Do sagrado ao ultrarrealismo: as semelhanças de Pirandello e Bernardo Élis

Em textos distintos, mas de nome próximo (“A Enxada!” e “A Enxada”), os escritores narram a lida com a terra e o desumano

Na história do italiano Luigi Pirandello, o protagonista Siróli vive em meio à metafórica doença da malária, que mata seus filhos, e tem um apego demasiado às coisas sagradas. A obra chegou ao Brasil em 1963 | Adám Vicent

Na história do italiano Luigi Pirandello, o protagonista Siróli vive em meio à metafórica doença da malária, que mata seus filhos, e tem um apego demasiado às coisas sagradas. A obra chegou ao Brasil em 1963 | Adám Vicent

Valdivino Braz
Especial para o Jornal Opção

Curiosidades da literatura. Há ertos aspectos que a crítica abalizada, se os percebe, não comenta, por certo que para não melindrar, temerariamente, suscetibilidades. Fico à espera. Longe de ser crítico literário, certamente não serei marco divisor de águas ou novo paradigma nesta área, conquanto professar (e aqui sem generalizar) um modo menos confrade (interpares) por parte da crítica doméstica.

Posso? Dá-me, então, que eu trace paralelos de leitura, e não se afoitem com a pecha de ectoplasma ou de caça-fantasmas, como acusou-me aí, via Facebook, uma certa figura fantasmagórica. E vamos lá (aos “fantasmas”, já que envolve pessoas falecidas). Uma edição de “O Velório e Outras Novelas” (“Novelle per un anno”, em italiano), de Luigi Pirandello, foi publicada no Brasil, em 1963, pela Livraria Martins Editora, de São Paulo. Uma das novelas deste livro intitula-se “A Enxada!” (a saber por que este ponto de exclamação). Três anos depois, em 1966, publicava-se, pela José Olympio, uma coletânea de contos intitulada “Veranico de Janeiro”, de Bernardo Élis, e ali também um conto intitulado “A Enxada” (sem o exclamativo pirandelliano). Os mesmos títulos, mas não o mesmo rumo temático ou pano de fundo em ambos os contos — e não que seja plágio, diga-se logo, antes que se afoite indigesto falatório de provinciana confraria.

Já numa visão um tanto reducionista, a escritora norte-americana Willa Cather (1873-1947) dizia que “existem apenas duas ou três histórias humanas, e elas vão-se repetindo sem parar, teimosas, como se nunca tivessem acontecido antes”. Todavia, outras vias se aviam por desvãos e desvios pelos quais não passam (evitam passar) os doutos da crítica, a mais das vezes escorados em citações de teorias alheias. Não passarão. Não ousarão atravessar este maldito Rubicon, as águas turvas e turbulentas das similitudes literárias.

Ao passo que Pirandello narra uma história de fundo religioso, princípios morais e apego às coisas sagradas (e tudo a par com a dura lida camponesa), Bernardo Élis, até com uma pitada de escrita fabulosa, algo ultrarrealista e paralela com as relações de trabalho (texto e corpo), dramatiza uma situação de rebaixamento racial, contextualizada num arcaico e desumano sistema agrário.

De passagem, em Pirandello, a metafórica doença da malária, infestando os campos e ceifando vidas. A história se inicia com um camponês de nome Siróli, e três dos filhos que ainda lhe restam, em labuta com a terra e a lavoura. Três outros filhos dele já haviam morrido por conta da malária que infestava os campos em tempo de estio, e Siróli, “cego a tal ponto em sua fé, conformava-se com as mais duras adversidades, aceitando-as como vontade de Deus”.

Mesmo por isso outro filho fora “doado” a Deus, enviado ao seminário, onde se fez sacerdote para orgulho da família, principalmente do pobre pai, que não cabia em si de contentamento.
Ocorre que, para desgraça paterna, o jovem sacerdote vem a cometer “torpe delito contra os pobres meninos confiados ao seu cuidado no orfanato”. Pedofilia de batina, ontem e ainda hoje. A carne, a matéria, a mísera humana condição da qual somos feitos. Animais, o gado de Deus. Ao fim, indignado com os arranjos do patrão e até do bispo para que o caso fosse abafado e esquecido, Siróli obriga o filho a despir-se da batina, pegar uma enxada e carpir a terra com os irmãos. Em seguida, o pai escova e dobra cuidadosamente a batina, guardando-a na velha arca em que já estavam as roupas de três filhos mortos pela malária, e faz o sinal da cruz sobre a vestimenta. Então, “fechou outra vez a arca, sentou-se-lhe em cima, ocultou o rosto com as mãos e prorrompeu num pranto torrencial”. É assim o desfecho da narrativa.

Já no conto “A Enxada” de Bernardo Élis, um narrador onisciente foca a narração no personagem Salustiano, ou apenas Piano, um negro “feio, sujo e maltrapilho”, perseguido, atazanado pelo patrão (“Negro à toa, não vale a dívida e ainda está querendo que eu te dê enxada? Hum, tem muita graça!”) e espancado pela polícia, humilhado e ofendido (Dos­toiévski) até as últimas consequências da perda de sua dignidade. Piano e sua mulher, Olaia, e o filho deles, “bobo, babento, cabeludo e comparado a um porco. Diziam que fuçava na lama tal e qual um porco dos mais atentados. Capaz que fosse verdade, porque a fungação e o modo de olhar era ver um porco, sem tirar nem pôr.” O filho servia de cavalo para a mãe Olaia, entrevada das pernas.

Em Bernardo Élis, o “feio, sujo e maltrapilho” protagonista Salustiano retrata a baixa extração da sociedade e demonstra a falta de humanidade de seus ofensores

Em Bernardo Élis, o “feio, sujo e maltrapilho” protagonista Salustiano retrata a baixa extração da sociedade e demonstra a falta de humanidade de seus ofensores

Algo também ao jeito de Dostoiévski (“Humilhados e Ofendidos” e “Pobre Gente”, por exemplo), Bernardo Élis retrata personagens de baixa extração na sociedade, oprimidos, humilhados por conta de sua condição econômica e social, e por falta de humanidade de seus ofensores.

Enquanto isso, Pirandello traz como protagonista o “velho Siróli” (e sua mulher e seus filhos), Bernardo vem com o também velho Supriano (e Olaia e o filho), a notar, de início, a mesma consoante (S) inicial e nominal de ambos os protagonistas. E os mesmos elementos, húmus componentes das narrativas: pobres camponeses, terras tocadas a meias, cavar a terra, lavouras, noite chuvosa/temporal, premência e esperança: “Amanhã, se Deus quiser, cavaremos a terra.” (Pirandello); “Ah, que com ajuda de Santa Luzia… em ante do meio-dia, Deus adjutorando…” (Bernardo Élis).

Siróli e Supriano, em seus dilemas, sem poder conciliar o sono; Piano até meio que dorme, tem pesadelo, como tem, acordado, suas alucinações. Ele precisa, desesperadamente, de uma enxada, a fim de cavar a terra e, dentro de curto prazo, plantar arroz para o cruel capitão Elpídio, mas não consegue a tal enxada. E aqui a denúncia do arcaico sistema agrário, que implica todo um contexto histórico a interpretar-se a fundo (tarefa para os doutos, não para mim), já enfatizada pelo contista a desumana exploração da força de trabalho (as mãos destroçadas e ensanguentadas de Piano, fazendo as vezes duma enxada, e também um galho de pau que, para ele, em estado de alucinação, configura a forma da impossível ferramenta).

Em sua narrativa, Bernardo recorta os abomináveis racismo e trabalho escravo, ainda hoje arraigados em terras brasis.

Atentando-se para alguns trechos, lê-se em Pirandello:

“O velho Siróli já fazia mais de um mês que parecia apalermado pela desgraça que o atingira e não conseguia mais conciliar o sono. Naquela noite, ao violento desabar da chuva, finalmente se reanimara e dissera à mulher, também insone e opressa:

— Amanhã, se Deus quiser, cavaremos a terra.

Agora, desde o amanhecer, os três filhos do velho, consumidos e amarelecidos pela malária, carpiam em fileira, com outros dois camponeses contratados. De quando em quando, ora um ora outro endireitava-se, contraindo o rosto pelo espasmo dos rins e enxugava os olhos com o rústico lenço de algodão:

— Coragem! — Diziam os dois campônios. Não é caso de morte, afinal.

Mas o velho sacudia a cabeça; depois cuspia nas mãos calosas e cheias de terra e recomeçava a cavar.” (…) Fazia cerca de quarenta anos que Siróli tinha a meias estas terras de Santana.”

E lê-se em Bernardo Élis:

“Obra de cinco anos, Piano pegou um empreito de quintal de café com o delegado. (…) No fritar dos ovos, acabou Piano entregue a Elpídio, pelo delegado, para pagamento da dívida” que ele (o delegado), por sua vez, tinha com o capitão Elpídio. Daí o drama da enxada que Piano não possuía e nem conseguia, e as humilhações e ameaças de Elpídio. Dois soldados sempre em perseguição de Piano, a mando do delegado, no sentido de garantir o pagamento de sua própria dívida àquele outro. A narrativa se estende e, para o fim, “Piano já havia plantado o terreno baixo das margens do corgo, e agora estava plantando a encosta, onde o chão era mais duro. O camarada tacava os cotos sangrentos de mão na terra, fazia um buraco com um pedaço de pau, depunha dentro algumas sementes de arroz, tampava logo com os pés e principiava nova cova. (…) Os soldados aproximaram-se mais para se certificarem se aquele era mesmo o negro Supriano. Tão esquisito! Que diabo seria aquilo?”.

— “Óia, ô! Pode dizer pra seu Elpídio que tá no finzinho, viu? Ah, que com ajuda de Santa Luzia… — E com fúria agora tafulhava o toco de mão no chão molhado, desimportando de rasgar as carnes e partir os ossos do punho, o toco de graveto virando bagaço…: — Em antes do meio-dia, Deus adjutorando…”.

Neste ponto, um dos soldados, diante daquela cena desumana, sente-se mal e vomita, sendo acudido pelo colega. Em seguida, os dois confabulam e decidem matar logo o infeliz Piano. “Aí o soldado abriu a túnica, tirou de debaixo um bentinho sujo de baeta vermelha, beijou, fez o pelo-sinal, manobrou o fuzil, levou o bruto à cara no rumo do camarada (…) o baque de um tiro sacudiu o frio da manhã. (…) No rancho, cuidando que foi baque de porteira, Olaia fez o sinal-da-cruz e gungunou dente no dente: Nossa Senhora da Guia que te guie, meu irmão.” Deste ponto em diante, a narrativa sofre repentina mudança de foco, implicando complexas interpretações críticas.

Algumas similitudes, sim, entre as duas narrativas, sem que isso desabone o talento do escritor (qual seja ele) e sua capacidade criativa. Similitude é sinônimo de semelhança, e não de plágio. E quem há de negar similitudes em literatura? A simples menção dessa curiosa palavra (similitudes) não cause pavor e calafrios no campo da literatura em Goiás. Alguma semelhança, ressonância ou mesmo influência ocorrem até involuntariamente ou sob “traição” do subconsciente, senão quando realmente se trate de plágio descarado. Nem vou aqui delongar-me sobre os contos em questão. As doutas sapiências emparelhem as duas enxadas (digo, os dois contos) e vejam. Atravessem o Rubicon. Certo, dirão não ser este o papel da crítica, enxerir-se com espinhos (sentido figurado para certas curiosidades literárias), passíveis de provocar melindres de algum escritor. E aqui mudando de assunto, passemos a umas lembranças que guardo de Bernardo Élis.

O conto de Pirandello foi publicado em 1963 no Brasil. O texto de Bernardo Élis está presente na coletânea “Veranico de Janeiro”, de 1966

O conto de Pirandello foi publicado em 1963 no Brasil. O texto de Bernardo Élis está presente na coletânea “Veranico de Janeiro”, de 1966

Ermos e gerais

Ainda em 1983, conquistei minha primeira menção honrosa com um livro de poemas, “A palavra por Desígnio”, no I Concurso Nacional de Poesia Estância Itanhangá, promovido pelo então proprietário da Estância e também poeta Ciro Palmerston. Daí, custeei modesta edição do livro, em pequeno formato, e lá fui eu, lambendo minha cria (o livreto), até a domingueira barraca cultural do livreiro Paulo Araújo, naquela dita Feira Hippie, próximo ao coreto da Praça Cívica. Eu ali, de pé junto à banca expositora e diante do meu livro, eis que chegava o emérito Bernardo Élis.

Chegou e se deteve diante da banca, cumprimentou a outros e a mim, do que aproveitei para apontar a ele o meu modesto livreto e timidamente dizer: “Estamos chegando com o nosso livrinho”. Ele então pegou um exemplar e, numa ligeira vista d´olhos pela capa, sequer o folheou; largou-o no monte, dizendo apenas isto: “É… Tá bom.” Mais não disse, nem lhe foi perguntado. E se dirigiu a palrear com escritores veteranos, que se encontravam presentes, entre eles Carmo Bernardes. Confesso que, tímido e estranho no ninho, algo constrangido, e ali pelos “ermos e gerais” de escritor aprendiz que eu era (e ainda sou), me senti minúsculo, do tamaninho do meu livreto.

Noutra ocasião, ao ler um livro de Henry Miller, deparei-me com a forma oblíqua de pronome pessoal, “entre mim e ele”, em face do que, traído pelo equívoco, e falto de uma prévia checagem na regra gramatical (de “língua culta”), redigi artigo, publicado por um jornal diário goiano, afirmando que Miller estava errado e que o certo seria dizer/escrever “entre eu e ele”.

Que furada, a minha! Pagando mico por conta de uma preposição (“entre”). Mestre Bernardo logo publicou formal, educado e esclarecedor artigo, apontando o engano, não de Henry Miller, mas “do senhor Valdivino Braz”. Repliquei com um novo artigo, intitulado “Bate, Bernardo!”, reconhecendo o meu lamentável cochilo e agradecendo ao mestre pela correção.

Ao fim, de forma brincalhona (para não me dizer constrangido), eu dizia: “Não que eu goste, mas bate, Bernardo!”. Infelizmente, o mesmo diário local, desta vez, não publicou minha réplica. Guardo a página de jornal com a oportuna correção de Bernardo e preservo também minha réplica não publicada para, quem sabe, inseri-las (ambas) num futuro livro de artigos.

Valdivino Braz é jornalista e escritor.

3 respostas para “Do sagrado ao ultrarrealismo: as semelhanças de Pirandello e Bernardo Élis”

  1. José Fraga disse:

    Excelente, Valdivino Braz! Lobo Antunes diz que o escritor vive, via de regra, a escrever sempre o mesmo livro, com roupagens diversas, na busca desesperada de escrever uma obra-prima…

  2. José Fraga disse:

    Saudade do Paulo Araújo, combatente quixotesco da literatura nesta terra goyá…

  3. Não que eu goste, mas bate, Braz!

    Falando sério: eis um artigo só possível ao Leitor, sim com inicial maiúscula.

    O crítico acadêmico por mais que se esforce não terá jamais a humildade sagaz de confessar suas (dele, crítico) limitações. Haverá de sempre usar uma muleta, por menor que seja para dizer que há “intertextualidade” ou que na gênese crítica dos contos etc. etc. Nem por isso deixará de ser apreciado.

    Enquanto isso, o leitor que se expõe como crítico – este sim, corre o risco de não ser entendido ou pior: de ser mal-entendido e de que lhe tomem por acusar de plágio o que é diálogo entre obras.

    O de que mais gosto neste artigo não é relembrar – como fiz recentemente – a propósito d’outro “De pedras e de hóstias…”

    http://www.jornalopcao.com.br/opcao-cultural/de-pedras-e-de-hostias-conexoes-entre-prosa-da-sueca-camilla-lackberg-e-da-goiana-clara-dawn-48646/

    Da leitura “das pedras” que sei não atiradas a ninguém (tampouco em ninguém!), repito o que disse: “restam as observações sempre clarividentes do poeta-anti-crítico diverte o leitor – ou pelo menos este que redige este comentário.”

    Como leitor (e colaborador) deste semanário, fico feliz de ler artigos assim.
    Abraços,
    Beto.

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