Edival Lourenço: um poeta que sopita em comichões

Edival nasceu poeta. Suas crônicas são repletas de poesia. Ele nunca se dissocia da poesia e ela gosta do colo dele, porque sabe acariciá-la e velá-la

Hélverton Baiano

Há muito sorvo os comichões poéticos produzidos por Edival Lourenço, o que me tem feito elaborar e pensar o quanto é forte a poesia dele. Comichões são como Edival define, em nossos bate-papos, aquele chamado da poesia, quando ela emprenha o poeta e ele vai descansar sob os cuidados da parteira da criatividade poética, tirando dos sentimentos e das vísceras aquela cria incrustada pelo gozo incomensurável dos sentidos e sentimentos.

Para o nosso bem e deleite, Edival é acometido de comichões com uma constância apreciável, restando-nos sorver e absorver o que, com essa aura, ele nos contempla. Sua poesia é credora da mais valiosa produção do Estado, do país e do mundo. E aqui não lido com a modéstia, mas com o acanhamento que temos — e que nos amedronta — de comparar o que é produzido localmente. Esse acanhamento nos custa caro e a gente, confesso, não sabe lidar com isso. É um caminho aberto a aprender e a percorrer.

Edival nasceu poeta e já veio pronto. Digo isso porque vejo em suas crônicas, repletas de poesia, os indícios dessa trajetória. Ele nunca se dissocia da poesia e ela gosta do colo dele, porque sabe acariciá-la, protegê-la e velá-la. Quem lida como ele com a poesia, encontra solo fértil para a produção e aquela terra dos rincões iporaenses, onde nasceu e floresceu, fornecia a matéria-prima, que em estado bruto já sopitava naquele menino ladino e cheio de nós pelas tripas que vivia indagando na e da cachola o que eram aquelas fantasias insidiosas que malinavam o seu mundo incauto e o desmundo vasto que prenunciava.

Acho que desde que o vi pela primeira vez, numa das idas a Iporá, para participar de festivais, no início da década de 1980, Edival Lourenço já transbordava em poesia, pela afabilidade com que nos recebeu em sua casa, numa caravana que estávamos com os poetas Pio Vargas e Gilson Cavalcante, visto que já vivíamos nesse devaneio tonto e torto e repleto de portos por esse rincão da vadiagem poética. Havia uma faceira inocência de causa e seus defeitos, e a consequência a gente sabia, porque nosso mundo já era banhado de poesia.

Já nessa época gestado estava seu “Estação do Cio”, livro que inaugurava essa trajetória e que mostrava o poeta de qualidade que ali estava nu e cru, apresentando sonetos bem trabalhados e se despindo para o mundo das sensações que nos indagam constantemente sobre o ofício doce e duro de passar por essa vida, como nesses versos que recolho do poema de “Nu Frontal”:

“Algo que me diz que vou ser infinito

qual luz em facho que beira o imortal

como em chama de fósforo o palito

em seu instante de êxtase total,

ser num momento Deus e homem sem mito,

anjo sublime ou fera em cio (mor)tal

e explodir como bomba, incêndio e (g)rito

num clímax sem princípio nem final,…”

Com “Coisa Incoesa”, cujo título em si já exibe a poesia de uma beleza profana, temerária e insidiosa, e com o qual, em 1993, ganhou a Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, da Prefeitura de Goiânia e da UBE-Goiás, da qual seria presidente mais adiante, Edival Lourenço continua sua cavalgada fatal pelos devaneios que indecoram nossa decência, e que em mim acumulam interpelações de que comichões foram esses que nos redimem e condenam aos cárceres da liberdade de criar. Aleatório, paro em “Franco Atirador”, para mostrar a força de uma poesia afoita e densa:

“sou epicentro e abalo

e flagelado em busca

da saída de emergência;

sedimento de contrário

que raro gourmet degusta

em regime de urgência.

 

Desespero inanimado

:estresse de vísceras

vésperas de precipício

encanto sem milagre

de alguma fada treteira

na condução de seu ofício.

 

sou assim açude antigo

a ponto de desabar

por sobre mim mesmo.

sou amiúde inimigo

propenso a atirar

em mim próprio a esmo.”

Edival Lourenço: poeta, prosador e “proeta” | Foto: Fernando Leite / Jornal Opção

Certas horas, paro para imaginar as “Vias do Voo”, não somente o livro seguinte de Edival Lourenço, mas, sim, como ele, nesse espaço intenso de liberdade, nos faz estacar para assuntar como penetrar, sem acidentes com pássaros, aviões, drones e que tais, nesse universo de imensurável leveza. Decerto as vias desse voo são como o pensamento, que não tem porteira e nem sai por aí esbarrando nos outros, apesar de conter os mundos. O irrequieto poeta sabe trafegar por essas vias, enquanto trafica o vigor do indizível e nos enche da leveza mais insana e sã. É uma poesia sem medo, mostrando que os comichões sabem se defender. Catei aqui um pedacinho do poema “Construção de Motivos”.

“Enquanto isso eu escrevo poema

E escrevo com a fúria

De quem lavra lavouras inveteradas

Com a fúria de quem prepara

Para uma guerra iminente

Com a fúria de quem ergue

Pirâmides de ouro no deserto do ser

 

Com a fúria de quem vende

O ócio e a consciência.”

Em seguida, ele nos deu “Caligrafia das Heras”, que eu lia pensando em como escrever com plantas, talvez contornando com flores os espaços vazios das letras ou quem sabe pagando um castigo de escola, para melhorar a caligrafia, onde a professorinha me mandava escrever cem vezes: “Devo escrever poesia contornadas com plantinhas do cerrado”. Ou o castigo seria para o Edival, e ele: “A poesia, apesar de tudo, eclode”, “A poesia, apesar de tudo, eclode”, “A poesia, apesar de tudo, eclode”… cem vezes. Aproveitei esse motivo para reler, conjecturar, cavoucar. Ainda bem.

Como vim falar da poesia de Edival, escalei de sua “Caligrafia das Heras”, “O Poema e Eu”, que abraça esse tema:

“No alvo da lauda

eu te flagro

e te flecho

frente e verso

mas pelo avesso

tu me alvejas

com flechas

de dúbio reflexo

da escaramuça nascemos nós

tu e eu

para o destino subverso.”

Os comichões dessa vez fizeram saliência no quengo de Edival para regurgitar poemas que enganassem sua própria cópia. E mais uma vez o título nos leva à pergunta: como pode um carbono se enganar? Na cabeça dele pode, e, para nosso regozijo, o que ele pariu com “Enganos do Carbono”, de 2013, deu vazão ao encafifamento próprio de quem procura as distorções do eco e as desigualdades gêmeas. Distorções do eco podem existir, dependendo do arcabouço físico do espaço aonde o som penetra. Mas e os enganos do carbono? Para a poesia de Edival são factíveis e certamente é isso mesmo que todos nós procuramos na poesia, as atrações e distrações que a fazem distorcer os caminhos que tecemos.

Edival Lourenço e Ferreira Gullar: próximos e diferentes, sobretudo grandes poetas | Foto: Divulgação

Num pedaço do poema VI, ele diz:

“A cadeia de carbono

sobre a qual se assenta

meu corpo como engano

perambula por aí

desde os primórdios.

 

Meus genes nasceram

pouco depois

do nascimento de toda a matéria

e vão correndo futuro afora

por dentro dos talos

pelos dutos

que a própria vida cava.”

E eu completo, propositadamente, com o poema VII, onde o carbono Edival vive uma superstição.

“Assim de tempos em tempos

eu por inteiro deixo de ser eu

então eu sou outro

e mais outro

sucessivamente.

 

Mas um mistério me azucrina:

por que este eu-outro

mesmo outro sendo

insiste em preservar no íntimo

estas arcaicas pisaduras?

 

Por que minha carteira de identidade

insiste nessa farsa

e meus credores por conveniência

continuam acreditando

nesta superstição

chamada Edival Lourenço?”

Aí vieram aqueles comichões mais estranhos e estrambóticos, que geraram “Pela Alvorada dos Nirvanas”. E essa foi uma aventura poética e tanto, pelo que nos conta Edival, embaixo dum quieto, sabendo que nós, nesse ofício, somos crentes inveterados nessa transcendência. Um disparate de poesia que brotou de ruma e enchendo os balaios de vazios, e a poesia vazando pelos ladrões em congruências. E deu graças aos que nele acreditaram e adjutoraram para que a poesia se alimentasse e nos alimentasse depois. Criou-se nele, em músculos, nervos e febres, um verdadeiro terreiro cheio de orixás poéticos, conduzindo os céticos e sincréticos aos nirvanas budistas que constroem a felicidade.

Tirei aqui um pedaço dessa profusa loucura criativa, onde ele diz:

“minha definitiva ausência

que a suponho de dor e vertigem

sei que em verdade

a não ser para alguns

bancos de dados

de cartório e previdência

não há de modificar

sequer uma vírgula de luz

de qualquer amanhecer”

 Edival Lourenço: autor que navega tão bem na poesia quanto na prosa | Foto: Reprodução

Aí foi quando, em 2014, ele decidiu reunir toda sua obra poética, porque achava que os comichões estavam e estariam doravante adormecidos ou, quem sabe, mortos. Mal sabia ele que esses comichões só morrem com o dono da poesia. Eles são sábios e irrequietos e não deixam o poeta para trás. Assim, a saliência da poesia batucou nos entremeios da cabeça, do coração, do fígado e de todas as vísceras, pedindo clemência. Foi quando veio a lume o “Queixumes”, recentemente lançado, com sonetos e hai kais.

É outro livro encantador do poeta Edival Lourenço, como até já disse nas redes sociais. E dele mostro aqui o poema 33:

A luz lanosa em meio desta bruma

me atordoa qual fruto de mistério

a levantar num mundo deletério

que eu vejo sem igual em era alguma.

 

Uma alucinação que se avoluma

acúmulo de lixo em vasto império.

No entanto, só eu mesmo levo a sério

o caos insano que jamais se arruma.

 

Enredo-me na meada das ideias

e mal apanho algum fiapo sutil

depois de me agastar de tanta luta

 

em desembaraçar as centopeias

luzindo e se apagando em cada fio

no cerne desta bruma agreste e bruta.

Mas para quem acompanha a poesia de Edival Lourenço, como sempre fiz questão, a produção não está completa, pois há, pelo menos para contar, entre outras, a “Antologia da Chuva de Poesia”, de março de 1992, onde ele participa com um poema denominado “Deságio”.  Na teia dessa produção vieram ainda os livretos da Coleção Porranenhuma, idealizada, também, por ele e Pio Vargas: o “Ódio ao 7 de setembro”, em parceria com Pio, e “Porralux Gel”, que é também apresentado por Edival como “afrodisíaco — antiestressante & multiplicador genético”.

De “Ódio ao 7 de setembro” trago aqui o poema 1.

“É sete e é setembro

e nenhuma independência

rompe o horizonte já desgastado

da nossa expectativa.”

“Porralux Gel” foi lançado em 27 de junho de 1989. Sei disso porque é a data que consta da dedicatória que ele fez para mim no livreto. Nele, cada grama da composição contém uma porrada de sêmen, gosma, óleo lubrificante e um excitante q.s.p., para harmonizar a fórmula. Além do que, trouxe uma importante campanha de utilidade pública, no momento em que proliferava uma perigosa doença sexualmente transmissível. E a campanha dizia assim: “O Ministério da Saúde informa: p…a não provoca Aids”.

Em tudo que a poesia de Edival mente, eu acredito. Pois tudo que ele diz é bem dito. E tenho dito.

Hélverton Baiano é poeta e jornalista.

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