Do apartheid sulafricano ao racismo brasileiro

Exibição do filme “Todos os Mortos” na principal competição do Festival Internacional de Cinema de Berlim abre um grande debate no grande país mestiço que é o Brasil

Foto: Tânia Rego / ABr

Rui Martins
Especial para o Jornal Opção

A exibição do filme Todos os mortos na principal competição do Festival Internacional de Cinema de Berlim abre um grande debate no grande país mestiço que é o Brasil. Um debate sobre a escravidão de negros importados da África, que durou cerca de trezentos anos, e deveria ter terminado com a abolição, mas se transformou num racismo disfarçado, praticado pelos próprios descendentes de escravos branqueados nas últimas gerações.

O mito de um Brasil sem preconceitos durou um século, mas acabou. A eleição de Bolsonaro, no contrassenso das conquistas sociais, vai se transformando num marco e assinala um retorno ao pensamento reacionário do passado, numa espécie de realismo racial brasileiro, no qual não por coincidência os pobres e miseráveis são os descendentes de negros e indígenas.

Existe uma certa semelhança no contraste vivido pelo Brasil e a África do Sul pré-Mandela – enquanto a África do Sul praticava a segregação e o racismo de maneira violenta contra os negros, que viviam na sua própria terra, a sociedade brasileira branca dominante optou por um racismo e estigmatização soft, reservando para os ex-escravos uma participação dentro da sociedade nas atividades básicas, sempre mal pagas e pouco acima do estatuto original vivido pelos escravos.

André Brink e outros autores sul-africanos brancos denunciavam o escravagismo, o apartheid e as violências cometidas contra os negros. No Brasil, ao contrário, sempre se procurou enfatizar o mito de uma sociedade multirracial e igualitária, sem se revelar que, nessa sociedade aparentemente ideal, os negros sabiam qual era seu lugar.

Com esse pano de fundo, os cineastas Caetano Gotardo e Marco Dutra construíram o filme Todos os mortos, mostrando duas famílias – a dos Soares, possuidora de escravos até a abolição e obrigada a se ajustar à nova situação, e a Nascimento, que procura achar seu lugar nessa nova sociedade, embora nada ajude nesse sentido.

Todos os mortos não é o primeiro filme sobre a escravidão feito por cineastas brasileiros, mas o fato de ter sua estreia em Berlim, no Festival Internacional de Cinema, provocará no Brasil um exercício de autoanálise nas nossas arcaicas estruturas sociais.

Cinema brasileiro resiste

O governo atual quer acabar com o cinema brasileiro, mas o Festival de Berlim selecionou para a competição um filme típico dos títulos engajados do Cinema Novo, da época da ditadura militar: Todos os mortos. O filme é uma denúncia de que a escravidão dos negros ainda não terminou no Brasil.

Carlo Chatrian, o novo diretor artístico do festival, fez uma referência especial ao anunciar, em Berlim, o filme brasileiro Todos os mortos entre os dezoito selecionados para a principal competição. O filme trata das consequências da escravidão no Brasil, tema que não se enquadra na temática cultural atual do governo brasileiro. Na verdade, nunca houve abolição: a escravidão continua.

Essa escolha assinala o retorno do cinema brasileiro à Berlinale, onde já foram premiados com o Urso de Ouro os filmes Central do Brasil, de Walter Salles, e Tropa de elite, de José Padilha. Ao mesmo tempo, a participação brasileira em 2020, em Berlim, fará lembrar os anos do cinema brasileiro durante a ditadura militar, mesmo porque a Ancine está em pleno desmonte pelo governo Bolsonaro.

O Festival de Berlim, também conhecido como Berlinale, começará dia 20 de fevereiro e terá a entrega dos seus Ursos de Ouro e Prata no dia 29.

Carlo Chatrian era, até o ano passado, o diretor do Festival de Locarno, na Suíça, onde tanto o cinema brasileiro quanto os de Portugal e dos países africanos de língua portuguesa sempre tiveram destaque.

Embora o ex-diretor do festival de Berlim, Dieter Kosslick, não tivesse adotado o mesmo procedimento do Festival de Cannes com relação aos filmes da Netflix, Carlo Chatrian deixou claro, em Berlim, que nenhum dos filmes selecionados para a competição foi produzido para ser visto pela internet, nos serviços de streaming, mas para a exibição nas salas de cinema. Em outras palavras, filmes da Netflix não foram considerados para a principal competição da Berlinale.

Outros filmes brasileiros em Berlim

Além de Todos os mortos, o Festival Internacional de Cinema de Berlim mostra três filmes brasileiros selecionados para três mostras (Panorama, Geração e Forum Expanded): Cidade pássaroMeu Nome é Bagdá e Apiyemiyeki?.

Em estreia mundial está o filme brasileiro Cidade pássaro. Pouco ainda se sabe sobre essa obra de Matias Mariani. O enredo resumido, divulgado pela Berlinale, diz que conta a viagem do músico nigeriano Amadi a São Paulo, em busca do seu irmão mais velho, Ikenna, do qual estava há muito tempo sem notícias. O filme tem ares de uma exploração enigmática em múltiplos níveis.

A mostra Geração, centrada principalmente nos jovens e em suas buscas, revela a brasileira Caru Alves de Souza com seu filme Meu Nome é Bagdá, que tem como foco o mundo das skatistas em São Paulo e o machismo com preconceito que ainda continua a dominar suas relações. Mas Bagdá e suas companheiras enfrentam o desafio.

Enfim, Apiyemiyeki?, da artista visual Ana Vaz, na mostra Forum Expanded, assume um tema capaz de desagradar o governo, ao que parece interessado em desmontar a cultura indígena. O tema é o povo Waimiri-Atroari, obrigado a deixar suas terras em 1970 para a construção da estrada que ligou Manaus a Boa Vista.

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