“É impossível fazer qualquer tipo de arte sem falar de política”

Exposição da obra do goiano Hal Wildson será a primeira apenas do artista plástico. Casa Colagem fica em cartaz de hoje, 28, até 31 de maio no Centro Cultural Octo Marques

Hal Wildson - Foto Rodadas de Estudos Audiovisuais editada

Mostra de Hal Wildson é composta por 105 pinturas, colagens, bordados, desenhos e fotografias que podem ser definidas em três temas centrais: “Amor, raízes ancestrais e tramas do afeto” | Foto: Rodadas de Estudos Audiovisuais

Ana Luíza Andrade

A afirmação é do artista goiano Hal Wildson, que finalmente conquistou seu lugar ao Sol no Estado em que nasceu e irá expor e provocar o público com sua mostra Casa Colagem, na Galeria Frei Confaloni, no Centro Cultural Octo Marques, em Goiânia. A exposição, que fica em cartaz para visitação de hoje, 28, até 31 de maio, de segunda a sexta-feira, das 9 as 12 e das 14 às 17 horas, tem entrada gratuita.

A mostra é composta por cerca de 105 obras de pintura, colagem, bordados, desenhos e fotografias que podem ser definidas, como o próprio desenhista resume, em três temas centrais: “Amor, raízes ancestrais e tramas do afeto”.

Imagem: Divulgação

Natural da cidade de Aragarças (GO), o poeta visual compartilha que foi criado apenas pela avó e que aprendeu a preencher a ausência dos pais através da poesia. Na arte, Hal descobriu seu verdadeiro lar, e no colo da matriarca, a inspiração para o seu estilo.

Tudo aconteceu após a morte da avó. Neste instante dramático da biografia nasceu também o artista. Foi nesse momento que Wildson teve a ideia de realizar o maior sonho dela: reformar a casa humilde em que viviam. Preencher de vida as paredes manchadas pelo tempo e as dificuldades que haviam experimentado juntos. Assim nascia seu estilo excêntrico e espontâneo: de recortes de jornais e livros colados na parede. Na superação do luto, Hal descobriu a colagem e transformou a dor em um motor artístico para modificar a própria história.

Esta é a primeira vez que o artista terá a oportunidade de expor sua obra individualmente em Goiânia. Isso depois de participar de exposições em Nova York e Los Angeles. Finalmente Wilson retorna triunfante à Goiás, de onde nunca saiu – metaforicamente -, para transmitir sua poesia e intrigar o público com as mensagens sombrias que ele gosta de esconder entre os desenhos.

Imagem: Divulgação

Wildson, você classifica o conjunto de sua obra em três temas centrais: “Amor, raízes ancestrais e tramas do afeto”. Onde está a sua raiz? Você ainda está ligado ao menino que nasceu e cresceu em Aragarças?
A arte é a forma que eu consigo me conectar com a minha história e ao mesmo tempo construir uma nova história pra mim. Porque apesar de ter vindo de onde eu vim, eu sempre soube que se eu permanecesse na mesma cidade, eu não conseguiria ser um artista reconhecido, eu não conseguiria levar minha arte pra outros lugares. Então eu tive que ir embora para conquistar novos lugares. A arte sempre andou comigo como essa forma de simular o lugar de onde eu vim e ao mesmo tempo conquistar o mundo, outras fronteiras.

A natureza e a relação do ser humano com a fauna e a flora tem um grande peso na sua arte. Isso está relacionado ao fato de você ter nascido no interior?
A natureza é frequente no meu trabalho, mas ela é utilizada como metáfora para explicar a natureza humana. A ideia não é representar a natureza, mas através desses recursos fazer com que o homem entenda sua própria natureza. Porque o ser humano, ele meio que se distanciou da natureza, acha que está acima de tudo e que não faz parte dela. Então esses elementos são metáforas para trazer de volta o homem para esse universo, que ele acha que saiu um dia.

Você conta que o seu estilo nasceu após o falecimento da sua avó. Você diria que sua arte nasceu do luto?
Eu acredito que em parte sim, mas também nasceu da minha vontade de construir uma vida diferente que eu via ao meu redor. No interior, foi minha vó quem me criou. Eu não tive contato nem com meu pai e nem com a minha mãe. Eu via pessoas destruindo suas vidas pelo vício, pela violência doméstica, por crimes. Então a arte também veio como uma forma de me libertar disso, dessas histórias, tendo a oportunidade de contar a minha própria história.

Imagem: Divulgação

Boa parte das suas colagens tem mapas geográficos como pano de fundo. Há uma necessidade de dar casa a seus personagens?
A casa é quase que um personagem em todas as minhas obras. Em algumas, a metáfora da casa é um coração, em outra pode ser uma mala cheia de chaves, como se o ser humano buscasse, de fato, um lar. Quando a gente tem um lar, uma casa, se sente mais seguro para existir. Em outras obras eu uso os mapas como uma maneira de questionar os espaços, por exemplo, nas figuras indígenas, porque existe tanto espaço para uns e não para outros? Será que existe igualdade na divisão de espaços?

Onde está o lar de Hal Wildson?
Eu encontrei meu lar na arte. Como eu tive que amadurecer muito cedo, com 14 anos, então tive que descobrir onde era meu lar e construir esse lar. Hoje, acredito que apesar das ausências que existiram na minha vida, transformei todas essas ausências, a falta de afeto, em uma maneira de existir.  Isso virou a minha casa.

Há uma passagem bíblica que diz que “um profeta é respeitado em toda parte, exceto na sua terra, entre seus parentes e na sua própria casa”. Essa é a primeira vez que você expõe em Goiânia. Isso depois de ser reconhecido internacionalmente e participar de uma exposição de um camarote famoso no carnaval do Rio. Como você explica a demora para encontrar seu espaço no cenário goiano?
Eu me mudei para Goiânia há seis anos. E na minha cidade, eu estava fazendo um curso superior, terminando o último semestre, tinha um concurso público, estava estabilizando minha vida. Só que eu sabia que lá eu não conseguiria progredir como artista. Decidi abandonar tudo e vir para Goiânia. Quando eu cheguei aqui, eu era um jovem que não sabia o que era viver na capital e houve um pouco de resistência de alguns espaços de galeria em relação ao meu trabalho, porque é um trabalho muito diferente. Foi quando decidi que não ia ficar procurando galeria e receber “nãos”, decidi ser um artista independente. Nesse percurso, eu participei de exposições no Sesi, no Sesc, mas foram sempre exposições coletivas. Essa é a primeira vez que eu faço uma exposição tão grande e individual.

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Então houve dificuldade para encontrar esse espaço. Você precisou primeiro ser reconhecido lá fora, para só então conquistar seu lugar aqui.
Sim. No início, eu tinha mais clientes lá fora do que aqui. Clientes do Rio, São Paulo, clientes de fora do Brasil. A medida que meu nome passou a ser reconhecido lá fora, e alguns famosos começaram a comprar obras minhas, o mercado goiano me aceitou ainda mais. Sempre teve goianos que apoiaram a minha arte, mas hoje, as pessoas apoiam ainda mais.

E Aragarças? Você voltou lá durante esse período? Qual o seu relacionamento com a cidade?
Voltei para lá. Gosto muito de lá. Lá tem rio e eu sou apaixonado no Rio Araguaia. Tenho conhecidos, amigos, eu sempre olho para lá com um olhar saudosista, de um período muito importante na minha vida, que me fez crescer e amadurecer. Mas eu não tenho apego. Eu sei que a essência de lá está em mim e que eu devo continuar a conquistar novos espaços.

Você realizou exposições em Nova Iorque e Los Angeles. Qual a diferença na recepção da sua arte no cenário internacional e no Brasil?
Eu entendo que, para os brasileiros que estão lá, ou pessoas que estão lá, eles apreciam muito quando um artista principiante é exposto. No Brasil, nem tanto, sabe? Mas eu sou um artista muito pé no chão, não me preocupo com isso. Eu quero que minha obra vá para a casa das pessoas, entre no lar e no imaginário das pessoas. Eu não me importo se eu expus em galeria X ou Y, quero que minha arte faça sentido na vida delas.

Imagem: Divulgação

Nas suas obras você trata o tema indígena, a afro-brasilidade, a perspectiva latina. É possível abordar essa temática hoje sem falar sobre política?
Não. Para mim é impossível fazer qualquer tipo de arte sem falar de política. Política não é sobre partido, sobre direta ou esquerda, é uma questão de posicionamento no mundo. Eu acho que no fundo todo mundo quer se sentir parte desse mundo. E existem algumas classes, algumas pessoas, que precisam lutar um pouco mais para isso. Então, eu dedico a minha arte a essas pessoas, que assim como eu, precisam lutar um pouco mais para conquistar espaço, conquistar respeito e dignidade de existir.

Suas obras têm cores quentes, tropicais, alegres. É assim que você vê o Brasil?
Acho que eu consigo enxergar os dois lados. Eu vejo a beleza e a tristeza. Ao mesmo tempo em que eu tenho obras muito coloridas e solares, eu também tenho obras que escondem mensagens sombrias. Eu gosto de brincar com essa dualidade, porque eu acho que a arte é para isso, é para você realmente se surpreender.

Por que a colagem?
Eu já pensei muito em ser apenas desenhista ou me dedicar apenas a um estilo. Existe no imaginário das pessoas essa ideia de que o artista precisa ter um único estilo, né? Só que eu percebi com o tempo que o meu estilo é o da criação experimental. Eu gosto de experimentar. Tudo começou com a ideia de ser escritor. Eu sempre gostei de escrever e hoje me considero um escritor. O papel, a palavra, as coisas escritas, me fascinam muito.  Hoje eu misturo um pouco de tudo: o bordado, a poesia, a fotografia, a pintura, a colagem, mas o papel tá sempre ali presente, porque me remete a literatura.

Já tratamos das suas raízes ancestrais, das tramas de afeto e memória, restou apenas o amor. Onde está o amor, Hal?
O amor é um tema muito importante na minha obra porque eu não falo apenas sobre ele, eu também questiono o amor e a forma como o ser humano se relaciona com ele. Eu quero, na verdade, ampliar o sentido do amor. Eu quero falar do amor entre iguais, eu quero falar do amor interracial, no amor entre transexuais, eu quero falar sobre diversas formas do amor. No fundo, eu acho que o ser humano anseia isso, todo mundo quer amar, se sentir amado, se sentir conectado com o mundo. E eu acho que o amor pode se apresentar de várias formas.

Imagem: Divulgação

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