilogias, ou mesmo só um livro separado em volumes

As editoras brasileiras já têm tradição em empacotar obras completas ou grandes clássicos, pelo valor literário e pelo peso em volume. Todo ano, vemos alguma coisa sair com roupagem nova. A Nova Fronteira anda turbinando o mercado com uma série de edições de clássicos da literatura arranjados em box.

De Machado de Assis a Miguel de Cer­van­tes, de Homero a Shakespeare. Alguns já saíram em anos anteriores. Em 2017, várias fornadas surgiram nas livrarias como ótimas dicas de releituras, ou como iniciação.

No mundo de comportamento digital, o leitor pode se espantar com essa caixaria toda. Pode ficar pensando sobre o que faria com tantos trambolhos gigantes. Mas o bom leitor acaba abraçando à causa e gastando uma grana para comprar a obra completa de seu autor favorito, ou uma nova edição da velha e boa literatura. Na virada do ano, pode ser bom virar páginas de interesse estético e de fruição.

Este ano, a Nova Fronteira já disponibilizou “A Divina Comédia”, de Dante Alighieri, a trilogia “Os Caminhos da Liberdade”, de Jean-Paul Sartre (com os romances “A Idade da Razão”, “Sursis” e “Com a Morte na Alma”), “Obra Reunida”, de Vinícius de Moraes, “Teatro Completo”, de Nelson Rodrigues, “Grandes Obras”, de Shakespeare, e “Ficção Completa”, de João Guimarães Rosa.

Obsessão pelo ínfimo

É tudo muito bonito. Avaliando os cuidados da edição, não há nada aparentemente prejudicial, a não ser para os leitores obsessivos com detalhes. Por exemplo, na caixa de Guimarães Rosa, os editores não se preocuparam com aquele leitor que a toda hora quer saber quando foi mesmo que o autor publicou o livro.

Neste caso, olhando no expediente, vê-se a li o primeiro copyright e fica tudo bem. Não fica tudo bem, examinando o box de Rosa. Não está lá. Os textos de todos os livros vêm enfileirados, e a divisão só se faz com a abertura dos títulos, sem data de lançamento original de cada livro. Isso é angustiante.

Ademais, no expediente, que costuma ficar na segunda página, ou na última, não aparece a data de nascimento de Rosa. Alguém pode argumentar que isso é facilmente encontrado no Google. É verdade. Mas, e se houver blackout sem prazo de volta da energia? Em Goiânia, isso vem ocorrendo bastante. Aí fica difícil. Esses códigos mínimos são importantes pela mesma razão que a arte é importante, ou seja, importantes em si mesmos. Precisam estar ali.

Na andadura que convier

Dito isso, mãos à obra. Todas as caixas lançadas pela editora são maravilhosas. Deve haver uma ordem de escolha pelo leitor. E há. Mas é subjetiva. O leitor recém-chegado ao mundo dos clássicos pode começar por qualquer um, porque ele, ou vai se apaixonar ou vai se arrepender. Leitura é assim. É um risco calculado. Não deu certo numa, procura outra embocadura, novo ritmo, outra andadura.

O que salva na escolha é agarrar-se às palavras de Ítalo Calvino, como quem abraça uma boia no meio do oceano. Em “Por Que Ler os Clássicos”, Calvino nos ensina que os lemos para encontrar nossos livros do coração, e os relemos para aprender mais, porque os clássicos são aqueles livros que há sempre alguma coisa para ensinar.

Harold Bloom também nos chama a atenção para a razão pela qual lemos. Clássicos ou não, lemos livros para nos depararmos com cérebros mais interessantes que o nosso. E aí, sim, nosso cérebro pode um dia tornar-se interessante por alguma experiência que se agarra ao hábito da leitura.

Ao ler Guimarães Rosa, por exemplo, o leitor, obsessivo por detalhes ou não, vai mergulhar num tipo de estesia que só a prosa roseana será capaz de oferecer. Vinicius de Moraes também é um bom início, principalmente quando vai pelo campo das “Cinco Elegias”, em sua alteração de ritmo, suas paisagens de melancolia e lirismo, de imagens urbanas, do chão ao céu, das coisas mais cotidianas às mais sublimes, como a própria imagem da poesia.

Erínias insurgentes

Ou pode ir para Shakespeare, e entender porque o bardo inglês reina no universo das letras como um tirano absoluto. Há uma passagem em Hamlet, que em inglês cria um significado que a tradução jamais dará conta, mas, contraditoriamente, ela é um exemplo de por que devemos experimentar essa leitura.

A certa altura do segundo Ato da peça, quando Hamlet já está se passando por doido de juízo, um maluco com método, o conselheiro do rei morto, Polônio, pai de Ofélia, a amada de Hamlet, pergunta o que ele está lendo: “Palavras, palavras, palavras”, responde o príncipe. Em inglês isso cria uma polifonia sem fim, “words, words, words”, pois, emendados, os sons podem virar “swords” (espadas).

E aí, misturam-se palavra e sangue, diálogo e violência, pensamento e ação, um sentimento de vingança em construção dentro da alma, em que tudo circula cortando, rasgando silenciosamente, como Erínias insurgentes subindo do fundo da consciência para tramar a morte. É Shakespeare.

“A Divina Comédia” também pode ser um bom início. Quando o leitor começar a atravessar o inferno, se for ateu, terá ainda uma chance de acreditar em Deus, pela sensação incrível do quanto o diabo pode ser criativo em suas maldades.

Em Nelson Rodrigues, há coisas importantes, que jamais devem ficar para trás quando o assunto é enveredar pela literatura. O melhor de Sartre são os contos, mas a trilogia vai bem, principalmente o primeiro romance, “A Idade da razão”. Se acompanhar os dois volumes seguintes, estará pronto para ler qualquer coisa do autor, inclusive “O Ser e o Nada”.

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