Edward Said é visto como orientalista charlatão por Robert Irwin

Crítico do intelectual palestino sugere que “Orientalismo” é até um “bom romance”, com muitos “vilões sinistros” e “poucos mocinhos”. Seria uma obra de imaginação

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

“Sugeri ao Facebook que troque a frase ‘No que você está pensando?’ / Quem te disse que nós escrevemos o que pensamos? / O que pensamos não pode ser escrito aqui.” Abud Said, em “O Cara mais esperto do Facebook”

Edward Said, intelectual palestino e autor do livro “Orientalismo”

Há poucas coisas mais divertidas do que observar as reações viscerais dos fãs de intelectuais pop quando eles são acusados de charlatanismo. Trata-se de um fenômeno inevitável. Todo intelectual, escritor, filósofo ou pensador que fica famoso, famosinho ou famosíssimo, em algum momento, vai ser acusado de ser um farsante. É o preço da celebridade. Foi assim com o crítico literário Harold Bloom, o psicanalista Jacques Lacan, o filósofo Jacques Derrida e até gigantes aparentemente acima de qualquer suspeita, como Winston Churchill, tem seus apóstatas. É importante destacar que essas acusações de charlatanismo é algo muito diferentes do que fizeram Paul Johnson, em “Os Intelectuais”, e Roger Scruton, em “Pensadores da Nova Esquerda”, quando apontaram equívocos e contradições em figuras como Jacques Rousseau, Karl Marx, Liev Tolstói, Antonio Gramsci e Edward Thompson. Com notáveis exceções, não negam o talento, a erudição ou as realizações dos criticados. Limitam-se a colocá-las em perspectiva. Roger Scruton chega a definir Jean-Paul Sartre e Michel Foucault como gênios que, estranhamento, chegaram a conclusões erradas.

Charlatanismo é outra coisa. Charlatanismo não é errar, charlatanismo é saber-se errado e capitalizar o erro. Seja por ganância, deslumbre, vaidade ou simplesmente por não ter hombridade suficiente para permitir-se voltar atrás.

É a acusação que Robert Irwin faz contra o célebre intelectual e galã árabe Edward W. Said (1935-2003) no livro “Pelo Amor ao Saber — Os Orientalistas e Seus Inimigos” (Record, 462 páginas, tradução de Waldea Barcellos), lançado no Brasil pela editora Record.

Na verdade, a obra de Robert Irwin não é necessariamente sobre Edward Said, tampouco uma resposta ao livro “Orientalismo — O Oriente Como Invenção do Ocidente” (Companhia das Letras, 528 páginas, tradução de Rosaura Eichenberg), trabalho que deu fama internacional ao intelectual palestino e tornou-o uma espécie de “dono do tema” entre os leitores não especializados. A pesquisa de Robert Irwin trata do orientalismo em si, seus desdobramentos históricos e situação contemporânea. Fatalmente acaba chegando em Edward Said no capítulo nove, intitulado “Uma investigação sobre a natureza de uma polêmica do século XX”. Esta resenha se concentra nesta parte do livro.

Edward Said é apresentado como celebridade pop
Logo na abertura do capítulo, Robert Irwin descreve nos seguintes termos seu personagem: “Edward Said, falecido em 25 de setembro de 2003, tinha muitos amigos e ainda mais admiradores. Era bonito e estava sempre bem trajado. Também era elegante, sensível, espirituoso, erudito e culto. Tocava piano e tinha um conhecimento excepcional de música clássica. Era um crítico literário sutil e respeitado. Sendo ele próprio um intelectual, sempre encarou com extrema seriedade os deveres do intelectual. Foi também um defensor incansável dos direitos dos palestinos” (páginas 323 e 324). Talvez o próprio Edward Said, vaidoso como era, aprovasse a descrição aparentemente apologética. No livro “Representações do Intelectual” (Companhia das Letras, 127 páginas, tradução de Milton Hatoum), onde foram publicadas suas participações na série radiofônica Conferências Reith, realizadas em 1993, fica claro sua intenção de ser um pensador atuante, engajado, e não apenas um autor de gabinete ou sala de aula. Para Said, o trabalho intelectual deveria ser um ofício posto em evidência e ele mesmo se sentia muito à vontade para exercer esse papel de divulgador de ideias e ideais. Outras obras, como “Cultura e Imperialismo” e “Reflexões Sobre o Exílio”, sedimentam tal perspectiva. Mas a descrição de Robert Irwin vai além, captando intenções personalistas por trás dos discursos nobres. O Edward Said que descreve é uma celebridade pop que, quase por acaso, atuava no campo intelectual. Frequentava tantas festas badaladas quanto bibliotecas e arquivos.

Para Robert Irwin, Edward Said só se tornou essa figura destacada, frequentadora de listas de convidados Vip nos mais diversos eventos sociais, porque canibalizou décadas de pesquisas sérias quando lançou “Orientalismo”, em 1978. O livro deu-lhe status de porta-voz para uma questão que ganhava cada vez mais destaque na imprensa internacional, a Causa Palestina. Como bônus, amealhou fama de incorruptível ao se opor ao regime corrupto e opressor de Yasser Arafat, da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

A ideia central de “Orientalismo” é analisar a visão ocidental dominante acerca do Oriente, destacadamente do mundo árabe. Para servir aos interesses colonialistas, o Ocidente, por meio de vasta produção de textos literários, oficiais e religiosos, teria criado uma imagem distorcida do Oriente, escondendo-o atrás da máscara do “Outro”, do exótico, da ameaça. Combater essa imagem distorcida era a missão auto imposta de Edward Said. Parece justo, justíssimo. Mas, segundo Robert Irwin, apesar de Edward Said ser um bom garoto-propaganda, sua reputação não possuía bons fundamentos. Para ele “‘Orientalismo’ dá a impressão de ser um livro escrito às pressas. É repetitivo e contém muitos erros factuais”. Difícil discordar diante dos argumentos apresentados ao longo do capítulo. Mesmo o admirador mais fiel não consegue manter-se inabalado, salvo se sofrer de desonestidade intelectual crônica.

Edward Said não era reconhecido como pesquisador especializado nas relações entre Oriente e Ocidente quando lançou o livro. Soou como oportunismo para parte considerável da comunidade acadêmica. A recepção inicial foi relativamente hostil. Orientalistas respeitados —como Bernard Lewis e Donald Little — fizeram sérias e ponderadas objeções. Porém, com o tempo, e a ajuda do charme e das relações interpessoais do autor, pouco a pouco o livro foi sendo reconhecido até chegar ao ponto de se tornar referência e ser cultuado nos círculos acadêmicos, que regularmente arvoram ser mais bem informados do que de fato são. O público principal da obra era composto por “pessoas que não eram orientalistas e não detinham conhecimento especial sobre o tema” (página 347).

Palestino costurou uma colcha de retalhos de citações
Robert Irwin acusa Said de cair na própria armadilha ao se recusar a dialogar ou dar crédito a eminentes pesquisadores árabes. Ao condenar o silenciamento dos orientais, ajuda a silenciá-los ele mesmo. Há fragrantes falsificações históricas. Robert Irwin denuncia que “os persas, que sob o comando de Ciro, Dario e Xerxes construíram um império poderoso e tentaram acrescentar a Grécia a esse império, não foram acusados de imperialismo por Said. Pelo contrário, eles foram apresentados como vítimas trágicas e inocentes de descrições enganosas por parte de dramaturgos gregos” (página 333). Edward Said mede os fatos pela régua dos interesses políticos imediatos.

“Orientalismo” é pomposo, contraditório, anacrônico e confuso. Lembrando a expressão cunhada por dois experientes caçadores de charlatões, Alan Sokal e Jean Bricmont, autores do demolidor “Imposturas Intelectuais — O Abuso da Ciência Pelos Filósofos Pós-Modernos”, Robert Irwin escreve que “nem tudo o que é obscuro é profundo”. Para ele, “grande parte do obscurantismo em ‘Orientalismo’ decorre das frequentes referências de Said a Gramsci e Foucault. Said procura reunir esses dois ‘maitres à penser’ a serviço da demolição do orientalismo. Tarefa difícil, tendo em vista que Foucault e Gramsci têm noções diferentes e contrastantes do discurso. A noção de Foucault sobre o discurso, ao contrário da de Gramsci, é a de algo a que não se pode opor resistência” (página 336). Menos do que tecer as tramas eruditas de um harmônico tapete persa, Said teria costurado uma colcha de retalhos de citações.

Outras acusações são meros jogos retóricos. Por exemplo, se por um lado Edward Said insiste que o Oriente não existe, que é apenas uma criação do Ocidente, Robert Irwin retruca que “se de fato o Oriente não existisse, não deveria ser possível descrevê-lo erroneamente” (página 339). Mas Robert Irwin não é leviano e pergunta-se, intrigado, “se o livro de Said é tão falho quanto creio que seja, por que ele atraiu tanta atenção e obteve tanto louvor em determinadas esferas? Não sei ao certo qual poderia ser a resposta correta” (página 359). O orientalista suspeita que a evocação de nomes da moda como Foucault e Gramsci ajudou a chamar atenção, bem como “valeu-se da culpa e das aflições do Ocidente quanto a seu passado imperialista” (página 359), mas não é taxativo. Na verdade, mantêm o tom mais respeitoso que consegue.

A seriedade e comprometimento de Robert Irwin são tão evidentes que tornam pueris as duas respostas padrão dos fãs de celebridades atacadas: “ele não leu direito o autor” ou “isso é pura inveja”. Certamente, Robert Irwin leu Edward Said muito bem. Se foi movido pelo execrável, mas humano, sentimento da inveja, conseguiu disfarçar satisfatoriamente. Robert Irwin não é um intelectual pop como Said, mas possui um currículo respeitável, sendo autor de vários livros, incluindo obras de ficção, é membro da Royal Society of Literature e pesquisador-sênior adjunto da School of Oriental and African Studies. Mas o que o moveu? O título de seu livro parece conter a resposta. Se Robert Irwin foi motivado por algo, parece ter sido “pelo amor ao saber”. E muitas vezes amar algo significa combater aquilo que o vilipendia.

Robert Irwin, pesquisador-sênior da School of Oriental and African Studies

No computo final, a impressão que fica é que “Orientalismo”, no máximo, serviria como livro paradidático de divulgação científica, e mesmo assim precisaria passar pelas mãos de um bom editor, um editor sem pena de usar a tesoura.

Edward Said discordaria ferozmente. Costumava descartar os ataques “como a atitude defensiva da ‘corporação’ dos orientalistas”. Simplesmente não aceitavam que ele tivesse escrito o livro definitivo sobre o assunto. Mesmo diante de provas irrefutáveis se recusava a corrigir erros cronológicos ou factuais nas edições seguintes. Para Edward Said, e esse julgamento é meu, não de Robert Irwin, o texto original de “Orientalismo” era definitivo e intocável, como o do Corão, que já existia antes do tempo existir.

Apesar de tudo, Robert Irwin não é intransigente e reconhece méritos no livro de Edward Said. Não sem sua ironia fina costumeira. Escreveu que “as qualidades positivas de ‘Orientalismo’ são as de um bom romance. Ele é emocionante, está repleto de vilões sinistros, bem como de um número bastante menor de mocinhos e o quadro que ele apresenta do mundo provém de uma rica imaginação, mas em sua essência é ficcional” (página 359). Em outras palavras, um bom conto das mil e uma noites.

Ademir Luiz é doutor em História, professor da UEG e presidente da União Brasileira de Escritores – Seção Goiás

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