Dois cineastas e um caipira

Fundadores da produtora Gigante Filmes, os cineastas Hugo Caiapônia e Aroldo de Andrade Filho falam sobre a série de filmes do personagem Imbilino, espécie de Mazzaropi do Cerrado e fenômeno popular da produção audiovisual goiana

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Arnaldo Salustiano e Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

O caipira Imbilino é o maior fenômeno popular da atual safra da produção audiovisual goiana. Talvez seja o maior de todos os tempos. O personagem é criação de Hugo Caiapônia, nome artístico de Hugo Batista da Luz, que ao receber a visita do primo Aroldo de Andrade Filho, dono de certa experiência como auxiliar de câmera, manifestou seu desejo de fazer um filme, e lhe perguntou se poderia ajudá-lo. O primo aceitou e, dessa forma improvisada, nasceram dois cineastas. Juntos fundaram a produtora Gigante Filmes.

O primeiro longa-metragem, de 2005, “Meu Rádio, Minha Vida”, feito com poucos recursos, equipamento simples, pouca técnica de captação e edição de imagens e som, elenco de atores amadores, composto por amigos da comunidade, caiu no gosto popular. Primeiro entre os amigos da cidade de Caiapônia e Palestina de Goiás e depois por todo Estado de Goiás. Por aclamação veio uma segunda produção, “A Lua e o Dente”, de 2006, seguido de “Arrependida”, em 2009 e “O Galo e a Mega da Virada: Uma Comédia Caipira”, de 2011.

Em 2008, se inscreveram na Mostra do Filme Livre do Rio de Janeiro. Entre os mais de 600 inscritos obtiveram a décima terceira colocação. Em 2011, Hugo Caiapônia foi homenageado no Festival de Humor de Fortaleza, sendo aclamado como “o Mazzaropi de Goiás” no Teatro Chico Anysio. Recebeu por isso uma homenagem de Marconi Perillo, o Governador de Goiás, que lhe entregou o prêmio de Destaque Cultural do ano de 2012. Em Goiânia foi realizado no Cine Ouro uma mostra de sua produção cinematográfica. Fenômeno de vendas em bancas de camelô, Hugo Caiapônia e Aroldo de Andrade Filho comercializam seus filmes originais em pontos de venda oficiais, nas exibições públicas e pela internet. Com milhares de seguidores em redes sociais, atualmente, a dupla está lançando o quinto trabalho, “Bicho de Pé”, e se preparam para produzir o sexto.

Os encontramos na abertura do IV Semana do audiovisual da UEG em Goiânia, no qual foram convidados para palestrarem sobre sua experiência com cinema. O resultado da conversa é essa entrevista.

Arnaldo Salustiano — O que inspirou o sr. na criação de Imbilino? Por que um caipira?
Hugo Caiapônia — Percebi que havia uma vaga deixada pelo famoso personagem caipira Mazzaropi. O pessoal falando que nunca mais vai ter outro Mazzaropi. Pensei: vamos fazer um caipira. Porque eu vivi na fazenda, eu sempre convivi com os caipiras, com as pessoas mais simples da fazenda. Procurei fazer um caipira digno, sem roupa rasgado. Quando se fala em caipira a pessoa acha que tem que rasgar a roupa, pintar os dentes de preto, fazer como se estivesse sem dente, e não é assim. Caipira é aquela pessoa simples da fazenda.

Arnaldo Salustiano — A cultura caipira está historicamente relacionada a formação do povo goiano. Hoje, apesar de toda modernização da sociedade, você acha que o goiano ainda é caipira?
Hugo Caiapônia — Todos os brasileiros, de um modo geral, são caipiras. O Brasil é um país caipira. A pessoa quando vê um filme do Imbilino diz “lembrei do meu avô, meu pai era assim”. Identifica-se. Eu nasci na cidade e fui criado na fazenda. Eu procurava andar do mesmo jeito que os peões e os agregados. Eu achava bonito aquele “andadão”. Então, eu chegava até a rua e o pessoal perguntava: “mas que andar de caipira é esse?”. E eu me endireitava. Quando criei o Imbilino, peguei um chapéu que eu ganhei de um amigo. Um chapéu feio demais, que eu usei no primeiro filme “Meu Rádio, Minha Vida”. Coloquei uma camisa que estava pequena para mim, passei uma tinta no bigode, criei uns trejeitos, mordi a língua. Foi questão de minutos. Ainda não tinha criado a voz. Vinha vindo um senhor, que tinha o apelido de Beijo. Ele morava do lado de baixo da minha casa, na outra rua, e eu perguntei: “escuta, onde mora o Hugo?”, e ele: “é aqui neste prédio”, “pra cá?”, perguntei. Ele não me reconheceu. Eu insisti: “pra cá? Como é que sobe aí?”, e o Beijo: “é lá naquela escada, vamos lá”. Ele agarrou no meu braço me levou lá na escada. Então, eu pensei: vai funcionar. Já cheguei com a voz do Imbilino lá em cima.

Arnaldo Salustiano — A impressão que se tem assistindo aos filmes, é que o Imbilino é um personagem bastante elaborado, pois ele não se transformou no decorrer dos filmes.
Hugo Caiapônia — Não. A gente vai fazendo um trabalho aqui, e já vai pensando lá na frente, como um carro. Você pode observar, a indústria faz o carro já com lugares pra colocar opcionais. Então tudo já foi organizado, tudo já foi planejado.

Arnaldo Salustiano — O Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, trazia consigo muitas representações negativas do caipira, algumas delas foram reproduzidas por Mazzaropi, que, por sua vez, deu origem a toda uma geração de personagens caipiras. O sr. costuma ser chamado de Mazzaropi do cerrado. O Imbilino seria só mais um Jeca? Senão, o que o diferencia?
Hugo Caiapônia — Eu acho que ele é diferente dos outros caipiras. O Mazzaropi às vezes interpretava um fazendeiro, outras um roceiro. O Mazzaropi tinha seu nome, Amácio Mazzaropi, e nos filmes ele usava diferentes nomes para diferentes personagens. O Imbilino não, sempre é o Imbilino, aquele caipira simplesinho. Mas sempre limpinho, a roupinha arrumadinha.

Ademir Luiz — O sr. considera o personagem Imbilino um representante da resistência do caipira ao avanço da modernidade?
Hugo Caiapônia — Sim, porque muitos jovens gostam, mas tem resistência. Tiveram que criar o sertanejo universitário para os jovens gostarem. Com o Imbilino é a mesma coisa. Os jovens estão levando ele para o lado do caipira moderno. No cinema de Rio Verde, passaram “Arrependida” ao lado de “Lua Nova”, da Saga Crepúsculo. Chegou um casalzinho de namorados, todo cheio de brincos, e a menina fala: “Aí o Imbilino! Minha mãe adora ele, meu pai também. Virei assistir, se você não vier comigo eu venho com minha mãe”. O namorado perguntou “mas como é isso?”. Ela explicou. Eu estava no balcão do lado, conversando com um diretor de cinema da região. Em Rio Verde tem aquela história de que quem gosta do Imbilino são pessoas mais simples. Elas compram os filmes nos camelôs. Em toda escola da periferia que eu entrava e perguntava “quem já viu o Imbi­lino?”, a meninada gritava. Só cinco ou seis que não tinham visto. Na escola dos ricos era o contrário, cinco já tinham visto. Aí eu entrava e dizia: “olha gente, eu sou o Hugo Caiapônia que faz o Imbilino e os cinco ficavam espantados. ‘nossa! É você mesmo?’, e o professor: ‘rapaz, eu sou seu fã’”. Do mesmo jeito nas outras salas. No outro ano eu voltei e foi diferente. A maioria viu. Aqueles cinco primeiros foram quebrando a resistência.

Cultural_1885.qxdArnaldo Salustiano — O sr. acha que o caipira é incompatível com a cidade?
Aroldo de Andrade Filho — Eu não vejo assim, não é que não dê certo. Mesmo nos tempos mais antigos o caipira sempre precisou da cidade. Ele vive no mundo dele, o mundo caipira, mas ele vai à cidade, ele visita a modernidade. E hoje em dia, com tanta tecnologia, com tanto avanço que nós temos, mais ainda.
Hugo Caiapônia — Pegue um jovem aqui da cidade que nunca foi numa fazenda. O mosquito só pega ele, os marimbondos só pegam ele, a vaca vem em cima só dele. É a mesma coisa com o caipira. O Imbilino na cidade, não dá sorte.

Arnaldo Salustiano — Nos filmes do Imbilino a paisagem rural aparece de uma forma muito intensa, de forma prolongada. Isso é feito casualmente ou é proposital? Existe alguma intenção?
Aroldo de Andrade Filho — Uma coisa Hugo e eu temos em comum: nós gostamos muito do universo caipira. Eu gosto dessa tradição que está sendo esquecida. Quando o Hugo me chamou para fazer os filmes, a primeira coisa que veio foi que vivemos em um lugar que é um reduto. Então, as paisagens, os cenários, estão lá de propósito, para mostrar que ainda existe um pouco do sertão, que o caipira existe e ainda vive nesses lugares.

Ademir Luiz — Em alguns momentos nos filmes do Imbilino, o personagem é salvo por intervenção divina. Essas soluções místicas indicam o desejo de impor alguma moral à história?
Aroldo de Andrade Filho — Eu não sei o que seria essa moral da história, mas no filme isso representa que o Imbilino, como qualquer outro no sertão, tem a sua crença, sua fé. O caipira, talvez muito mais que os próprios católicos urbanos, que os cristãos de hoje, possuem muita fé. Muitos caipiras acreditavam que veem santos e anjos. Essa crença faz parte do personagem.

Ademir Luiz — Como é o processo de produção do roteiro dos filmes. Quando começam as filmagem o texto está todo acabado ou há espaço para improvisações?
Hugo Caiapônia — O argumento sou eu que escrevo. Eu crio a história e depois passo para o Aroldo criar o roteiro.
Aroldo de Andrade Filho — Às vezes eu não chego nem a terminar o roteiro. Só explico para os atores a situação. Uma cena entre o Imbilino e seu amigo Juca, por exemplo. Eles já sabem mais ou menos o que precisam falar e interpretam meio no improviso. Mas em nosso próximo filme, por exemplo, por problemas técnicos, eu já venho falando com o Hugo que nós vamos ter que dar um jeito nestas falas. Porque tem horas que a gente se perde. Então, agora nós vamos ter as falas mais direcionadas.
Hugo Caiapônia — É, mas assim, dando liberdade para os atores.

Ademir Luiz — Tecnicamente os filmes do Imbilino são muito simples. Como o sr. interpreta o sucesso popular? Considerando que a maioria do público atualmente valoriza os filmes de grande orçamento e efeitos especiais?
Aroldo de Andrade Filho — O espectador se identifica com o Imbilino. Ele não é um super-herói, ele não é um fantasma. Ele é ele mesmo, na sua ingenuidade, na sua expressão.
Hugo Caiapônia — Não tem nada exagerado. A maioria das mocinhas que vão ao cinema querem ver efeitos especiais, ouvir o som, porque no cinema o som é super agradável. Vão também porque os pais não as deixam sair para namorar, mas no cinema eles deixam ir. Lá é um ponto de encontro. Mas para quem gosta dos filmes do Mazzaropi, por exemplo, não tem opções. O cinema não dá espaço, porque no shopping só vai garotada. O exibidor financia por 600 mil uma máquina de passar 3D. Acha que tem como enfiar um filme do Imbilino na programação? Não. Eles precisam pagar aquela máquina.
Aroldo de Andrade Filho — É o que venho comentando com o Hugo, o público não vai hoje ao cinema porque ficou uma coisa elitizada. O cinema hoje é em shopping. O cara que ganha um salário mínimo, não quero dizer que ele não vá, mas ele tem a mulher, tem os filhos, ele tem até vontade de ir, mas como é que ele vai? Esse público excluído, geralmente, é o nosso.

Ademir Luiz — Boa parte do elenco dos filmes é formada por não-atores, pessoas da comunidade, como é feita a seleção dessas pessoas? A aparência interfere? O jeito de falar? Vocês buscam pessoas com talento nato para atuar?
Hugo Caiapônia — Quem escolhe sou eu. Se o roteiro pede um caminhoneiro, pego um com aquele perfil. Você conhece a cidade inteira, então já pega aquela pessoa que não tem que se aprontar para ser assim, ele já é. Então tem o caminhoneiro que é realmente um caminhoneiro, tem a dona de casa que é mesmo dona de casa. A gente tem essa facilidade, pois conhecemos todo mundo.

Arnaldo Salustiano — Eles atuam voluntariamente ou são remunerados?
Hugo Caiapônia — Alguns a gente pagava por dia. No próximo filme, que vamos ter recursos da Lei Goyazes, vai ter pagamento.

Ademir Luiz — Entre filmagem e edição, qual o tempo médio de produção dos filmes?
Aroldo de Andrade Filho — Entre quatro e seis meses. Mas já teve filmes que levou um ano. O “Arrependida” é um exemplo.
Hugo Caiapônia — Quase um ano, por falta de recursos.

Ademir Luiz — O sr. se considera um cinéfilo, ou somente um profissional de cinema, alguém que transformou a sétima arte em um modo de vida?
Aroldo de Andrade Filho — Eu me considero um cinéfilo. Raramente eu passo um dia sem ver um filme. Até para me atualizar, para melhorar os filmes que faço, dar mais qualidade. Mas gosto de filmes que tenham conteúdo, não é qualquer filme. Gosto de ver o filme na sua essência, a arte do cinema. Tenho preferência por filmes de Stanley Kubrick, Spielberg, George Lucas. O Fernando Meireles é um ótimo cineasta. O que fez “Tropa de Elite”, José Padilha, também. São diretores de filmes que marcam, que tem conteúdo.
Hugo Caiapônia — Ele raramente passa um dia sem ver e eu raramente vejo um filme. Eu só vejo filmes sobre fatos reais, documentários. Não gosto de coisas exageradas, com muitos efeitos especiais. Comecei a ver aqueles filmes de bang-bang antigos e comecei a pegar algum gosto. Mas eu sinto prazer mesmo é em fazer e ver o resultado de meus filmes.

Ademir Luiz — O sr. utiliza algum tipo de recurso público para viabilizar seus projetos?
Aroldo de Andrade Filho — Este é o primeiro filme em que estamos tendo apoio de verba pública, este que nós vamos começar a fazer agora, o sexto filme.

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