Emily Dickinson: a beleza da poesia cifrada que resiste aos séculos

Em vida, a poeta norte-americana teve apenas dez poemas publicados, ainda que tenha legado a posteridade mais de 1800 escritos. Dickinson ganha cada vez mais traduções

“Uma palavra morre
Quando é dita —
Dir-se-ia —
Pois eu digo
Que ela nasce Nesse dia.”
Emily Dickinson

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

Na foto, a poeta Emily Dickinson tinha apenas 16 anos. O registro integra o acervo de Harvard lançado em 2013. Reclusa e tímida, a escritora de Amherst (EUA) viveu até os 55 anos

Na foto, a poeta Emily Dickinson tinha apenas 16 anos. O registro integra o acervo de Harvard lançado em 2013. Reclusa e tímida, a escritora de Amherst (EUA) viveu até os 55 anos

Quando pronunciamos seu nome hoje, ou mesmo quando o vemos escrito numa página de jornal ou na lousa de um professor de literatura, podemos imaginar quão improvável seria para um contemporâneo de Emily Dickinson (1830-1886) imaginar que, 130 anos após sua morte, o nome da poeta continuaria fortemente lembrado e, ainda, sua poesia influente, mesmo que não reconhecida em vida — nem sequer lida fora de seu pequeno círculo íntimo de correspondentes.

O milagre desta permanência reside na qualidade que faz de Emily, ao lado de Walt Whitman, um clássico da poesia norte-americana, mesmo que nem sempre tenha sido assim avaliada, muito ao contrário. Emily, que era uma pessoa reclusa e assim viveu, “por vontade própria por 25 anos” — como nos revela um de seus tradutores em vernáculo, José Lira — e “teve apenas cerca de uma dezena de poemas publicados em vida”. No entanto, legou à posteridade 1800 poemas que, literalmente, eram costurados como um “patchwork”, uma alegórica “colcha de retalhos” de uma poesia “de grande força lírica”, mesmo que entre estes se encontre o que os norte-americanos designam como “poems by occasions” e esboços rascunhados.

Dois pesquisadores nos legaram o que hoje é considerado o acervo deste artesanato lítero-poético que ganhou o mundo em diversas traduções. Devemos a eles o que hoje está no centro do que podemos chamar de “mitologia” em torno da reclusa de Amherst, concordando com Lira de que a poesia de Emily não precisa nem de mitologias que não as próprias, tampouco de apropriações indébitas de feministas ou acadêmicos ansiosos pelo flon-flon de uma espécie de arqueologia lítero-biográfica. Os primeiros a publicar sistematicamente a obra dela são: Thomas H. Johnson (1955) e Ralph W. Franklin (1998). As compilações do acervo de poemas costurados em papeizinhos ao longo da vida pela própria Emily transformaram-se, assim, em livros que são referências para os estudiosos de sua poesia.

Um terceiro nome responsável pela divulgação dos versos da poeta é Thomas Higginson que, mesmo vendo “graves imperfeições” nos poemas que ela, ainda jovem, lhe submeteu, e não os achou adequados à publicação, ainda assim anotou juízo favorável no prefácio à primeira edição (póstuma) realizada em 1890. A justificativa, segundo Lira, foi de que, “afinal, quando uma ideia nos arrebata o fôlego, as lições de gramática parecem impertinentes” e asseverou tratar-se de “versos arrancados pela raiz, ainda impregnados de chuva, orvalho e terra” (Higginson, 1890).

Ao morrer, aos 55 anos, na mesma cidade em que nasceu, Amherst no Estado de Massachu­setts (EUA) — sua irmã Lavínia, que com ela dividia a casa, encontrou os tais fascículos (booklets) formados de pequenos pedaços de papel, costurados a formar livretos, num total de 1.789 poemas. Este verdadeiro tesouro poético se completa com mais de uma centena de cartas que foram (e continuam sendo) objeto de estudos por parte de quase todas as correntes teóricas da crítica literária do século XX.

Não importando se (e quanto) manipulada tenha sido a divulgação da obra de Emily — principalmente por críticos arrivistas e feministas —, em meio ao ruído, soa “clara e lúcida a voz poética de Emily”. É essa voz que o leitor que ama a poesia encontrará, mesmo sem idolatrá-la, nem falsear sua vida, como afirma o próprio Lira: “ao entregar-se de corpo e alma à críptica beleza de seus versos”.

Tradutor de Emily no Brasil, Lira é um dos muitos que enfrentaram o desafio de traduzi-la para a língua de Camões (ou de Adélia Prado, se preferir o leitor). O húngaro-brasileiro Paulo Rónai, mestre de sucessivas gerações de tradutores em nosso país, disse no prefácio sobre uma das belas traduções que é possível “demonstrar-se, por a mais b, que a poesia de Emily é intraduzível, e em português mais do que qualquer outra língua”. Tínhamos, afirma Rónai, “alguma suspeita disso. Terrível Emily! Realiza o máximo de magia com o mínimo de sons, tira todo o efeito possível do amplo estoque de palavras da língua inglesa, precisamente das de cepa germânica, as mais sugestivas; só usa versos curtos; manipula a elipse com virtuosismo, opera malabarismos por meio de simples travessões — e com tudo isso guarda uma simplicidade de canção popular, uma ingenuidade infantil, ora travessa, ora magoada”.

Esses travessões de que nos fala Paulo Rónai, quando encantado prefaciou “Uma Centena de Poemas” (1985), traduzidos por Aíla de Oliveira Gomes, são na verdade uma criação própria de Emily. Ela criou este tipo de sinal gráfico até então inexistente em língua inglesa: a disjunção, um traço curto (—) “que alguns veem como simples hábito de escrita e outros como sintoma de distaxia (e que em geral é confundido com o travessão).

A disjunção, explica-nos José Lira, “é, na verdade, um dos principais recursos estilísticos de sua escrita: destaca uma palavra ou expressão, marca pausas de leitura ou dicção, modifica o ritmo de alguns versos, separa fragmentos frasais, expressa continuidade (ou descontinuidade) de uma ideia, explica algo que veio antes ou que virá em seguida — Lira substitui, enfim, todo um conjunto de sinais usuais de pontuação e dá a um poema de Emily Dickinson o aspecto próprio de um poema de Emily Dickinson — abstraindo-se, é claro, o fato de que mais de um quinto dos manuscritos da autora não subsistiram e que as transcrições de terceiros ‘regularizaram’ a pontuação e outros aspectos gráficos e prosódicos de sua escrita”.

Emily Dickinson é o Walt Whitman de saias, dizem os leitores que não aprofundaram a leitura dos dois maiores nomes da poesia norte-americana. Afora o fato de que viveram quase na mesma época, distantes não muitas milhas um do outro — Amherst e Nova York —, eram diferentes em estilo e em aceitação por parte de seus contemporâneos. Também a mensagem difere e os estilos são água e vinho; uma contida e quase hermética, já o outro, derramado e transbordante; um tocava flauta doce; o outro, trombone. Mas ambos cheios de vida e de uma mensagem para o futuro.

Mestre de sucessivas gerações de tradutores brasileiros, Paulo Rónai sobre a escritora: “Emily é intraduzível, para português mais do que qualquer outra língua”

Mestre de sucessivas gerações de tradutores brasileiros, Paulo Rónai sobre a escritora: “Emily é intraduzível, para português mais do que qualquer outra língua”

Emily, mesmo tímida e reclusa, teve vontade de se mostrar ao mundo, ânsia logo contida de enviar uma “carta para o mundo” — “This is my letter to the World” (1862) —, que Aíla assim traduziu:

Esta, minha carta para o mundo,
Que nunca escreveu para mim —
Simples novas que a Natureza
Contou com terna nobreza.

Sua mensagem, eu a confio
As mãos que nunca vou ver —
Por causa dela — gente minha —
Julgai-me com bem-querer.

Whitman, por seu lado, com igual consciência, dirigiu-se aos jovens do futuro com a certeza quase messiânica — com sua trombeta de poeta-profeta se dizia “Full of Life Now” (Pleno de vida agora)” —; na tradução de Ferreira Gullar:

Pleno de vida agora, consistente, visível,
Eu, quarenta anos vividos, no ano oitenta e três anos dos Estados Unidos.
Ao homem que viva daqui a um século, ou dentro de quantos séculos for,
A ti, que ainda não nasceste, dirijo este canto.

Quando leias isto, eu, que agora sou visível, terei me tornado invisível,
Enquanto tu serás consistente e visível, e darás realidade a meus poemas,
[voltando-te para mim,

Imaginando como seria bom se eu pudesse estar contigo e ser teu camarada:
Faz de conta que eu estou contigo.
(E não o duvides muito, porque eu estou aí nesse momento.)

Esta quase iluminação antecipatória dos dois poetas só os coloca no limiar da genialidade e garante ao leitor de mais de um século depois a vitalidade da poesia. Embora muitos (até poetas) creiam que a poesia está excluída do mundo exibicionista e dominado pelo algoritmo do entretenimento, a poesia insiste, persiste e sobrevive aos séculos. Uma pequena mas significativa amostra vem da reclusa puritana de Amherst e do ex-enfermeiro da Guerra Civil Americana, depois professor-poeta, como suficiente para demonstrá-lo.

“Num momento incendido da América, quando reboavam as trombetas de Whitman e se disseminava a pregação místico-poética de [Ralph W.] Emerson, exaltando a ‘self-reliance’, Emily Dickinson, modesta, arisca e, depois, reclusa, abria às escondidas uma nova estrada poética, em direção oposta à de Whitman, mas que, não menos que a dele, desvendaria uma América nova, literariamente autônoma e de repercussão universal. Com material caseiro, retirando de sua arca de coisas velhas e novas, e instaurando artesanato inédito, ela verteu em moldes métricos muito simples uma obra poética mais pura que tudo até então tentado em sua terra, numa voz poética liberada, tão revolucionária a seu modo, quanto a do próprio Whitman” — são palavras de admiração da tradutora Aíla de Oliveira Gomes, que soube tirar da simplicidade e da economia dickinsoniana a mensagem em nosso idioma, como outros tentaram em pequenas doses, ela o fez em uma centena de poemas.

Nestas traduções o leitor poderá descobrir o retrato real do imo da poeta que modelou sua resposta ao mundo, em poemas ou cartas:

“Descubro o Êxtase de viver”, diz Emily em uma de suas cartas. “A mera consciência de estar vivendo já é alegria bastante”, continua. As cartas são legítimas extensões de seus poemas, também lidas com entusiasmo ainda hoje. Da república das letras que no éter abre residência aos poetas imortais, ela nos concede passaporte para que, como amante da poesia, possamos nos embevecer com a poesia e com pérolas como esta (a nos lembrar nosso Rosa):

Viver é assombroso, nem deixa lugar
Para qualquer outra ocupação.
[“To live is startling, it leaves no / other room to other occupations.]

Vida e obra de Emily Dickinson: Da reclusão nasce o sussurro de uma poesia universal

Filha de Edward e Emily Norcross Dickinson, Emily Elizabeth Dickinson nasceu em 10 de dezembro de 1830 e faleceu em 19 de maio de 1886 em sua mesma cidade natal, Amherst — uma pequena cidade na região de New England, no Estado de Massachusetts (EUA). No final do século 18, sua família se estabeleceu na área em que seu avô, Samuel Fowler Dickinson construiu, em 1813. A casa da família Dickinson (“Homestead” ou “Mansion”) é considerada a primeira casa de tijolos de Amherst, onde a família também foi responsável pela construção e gestão das instituições de ensino Amherst Academy (1814) e College (1821).

O casal Dickinson tem três filhos e em 1840 muda-se para Pleasant Street, defronte à escola primária dos filhos de Mr. Dickinson. De 1844 a 1846, Emily faz visitas a Boston, onde tinha parentes; é a maior distância que percorre de sua cidade natal, onde em 1847 conclui o curso na Amherst Academy, pois, às vezes, o esgotamento físico lhe impunha interrupções. Foi aluna excepcionalmente brilhante, não só em composição como em botânica.

De 1847 a 1848, ela frequenta o Mount Holyhoke Female Seminary, em South Hadley (Massachusetts), onde estudou história, gramática inglesa, química, fisiologia, álgebra, astronomia e retórica. Não completou o curso por motivos de saúde. É quando passa a permanecer em casa, ocupando-se principalmente de estudar piano, praticar jardinagem (atividade que adorava) e culinária, além de naturalmente escrever quase um poema por dia.

Em 1850, seu primeiro poema é publicado no jornal manuscrito do curso de graduação de Amherst. Era uma “valentine” em prosa (“Awake ye Muses Nine”), publicado, pois, no jornal “Indicator”; dois anos depois, o Springfield Republican publica alguns de seus versos, por influência do editor Samuel Bowles, admirador dos dotes literários de Emily e amigo da família. O poema é “Sic transit Gloria Mundi”, também um “valentine”, como disse a tradutora Aíla Gomes. De 1850 a 1855, o pai de Emily é feito membro do Congresso em Washington. Foi em 1853 que Emily perdeu seu grande amigo Ben Newton, ex-estagiário no escritório de advocacia do pai, causando a ela um colapso nervoso como quando da morte da colega Sophia Holland, em 1844.

Em 1854, ela conhece o reverendo Charles Wadsworth, em visita que fez com o pai e a irmã Lavínia a Washington e Filadélfia. O pastor será o grande amor secreto da vida da poeta. Ele visita os Dickinson no ano 1860. Dois anos antes, Emily começa a reunir sistematicamente seus poemas, costurados em pequenos papelotes (fascicules), e formar livretos.

Em abril de 1861, eclode a Guerra de Secessão. No mês de junho, nasce seu sobrinho. filho do irmão Austin, a quem Emily dedicou pelo menos um poema explicitamente, o intitulado “Austin, come to my Garden”. Em 1866, nasce a filha de Austin e de Sue; era a sobrinha Martha que veio a ser a editora de poesia póstuma de Emily. Entre reclusão e inúmeras cartas escritas, Emily perde o pai por morte súbita, enquanto participava de uma sessão legislativa na Corte Geral de Massachusets, em 1874. Ela vê a mãe sofrer um ataque que a deixa paralítica e vê também o nascer de seu terceiro sobrinho.

Poeta e admiradora da poesia de Emily, a escritora Helen Hunt Jackson (“HH” nas cartas) visita-a pela vez primeira, em 1876, e a estimulando a publicar sua obra. Foi em 1878 que o poema “Success is counted sweetest” é publicado em “A Masque of Poets”, por iniciativa de HH. Quatro anos depois, HH recebe a provável segunda visita do pastor Wadsworth e assiste ao funeral da mãe Emily.

Em 1885, Emily poeta sofre nova e séria crise nervosa, vindo a falecer na tarde do sábado 15 de maio de 1886. No diário de T.W. Higginson foi publicado: “A Amherst, para o funeral de Emily Dickinson, essa rara e estranha criatura. O campo, delicioso, uma atmosfera única, aguçada, estranha, por toda a casa e o terreno ao redor — espécie de ‘House of Usher’ santificada. A relva, no gramado, juncada de botões de ouro, violetas e gerânios silvestres; na casa, um apanhado de amores-perfeitos e outros de lírios-do-vale, em cima do piano. No rosto de Emily Dickinson, uma espantosa restauração de juventude — tinha 54 ou 55 anos, mas não parecia ter mais que 30; nem um fio de cabelo branco, nem uma ruga e uma paz imperturbável na bela fronte (…).”

Adalberto de Queiroz é poeta, jornalista e empresário.

 

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