Do Grunge ao Massacre de Columbine: um ácido acidente musical

Jornalista Henrique Morgantini lança seu primeiro romance. Trata-se uma história cosmopolita

Iúri Rincon Godinho,

Especial para o Jornal Opção

Marcos Dias é jovem, goiano e bobo. Mais um sujeito perdido no interior do Brasil no fim da década perdida. Até que uma fita cassete com Kurt Cobain, Melvins, Mudhoney e toda a turma do obscuro selo Subpop, lhe sacudiu, num chamamento para algo maior, que ninguém — nem mesmo o líder do Nirvana — sabia o que era.

A bem da verdade, Kurt e uma tal Sandra. “Pra descer todo santo ajuda e o diabo ainda te mete o pé na bunda”, dizia sua mãe. E nada como um coração partido para fazer o diabo parecer um bom amigo estendendo a mão.

Marcos Dias, então, se rebatiza: vira Mark Days, se aventurando como mais um imigrante pela Califórnia dos anos 1990, atrás de um sonho musical e de uma fuga para um coração dilacerado, construindo uma trajetória que, por acidente, cruza-se com alguns dos grandes acontecimentos da cena do Rock daquela década.

Henrique Morgantini: jornalista e escritor

Nesta caminhada torta, vira vagabundo, assistente de estúdio, roadie do Pavement, faz-tudo em mil empregos até fazer o que todo jovem sonhava em fazer depois de ouvir “Nevermind”: montar uma banda.

“Coma Branco — Memórias de um Guitarrista Acidental” retrata que nem sempre conquistas são frutos de sonhos iluminados, que trajetórias notáveis muitas vezes são forjadas na agonia da fuga de si mesmo. Marilyn Manson, Kurt Cobain, ambos próximos na história de Mark Days, que o digam. “Ostra feliz não faz pérola”, dizia Rubem Alves. E gente sem agonia e angústia não pinta quadros, escreve livros ou compõe músicas.

“O amor é uma forma de violência”, explica Sabrina, uma espécie de fio condutor de emoções, drogas e músicos da Los Angeles dos anos 1990. Viciada em poetas vivos, é ela quem abre grande parte das portas da percepção de Mark Days. Mas a visão nem sempre é para a praia de Malibu.

Henrique Morgantini nasceu no Rio de Janeiro em 1978. É jornalista, músico e poeta. Aos 12 anos ganhou um contrabaixo do pai. Montou uma banda instrumental com amigos, que recebeu destaque num jornal comunitário de Copacabana. Mudou-se para Goiás, onde se formou em Jornalismo pela Universidade Federal de Goiás. Trabalhou em jornais impressos, TVs e Rádios. Há 10 anos, tem um programa diário em uma emissora de rádio em Goiânia. Um dia foi músico. Nos outros todos quis ser um. Este é seu primeiro romance — mais cosmopolita, impossível — lançado pela Contato Comunicação.

Iúri Rincon Godinho, jornalista e escritor, é membro da Academia Goiana de Letras. Nas horas “vargas”, torce para o Vasco da Gama.

Trecho inicial do romance

“Impossível saber o que aconteceu primeiro: o chão se dissolver numa densa nuvem de madeira ou seu próprio coração pular para fora do peito.

O fato é que ali, flutuando em cima de uma fechada massa de poeira marrom e macia, também estava o seu próprio órgão. Não um coração biológico, humano, a válvula de átrios e ventrículos. Um coração de desenho de uma menininha de 10 anos, em forma de bunda e seta. Ainda assim era o seu coração. E havia saído de dentro dele.

As primeiras palpitações pareciam com o fim de uma corrida apostada com as crianças do fim da rua. Como um dia de sol. Quem chegar por último sempre vai ser a mulher do padre. Mas então, ao fim da aposta, ao contrário da tendência de diminuir, as palpitações aceleraram, como se estivessem sendo manipuladas, como se as mãos de Deus – o próprio Deus – estivessem espremendo o coração dentro do peito, cada vez mais e mais rápido. Até que, sim, houve-se esta certeza: era Deus quem apertava aquele coração, fazendo-o uma macia esponja de cozinha.”

Serviço

“Coma Branco” será lançado na quinta-feira, 12, na Biblioteca do Sesc Centro, em Goiânia, às 19 horas.

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