Drauzio Varella visita as lendas amazônicas e faz excelente livro de literatura infantil

Com ilustrações de Odilon Moraes, “Nas águas do Rio Negro” divide-se em duas partes, cada qual podendo ser lida como um único livro, ambientado com muita aventura e conhecimento

Drauzio Varella se mostra um grande autor de histórias infantis ao compor o volume “Nas Águas do Rio Negro” | Foto: Divulgação

Dirce Waltrick do Amarante
Especial para o Jornal Opção

“Nas águas do Rio Ne­gro” (Com­pa­nhia das Letrinhas, 51 pá­gi­nas, ilustrações de Odilon Mo­raes), de Drauzio Varella, são dois livros em um, pois se poderia dividi-lo em duas partes. Na primeira, Drauzio é o contador de histórias que narra as suas aventuras à margem do Rio Negro, numa linguagem fluente, como se estivesse junto a uma fogueira, cercado de “espectadores” atentos: “Eis, porém, que de repente o sol desapareceu e a escuridão inundou a mata em pleno dia. Impossível dar um passo naquelas trevas”.

No século passado, Walter Ben­jamin afirmou que a arte de narrar estava em extinção. Essa situação, parece-me, não mudou muito ainda hoje. De fato, como diz o filósofo, “são cada vez mais raras as pessoas que sabem narrar devidamente […]. É como se estivéssemos privados de uma faculdade que nos parecia segura e inalienável: a faculdade de intercambiar experiências”.

Conforme disse acima, esse não é o caso de Drauzio Varella, que, para ser bom narrador, precisou ser também um bom ouvinte: “Nas viagens ao Rio Negro, gosto de ouvir as histórias das mulheres e homens que moram nas casinhas de madeira construídas na beira do rio”. Foram essas histórias que inspiraram as do autor, as quais associam o saber das “terras distantes” com suas próprias experiências.

As aventuras de Drauzio Varella misturam fatos reais com as lendas e os mitos da região amazônica. Ele começa relatando o seu trabalho a bordo do barco “Escola da Natu­re­za”, da Universidade Paulista, em que pesquisava, com outros companheiros, substâncias de plantas que pudessem se transformar em medicamento. Descreve, em seguida, uma boa noite de sono numa rede no convés do barco. Contudo, quando acorda (ou não, já que a narrativa seguinte é altamente fantasiosa), descobre que seus companheiros já partiram para o trabalho na mata.

Drauzio se embrenha pela floresta atrás dos companheiros. Sozinho, o narrador conta como se encontrou com o Curupira e não foi enganado por ele, como encontrou a mula sem cabeça e a ajudou a pôr a cabeça de volta, como venceu a onça-pintada etc. O herói vence todos os seres fantásticos, mas, sem cair em moralismos fáceis, conta como não pôde vencer o homem que destrói a mata: “Quando vi que iam jogar no chão uma árvore que levara mais de cem anos para atingir aquela altura, gritei para que parassem, mas eles pareciam ensurdecidos pelo ronco da máquina”. Drauzio não é sentencioso, nem precisa, pois a descrição das árvores sendo derrubadas fala por si.

Essas aventuras da primeira par­te do livro são ilustradas por Odi­lon Moraes, que usou apenas matizes de marrom para dar cor a elas, lembrando as águas do Solimões.

Na segunda parte, a linguagem e as ilustrações mudam. O texto parece ter por objetivo oferecer ao leitor, de forma didática, informações importantes acerca da região banhada pelo rio Negro e das pesquisas desenvolvidas pelo autor e seu grupo. O leitor fica sabendo, por exemplo, como as folhas se transformam em chás e como esses chás se transformam em medicamentos: as folhas recolhidas “ficam separadas dos galhos, das flores e dos frutos. Então o nome e a descrição da árvore da qual o material foi colhido são anotados num computador. No laboratório, tudo é colocado no forno até secar, para depois ser moído […]. Os chás resultantes dessas diluições são gotejados em placas de vidro que contêm células malignas e bactérias resistentes […]”.

Drauzio explica também de onde vieram as lendas e os mitos que hoje se contam nessa região e lembra que “distinguir fantasia da realidade vivida pelos ribeirinhos […] nem sempre é fácil. Ficção e realidade se confundem nesse universo mágico”. O mesmo universo que ele procura ressaltar nas suas aventuras com seres da floresta.

Aqui as ilustrações de Odilon di­vi­dem espaço com fotos do Rio Negro, do povo ribeirinho, da mata, do barco de pesquisa usado pelo gru­po e do próprio Drauzio Varella.

Informação científica e aventuras lendárias compõem este livro sedutor.

Dirce Waltrick do Amarante é autora, entre outros, de “Pequena Biblioteca Para Crianças: Um Guia de Leitura Para Pais e Professores” (112 páginas, Iluminuras).

Foto: Divulgação

Nas Águas do Rio Negro
Autor:
Drauzio Varella
Ilustrações: Odilon Moraes
Páginas: 51
Editora: Companhia das Letrinhas

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