Elisabeth Bishop, a “brasileira” que não entendeu o Brasil

Apesar de a escritora americana ter vivido no País por quase duas décadas, sua literatura praticamente não foi traduzida para o português. Elisabeth é tida como uma das mais importantes poetas americanas

A vida da escritora que viveu no Brasil foi retratada, em 2013, no longa “Flores Raras”, de Bruno Barreto

A vida da escritora que viveu no Brasil foi retratada, em 2013, no longa “Flores Raras”, de Bruno Barreto | Foto: Reprodução

Adalberto de Queiroz
Especial para o Jornal Opção

Elizabeth Bishop nasceu em Worcester, Massachusetts, em 8 de fevereiro de 1911, e faleceu 68 anos após, em Boston; ambas cidades americanas. Em 1951, depois de ter chegado de navio, ao porto de Santos, em São Paulo, Elizabeth se encantou pelo país brasileiro, sobretudo pelas montanhas de Petrópolis (RJ); lá, permaneceu por quinze anos. Durante este período, escreveu numerosos registros e poemas, nutriu uma relação afetiva com a paisagista Maria Carlota Costallat Macedo Soares, mais conhecida como Lota, que a manteve ligada ao Brasil, onde a poeta teve o aconchego que lhe proporcionou “os mais felizes dias de sua vida”.

Se o pensador francês Gaston Bachelard estiver certo ao citar Pierre Jean-Jouvet, “poesia é uma alma inaugurando uma forma” — cujo ofício ofereceria ao próprio poeta “enorme poder e dignidade humana” —, eis-nos diante da oportunidade única de redescobrir, de desvelar a alma de uma escritora de alta qualidade que se expressou com grande “intuição criativa”.

“Quis o destino que Elizabeth Bishop comesse um caju assim que chegou ao Brasil em 1951…”, diz o também poeta e ensaísta Felipe Fortuna em “A próxima Leitura”, a fim de concluir que, mesmo confusa em muitos momentos na relação com o país, ela teria admitido ter aqui vivido sim seus mais felizes anos; e, como poeta, ter provado mais que do fruto proibido: “provou que é possível escrever grande poesia mesmo quando se encontram problemas de informação e apreciações confusas sobre outras culturas” — como conclui Fortuna.

Tal pensamento vem da apreciação escrita que Elizabeth fez do país, em um livro editado pelas severas mãos da redação da revista Life. Mesmo que a obra, hoje fora de circulação e desatualizada, contenha outras informações não advindas da pena da escritora — na essência, Fortuna fora cotejado com cartas de Elizabeth a amigos norte-americanos —, ele prova que as idiossincrasias, incluindo certo mau humor com alguns aspectos da vida nacional, sobre a visão da poeta estrangeira a respeito do país está eivada de problemas de apreciações confusas e, às vezes, geocêntricas.

Há muitos momentos de mal-entendidos e subentendidos na avaliação de Elisabeth sobre o país. É o que escreve em cartas, diários e na introdução à ”Antologia da poesia brasileira do século XX”; livro editado com Emanuel Brasil (1972). Se constata que há muitos poetas e muito apreço pela poesia no Brasil, termina por ridicularizar o próprio Manuel Bandeira (a quem dedica o livro); bem como o “tratamento respeitoso que os poetas tinham no Brasil”, segundo Fortuna como “algo de ridículo e ultrapassado”.

Apesar de tudo isso, perguntaríamos então, vale a pena ler e escrever sobre Elizabeth e sua poesia nos dias de hoje? Minha resposta entusiasmada é sim; acrescento até que ela merece ser relida, entendida e, por que não, amada.

 

Ângulo

O problema que se coloca desde o início é o mesmo diante o qual sofre o biógrafo: a perspectiva. “Um dos maiores problemas para quem escreve a biografia de um poeta é a questão da perspectiva, do ângulo, ou ângulos, que o biógrafo toma para tentar alcançar a essência deste poeta”, adverte o biógrafo Paul Mariani — ele escreveu acerca de vários poetas norte-americanos; por exemplo, Robert Lowell, William Carlos Williams, Hart Crane e John Berryman.

Se em uma biografia a perspectiva é um problema a resolver, em um artigo chega a ser uma barreira quase insuperável. A menos que se projete uma série de artigos, este seria uma espécie de “arrancar o véu” da poesia de Elizabeth. A forma aqui pretendida, então, é de uma pequena contribuição crítica, com a qual espero propor um diálogo intercultural e não um ensaio de comportamento e relações. Eis, pois, um bom por quê.

Não há como deixar de escrever sobre Elizabeth, nem que fosse por gratidão a poeta que aqui viveu por 15 longos anos, estabeleceu vínculos emocionais com o Brasil e brasileiros, registrou seu encantamento, suas diferenças culturais e suas surpresas com as mais diversas facetas do ser brasileiro e da geografia — que é um dos temas animadores de sua poesia, mesmo que tenha cometido tantas confusões e subapreciado um “sem-número” de detalhes, talvez até porque tenha decidido ser sempre estrangeira, por exemplo, não aprendendo a falar a língua do país adotado.

Quando chegou ao Brasil, Elizabeth procurava por algo mágico, espiritual, uma visão, uma nova geografia; mas, inadvertida, a turista encontra no então caju o atrativo traiçoeiro, capaz de transforma-la em portadora de visto permanente, por quinze anos, também a fez entender “os dissabores de provar a fruta tropical”. Elizabeth teve uma alergia e precisou de socorro médico. Daí em diante, mais do que advertir os futuros turistas sobre o que podiam esperar do Brasil, ela conviveu com uma elite pensante, traduziu poemas, viveu uma paixão por outra mulher e atraiu outros escritores (como Lowell) para conhecer o país e a nossa literatura.

Elizabeth pagaria o preço da dificuldade de compreensão e, como tal, é “estranha” ao “dimensionamento das pequenas coisas do cotidiano”, como disse Fortuna, seja no plano das relações sociais, seja no plano do funcionamento tropical e das características étnicas — ele acentua não haver “em Elizabeth qualquer impulso de integração ou de imersão na cultura e sociedades locais”.

Este distanciamento crítico da poeta se confirma na observação do poeta e tradutor literário Paulo Henriques Britto sobre suas relações com o Brasil: “o que realmente a fascinava no Brasil era a natureza; os costumes da gente simples despertavam nela uma curiosidade distanciada; e a high culture brasileira pouco a interessava, com exceção de um número muito reduzido de escritores”; escritores estes que frequentavam a casa de Lota e da poeta fosse no Rio ou na Casa Mariana (hoje casa-museu em Ouro Preto, Minas Gerais).

Embora pouco traduzida no Brasil, Elizabeth é lida por “uns dois em mil” — expressão da poeta polonesa Regina Przybycien, também tradutora da também polonesa Wislawa Szymborska, ganhadora do Prêmio Nobel de 1996. São estes os poucos leitores de poesia abaixo do Equador; poesia esta de originais, que são facilmente encontrados em sebos e em livrarias online.

Se divulgada massivamente e tendo sua poesia disponível para um grande público, como foi feito com sua vida em “Flores Raras” (longa de Bruno Barreto, lançado em 2013), Elizabeth poderia ser vista como a poetisa do detalhe, a artesã que era capaz de deixar em suspenso por anos a fio um poema, à espera do que lhe parecia o tom perfeito; por exemplo, “One Art”, que teria consumido 25 anos da escritora.

Entre uma edição e outra, ela corrigia detalhes em poemas publicados. “Era essencial para Elizabeth Bishop que as palavras numa frase poética fossem precisas e exatas”, afirma o ficcionista Colm Tóibín, em “On Elizabeth” (2014).

Em uma carta a Lowell, Elizabeth defendia esta disciplina quase maternal [no entanto de comandante naval] com as seguintes palavras: “Já que estamos navegando em um mar desconhecido [fazer Poesia], é aconselhável analisar cuidadosamente tudo que flutua em nossa direção; quem saberá dizer quanto poderemos depender desse detalhe”. Teria, assim, a palavra como tábua de salvação.

Para Tóibín, em Elizabeth “a word was a tentative form of control”, que, em livre tradução, significa “a palavra era uma tentativa de controle”. Essa forma de controle é que permitiria a poeta navegar com segurança no mar da arte que pratica. Em Elizabeth, as palavras e suas estruturas, sua escolha criteriosa, parece sempre conspirar para que, mesmo de forma hesitante, tímida ou experimental, se estabelecesse quem está no controle; aprende-se, assim, com Tóibín e com a leitura atenta da poesia de Bishop.

Da Nova Escócia, terra dos avós no Canadá, Elizabeth teria herdado a “economia de meios”. Segundo Tóibín, que é irlandês, originário de um mesmo costume, em certas sociedades fala-se pouco e se expressa com eficácia.

Como diz Britto, é lamentável que toda a obra da poeta não tenha ainda sido traduzida ao nosso idioma. Das injustiças do Brasil com Elizabeth, tem-se a publicação apenas parcial de sua obra. Segundo ele, nenhum livro foi publicado integralmente no país e os poemas só aparecem em duas coletâneas, “Poemas do Brasil”, de 1999, atualmente esgotada, e “Poemas Escolhidos”, de 2012, ambas da Companhia das Letras.

Mesmo agora, momento em que a editora prepara o lançamento de um livro com a produção em prosa da poetisa para 2014 — que inclui alguns textos inéditos —, houve uma seleção, feita por Britto. Mas, como afirma Britto, se o país não está na lista de seus maiores leitores, ao menos pode se orgulhar de ter sido fundamental para uma das poetisas mais importantes do século XX.

É, pois do mais importante tradutor de Elisabeth, que deixo o leitor com um de seus poemas mais conhecido; uma forma ítalo-francesa (villanelle), a qual a poetisa se dedicou por longos 25 anos, o já citado “One Art”. Traduzido para “Uma Arte”, o poema é considerado um verdadeiro manual de perdas — assunto em que Elisabeth foi, ao longo de sua vida, uma especialista e anotadora cruel e detalhista. A professora Susan McCabe chega a dizer que Elisabeth logrou construir uma “poética da perda”. O poema, é pois, o resumo de uma vida, tal como quer o crítico Lloyd Schwartz sobre a obra de Elisabeth: “ela vive através de seus poemas”.

Se foi feliz apenas na Nova Escócia dos avós e no aconchego que lhe proporcionou o amor de Lota, no Brasil, Elizabeth nos faz, detalhista que é, extasiados diante da melancólica epifania. A nós, seus leitores, ela conduz em um mar de palavras como pessoas menos interessadas em hábitos, escolhas ou decisões amorosas; e, sim, mais afeitos ao detalhe e ao “silencioso e concentrado esforço” da expressão poética, lendo ou escrevendo, estamos com Elizabeth presos  em uma conspiração afetiva entre escritor e leitor.

 

Uma Arte

(Tradução de Paulo Henriques Britto)

 

A arte de perder não é nenhum mistério

tantas coisas contém em si o acidente

de perdê-las, que perder não é nada sério.

 

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,

a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Depois perca mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, a escala subseqüente

da viagem não feita. Nada disso é sério.

 

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

 

Perdi duas cidades lindas. Um império

que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

 

Mesmo perder você (a voz, o ar etéreo, que eu amo)

não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser um mistério

por muito que pareça (escreve) muito sério.

 

2 respostas para “Elisabeth Bishop, a “brasileira” que não entendeu o Brasil”

  1. Ainda prefiro o título original (que o editor trocou para o que ora se lê online!) que era: “Elizabeth Bishop e o Brasil: entre o aconchego e a melancolia”

  2. Tiago Silva disse:

    A obra de Eizabeth Bishop foi quase toda traduzida para o português por Paulo Henruques Britto. Em versão bilíngue, seus poemas foram reunidos no volume Poemas Escolhidos de Elizabeth Bishop, lançado pela Companhia das Letras. Seus textos em prosa, foram lançados em Elizabeth Bishop: Prosa, publicado pela mesma editora. E sua correspondência, também quase completamente, foi publicada em ELizabeth Bishop: Uma Arte. Tudo isso antes de 2014.

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