A diversidade da América Latina nas telas do festival internacional Perro Loco

A edição faz uma homenagem à Universidade do Chile, a suas pesquisas, produções e ações de conservação cinematográfica e ao diretor goiano experimental Martin Muniz, cujo talento foi reconhecido há pouco tempo

Fotos: Reprodução

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Yago Rodrigues Alvim

Na vontade de valorizar a película goiana, os filmes locais, estudantes da Universidade Federal de Goiás (UFG) criaram uma mostra em 2006, que cresceu tanto a ponto de virar um festival internacional. Festival, pois há competição entre filmes inscritos. São produções latino-americanas, cuja característica abarca baixo orçamento, dificuldade de distribuição diante uma indústria cinematográfica forte, que domina as salas de cinema do continente. São produções autorais. Perro Loco é isso.

“Cachorro louco”, o nome, veio de uma expressão comum na América Latina, no mês de agosto, significando-o com a gana do povo latino em lutar e resistir às características do estrangeiro. Em 2006, efervesceram respostas ao neoliberalismo dos anos 90; crescia o neonacionalismo nos países latino-americanos. Apoiado por professores da universidade, os estudantes amadureceram a visão quanto ao conteúdo e expandiu a arte: cinema enquanto arte. Hoje, o festival vai além dos temas e aposta na forma, na capacidade do cinema em criar outros sentidos, maiores. Amplos.

Neste sentido, o organizador da mostra, Fausto Borges, conta que o festival se espraiou em paralelo ao que vivia a América Latina: “O Perro é fruto de um processo político horizontal, sem hierarquia, onde os próprios estudantes assumiam a responsabilidade por todas as etapas da produção, também estamos em processo de reformulação de discurso”. Ou seja, o festival acompanha a própria realidade latino-americana e sua diversidade de pensamentos políticos, estéticas, formas e expressões.

Nesta edição, estão em cartaz filmes de 15 países. Foram 460 inscrições. Na mostra paralela, há uma concorrência que contribui com a qualidade do festival, pois soma produções universitárias, cujas produções são menores, ainda que de grande qualidade.

Organizador do festival, Fausto Borges: “O Perro é fruto de um processo político horizontal, sem hierarquia, onde os próprios estudantes assumiam a responsabilidade por todas as etapas da produção; também estamos em processo de reformulação de discurso”

Organizador do festival, Fausto Borges: “O Perro é fruto de um processo político horizontal, sem hierarquia, onde os próprios estudantes assumiam a responsabilidade por todas as etapas da produção; também estamos em processo de reformulação de discurso”

Em destaque, Fausto lembra do filme “Batguano”, sobre a vida íntima dos então heróis Batman e Robin, retratando a diversidade sexual. O filme pernambucano “Sem Coração” também dialoga sobra as relações de gênero (sobre a perspectiva de um personagem ainda menino), que foi premiado na mostra paralela de Cannes. Ainda no hall de destaque está o documentário da República Dominicana, “Tu y Yo”, sobre a relação de uma empregada doméstica e sua patroa. A produção foi selecionada em festivais de todo o mundo. Por fim, a animação goiana “Faroeste”, de Wesley Rodrigues, que ganhou o prêmio no Anima Mundi, em 2013.

O foco do Perro 2015 é a diversidade, “tanto é que a identidade visual trabalhou com a ideia de diversos olhares dos cineastas ligados às diversas tecnologias: são telas de celulares, câmeras, tablets, janelas e outros”. Esse foi o caminho que o Festival encontrou para acompanhar as mudanças que a América Latina tem vivido.

— Não importa se o partido que está no governo seja de esquerda ou de direita; a certeza que temos é que os latino-americanos não aceitam mais o autoritarismo, o pensamento único, a ideologia rígida. A diversidade de pensamento tomou conta de todas as esferas da sociedade e, por mais que alguns grupos reajam com força a essa mudança de paradigma, não há como voltar. Não existe essa divisão rígida na sociedade, poucos são os que ainda se identificam totalmente com um grupo, agora as possibilidades são várias, e o Perro Loco procura expressar essa mudança – explica.

A doutora em Audiovisual pela Universidade Autônoma de Barcelona, Paola Labbés, irá proferir uma palestra na quinta-feira, 26, após a exibição de um filme chileno

Doutora em Audiovisual pela Universidade Autônoma de Barcelona, Paola Labbés proferirá uma palestra na quinta-feira, 26, após a exibição de um filme chileno

A novidade é a “Mostra Universidade”. A edição faz uma homenagem à Universidade do Chile, a suas pesquisas, produções e ações de conservação cinematográfica. “Dentro da Universidade do Chile eles têm uma cinemateca que restauram filmes que foram proibidos na época da ditadura”, conta Fausto. Um desses filmes, restaurado, será exibido no Perro 2015 e terá, em seguida, uma palestra com a doutora em Audiovisual Paola Labbés sobre o cinema chileno.

Além da homenagem à universidade, o Perro Loco também destaca o diretor goiano experimental Martin Muniz. “Seu talento foi reconhecido há pouco tempo e somos o primeiro festival a homenageá-lo exibindo e debatendo seus filmes. Ele é uma figura ímpar”, diz.

A programação completa do festival pode ser encontrada clicando aqui. Vale lembrar que tem oficinas, filmes e palestras durante todo o Perro Loco 2015, que começa nesta terça, 24, e vai até o sábado, 28. Aproveitem!

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