Doutor em História sugere monumento a indígenas do tamanho da estátua do Anhanguera

Jales Mendonça sugere monumento a Damiana da Cunha e diz que vai divulgar as atividades do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás nas mídias sociais

Ademir Luiz e Eliézer Cardoso de Oliveira

Especial para o Jornal Opção

Jales Guedes Coelho Mendonça assumiu a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás, uma das instituições culturais mais tradicionais e influentes do Estado. Promotor de justiça do Ministério Público, é graduado Direito pela Uni-Anhanguera (1996) e em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Goiás (1997) e fez especialização em Direito Administrativo pela Uni-Anhanguera (2005), mestrado em História pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (2008) e doutorado em História pela Universidade Federal de Goiás (2012). Sua produção intelectual o qualifica como um dos mais relevantes pesquisadores da atualidade, com livros como “A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança”, “A Assembleia Constituinte Goiana de 1935 e o Mudancismo Condicionado” e “Os 50 concursos do MPGO — 1948-2018”.

Nesta entrevista, Jales Mendonça fala sobre seus planos de gestão para o IHGG, as relações com o IHGB, as dificuldades da gestão cultural, suas pesquisas históricas e muito mais.

Jales Mendonça: promotor de justiça e doutor em História pela UFG | Foto: Divulgação

O sr. assumiu a presidência do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás no momento em que a instituição está completando 90 anos de existência. Qual sua avaliação acerca do papel desempenhado pelo IHGG ao longo desse quase um século de atividades? Em quais momentos históricos ele teve protagonismo?

O IHGG foi fundado na antiga capital em 1932 e em 2022 completa 90 anos de existência. Teve até hoje nove ex-presidentes, sendo o primeiro o professor Ferreira (Francisco Ferreira dos Santos Azevedo), autor do aclamado “Dicionário Analógico da Língua Portuguesa” (Lexicon, 800 páginas), e o segundo o jurista Colemar Natal e Silva, o mais longevo de todos, já que o presidiu por cerca de 40 anos. Ao longo de sua trajetória, a entidade cumpriu bem o seu papel tanto no aspecto cultural quanto científico e sempre teve protagonismo — maior ou menor, dependendo das circunstâncias históricas — nesses dois campos.

Terceiro membro do MP a dirigir o HIGG

O sr. é o terceiro membro do Ministério Público de Goiás a assumir a presidência do IHGG, depois de Colemar Natal e Silva e Aidenor Aires. Na condição de historiador da memória institucional do Ministério Público, com o livro “Os 50 Concursos do MPGO — 1948-2018”, como o senhor interpreta essa constante aproximação entre as duas instituições?

O filósofo francês Paul Ricoeur (1913-2005) observou que o juiz exerce funções bastante assemelhadas à do historiador, na medida em que ambos buscam a reconstituição do passado e a verdade. Nessa mesma linha de raciocínio, recentemente, um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) asseverou que o Poder Judiciário trata do passado, o Legislativo do futuro e o Executivo do presente. No atual ordenamento jurídico-constitucional brasileiro, o Ministério Público, a despeito de não integrar o Poder Judiciário, também investiga acontecimentos pretéritos, consoante sucede em sua atuação na área criminal. Não saberia apontar precisamente qual a razão dessa coincidência de três membros do Ministério Público de Goiás presidirem o IHGG, mas talvez essa mencionada proximidade com o passado possa ajudar a explicar algo.

Em sua cerimônia de posse foi observado que saía um Coelho da presidência do IHGG para entrar outro. Brincadeiras à parte, Geraldo Coelho Vaz, seu antecessor e parente, é um dos maiores intelectuais goianos: fundador do Grupo de Escritores Novos (GEN), membro da AGL, ex-secretário de Cultura, ex-presidente da UBE-GO, escritor e pesquisador premiado. Como o senhor avalia sua administração do IHGG?

O professor Geraldo Coelho Vaz merece o conceito que o senhor cunhou sobre ele. Trata-se realmente de um dos maiores benfeitores da cultura em Goiás. Exerceu praticamente todas as posições possíveis na cena cultural goiana. E mais: com méritos em todas elas, inclusive no IHGG. Além de uma pessoa de fino trato, demonstrou inquestionavelmente ser um homem de visão larga ao abrir as portas para que uma nova geração assumisse a direção da entidade.

Nova capital: mudancistas condicionados

Na sua análise sobre a construção de Goiânia, o senhor mostrou que havia os mudancistas, os que defendiam a transferência imediata da capital do Estado para uma nova cidade; os antimudancistas, os que eram contrários à mudança da capital; e os partidários do mudancismo condicionado, aqueles que defendiam salvaguardas econômicas para a antiga capital. Naquele contexto, o Estado de Goiás teria recursos para garantir a mudança da capital? Ou em outras palavras: o mudancismo condicionado não inviabilizaria a mudança da capital?

Se tenho algum mérito na tese de doutorado defendida na UFG em 2012 sob o título “O Outro Lado da Mudança”, esse mérito certamente decorre da intensa pesquisa encetada pelos arquivos públicos e particulares de vários municípios de Goiás e de outros Estados, nomeadamente do Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais e Distrito Federal. Descobri e compulsei várias fontes — sobretudo jornais — até então desconhecidas ou pouco exploradas. Essa pesquisa deu-me segurança para lançar duas originais interpretações: primeira, a Constituição Estadual de 1935 foi a pedra angular normativa para a transferência da sede administrativa goiana, conforme resta evidente da leitura do decreto mudancista de 1937; segunda, entre o par binário mudancistas e antimudancistas existiu uma poderosa terceira corrente de opinião, denominada de mudancistas condicionados. A expressiva vitória do partido dirigido pelo interventor Pedro Ludovico na antiga capital em três eleições consecutivas (1933, 1934 e 1935) indica que alguma coisa estava fora de ordem nas análises históricas binárias. O referido dado eleitoral, de caráter objetivo e extraído do “Boletim” do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), comprovou que o governo revolucionário de 1930 granjeava de boa aceitação na Cidade de Goiás. Ademais, a acomodação — típico componente da cultura política brasileira — grassou forte na ocasião e os abalos inevitáveis sofridos com a perda do título de capital seriam amortecidos e compensados.

Feitas essas necessárias considerações, no afã de responder às indagações levantadas, consigno que as balizas do mudancismo condicionado estão expressas no projeto de lei nº 1, enviado em julho de 1936 para a Assembleia Legislativa, com um viés eminentemente preservacionista, isto é, o objetivo principal era manter os estabelecimentos educacionais na bicentenária urbe, salvo a Faculdade de Direito. Como bem percebeu Paulo Bertran, isso evitaria a ruptura de um tecido cultural urdido com dois séculos de história. Os gastos adicionais com a Cidade de Goiás seriam custeados com a arrecadação tributária estadual gerada no próprio município vilaboense.

Por outro lado, sucede a existência de uma tendência chamada de mudancistas incondicionados, vigente sobretudo no sudoeste goiano, refratária a qualquer despesa do governo estadual com antiga capital. O Estado deveria canalizar todas as suas receitas na construção de Goiânia. Não passou despercebido do escritor Bernardo Élis essa malquerença com tradicional cidade, a ponto de ele assinalar que, para o goiano do interior, o vilaboense se sentia um “heleno entre bárbaros”.

Vale registrar que a emenda apresentada pela oposição durante a Constituinte de 1935, ao contrário do citado projeto de lei nº 1 de 1936, tinha um caráter procrastinatório e sem data precisa (“sine die”), porquanto condicionava a mudança da capital à chegada do trem de ferro nos contrafortes da Serra Dourada. Assim, os projetos legislativos de 1935 e 1936 são bastante diferentes.

Resta registrar que o Estado de Goiás tocou praticamente sozinho o projeto mudancista, tendo pequena ajuda financeira do governo federal — e mesmo assim com contrapartidas.

Sob Ludovico, Goiás não era uma ilha democrática

Getúlio Vargas e Pedro Ludovico: projeto autoritário | Foto: Reprodução

Pedro Ludovico Teixeira ampliou o seu capital político e entrou para a galeria histórica dos políticos construtores de cidades, que inclui nomes de Pedro, o Grande, George Washington, Juscelino Kubitschek, dentre outros. O sr. considera que, tendo em vista as estratégias autoritárias utilizadas na transferência da capital goiana, não seria o momento de revisar o papel de Ludovico?

A revisão da História é uma constante. Aliás, a História nunca é, sempre está sendo. O intérprete do passado deve examinar os acontecimentos com a percepção de que os personagens são seres humanos, detentores de virtudes e defeitos. A mitificação ou a heroificação de atores políticos só atrapalha. Mais: o período posterior à chamada Intentona Comunista de novembro de 1935 significou um dos períodos mais autoritários da República brasileira e, nessa conjuntura, Goiás definitivamente não era uma “ilha democrática” num oceano centralizador.

O filósofo alemão Walter Benjamin (1892-1940), em suas teses sobre o conceito de História, afirmou que os “monumentos da cultura não são isentos da barbárie”. Recentemente, surgiram várias manifestações contestando monumentos públicos que expressavam preconceitos ou uma visão autoritária de mundo. O monumento do Anhanguera, em Goiânia, inegavelmente um artefato muito importante da cultura goiana, expressa também a barbárie existente na época dos bandeirantes. O que fazer com esse monumento?

Damiana da Cunha: reprodução

O professor Nasr Chaul, doutor em História pela USP, escreveu na “orelha” do meu livro “A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança” (UFG) que tudo na vida tem dois lados. Assim, a lembrança do bandeirante Anhanguera merece ser conjugada com a memória dos índios. Desse modo, ao preservar o monumento do Anhanguera, poderíamos igualmente reverenciar os povos indígenas com a edificação de uma outra estátua, de idêntica dimensão e na frente daquela. Sugeri inclusive a imagem de Damiana da Cunha para tal fim.

Instituto Histórico e mídias sociais

Os Institutos Históricos e Geográficos foram durante praticamente todo o século 19 e parte do 20 os principais responsáveis por difundir o conhecimento histórico e geográfico no Brasil. Contudo, com o advento das universidades, os programas de pós-graduação passaram a ser os principais centros produtores de conhecimento em ciências humanas. O sr. convive nos dois mundos: é presidente de uma instituição tradicional e possui um título de doutorado numa universidade reconhecida nacionalmente. Isso facilitaria o trabalho e modernizar e dar mais visibilidade ao IHGG?

O estreitamente de relações entre o IHGG e as instituições de ensino superior é quase um imperativo nesse momento. Tal aproximação com os centros universitários possibilitará a nossa atualização sobre os debates contemporâneos travados nas academias, além de ocasionar a troca de experiências e compartilhamento de fontes.

Em seu discurso de posse, o sr. destacou que pretende usar as novas mídias sociais como ferramenta de difusão das atividades do IHGG. Como será isso?

As mídias sociais hoje em dia são uma ferramenta indispensável a qualquer pessoa física ou jurídica. A pandemia fortaleceu ainda mais tal tendência. Penso em aprofundar a participação do IHGG nas redes sociais e criar em nossa página na internet uma hemeroteca digital, onde serão disponibilizados à sociedade periódicos não encontrados na Biblioteca Nacional.

Como tem se desenhado o relacionamento institucional entre o IHGG e o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o IHGB? O senhor possui algum plano neste sentido?

Pretendo fazer uma visita ao IHGB assim que passar a pandemia.  Então, conheceremos as possibilidades que essa aproximação ocasionará. Tenho como objetivo igualmente o fomento de laços entre os diversos Institutos Históricos e Geográficos dos Estados, quiçá com a criação de uma associação nacional para tal finalidade.

O ano de 2022 é muito importante para a simbologia da memória nacional e goiana, pois se comemora o bicentenário da Independência do Brasil, e o tricentenário da bandeira do Anhanguera, o marco inicial da colonização de Goiás. O IHGG tem alguma programação para esses eventos?

Essas duas datas não serão esquecidas, sobretudo os 300 anos da chegada da bandeira anhaguerina ao território goiano. Além delas, igualmente buscaremos reverenciar os 100 anos da Semana de Arte Moderna e os 90 anos do IHGG, entregando à comunidade, se Deus quiser, a restauração de nossa sede original, que certamente transformar-se-á em um importante cartão de visita de Goiânia.

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