Diversidade, beleza e reflexão em “O Amor, a Morte e as Paixões”

Mostra começa nesta quarta-feira com a exibição do filme de Carolina Jabor, “Aos Teus Olhos”, sobre reputação em tempos de patrulha virtual, com Daniel de Oliveira e Marco Ricca

Lisandro Nogueira, professor de cinema da UFG e curador da mostra (d), com Gerson Santos, diretor do Lumière: “O primeiro critério é a diversidade. Emocionar e refletir é nosso lema” | Foto: Gilberto G. Pereira / Jornal Opção

A 11ª Mostra de cinema “O Amor, a Morte e as Paixões” começa na quarta-feira com o maior número de filmes de sua história. Serão 114 produções de 36 países, incluindo nove curtas-metragens, a serem exibidos nas salas do Cine Lumière Bougainville até o dia 21.

De acordo com o curador e cofundador da mostra, o professor de cinema da Universidade Federal de Goiás (UFG) Lisandro Nogueira, o número recorde de filmes demonstra o sucesso crescente que é o evento ao longo desses 11 anos.

“O goianiense gosta de cinema. Segundo a Pesquisa Marplan, Goiânia é a quinta capital brasileira em consumo de cinema, não só pelo número de salas, mas também pelo grau de cinefilia. E isso é um dado fundamental. A mostra multiplica isso”, diz Lisandro.

A avant-première, às 21 horas, será feita com o filme de Carolina Jabor, “Aos Teus Olhos”, que tem Daniel de Oliveira como protagonista, no papel de Rubens, professor de natação infantil, acusado ter beijado um aluno na boca, no vestiário da escola. A acusação viraliza na internet, e a partir daí, sua vida vira um inferno. Ele perde a credibilidade, e mesmo as pessoas mais próximas começam a duvidar de seu caráter.

Carolina Jabor e Daniel de Oliveira estarão na abertura para bater um papo com o público da mostra, após a exibição do filme. Para essa sessão exclusiva, o valor do ingresso será R$ 30, a inteira, e R$ 15, a meia entrada. Mas nas demais sessões de toda a mostra, a partir de quinta-feira, a bilheteira custará R$ 15 (professores associados à ADUFG e SINPRO-GO pagarão R$ 12).

Relevância estética
Uma das preocupações da curadoria de “O Amor, a Morte e as Paixões” é com a qualidade estética dos filmes exibidos. Outra é com o conteúdo, que, além de ser diverso, traga uma reflexão de ordem política ou social. No quadro das produções importantes esteticamente, a mostra é encabeçada por dois clássicos dos anos 1960, de Federico Fellini, o grande mestre italiano do cinema autoral, “8 e 1/2” e “A Doce Vida”.

Os dois títulos serão exibidos em cópia nova, uma versão restaurada e remasterizada no formato widescreen. “São expressões máximas da obra de Fellini, que mostram como era fazer cinema nos anos 60, por isso são importantes”, comenta Lisandro. Além disso, haverá a exibição de “Em Busca de Fellini” (direção do sul-africano Taron Lexton), produção contemporânea, sobre uma adolescente americana do Estado de Ohio, nos EUA, que descobre os filmes do cineasta italiano, viaja até a Itália, e a vida dela passa a ter outro sentido.
“Este filme é simbólico da mostra porque aborda a importância do cinema na vida das pessoas, salientando como as histórias atuam na construção do imaginário e como uma vida representada na tela influencia e define a vida real de outra pessoa”, explica o curador.

Segundo Lisandro, “Dolores” (Juan Dickinson), filme argentino, é fundamental na mostra, tanto quanto o aclamado “A Forma da Água” (Guillermo del Toro), indicado ao Oscar em 13 categorias, incluindo a de Melhor Filme e Direção. “O primeiro critério de ‘O Amor, a Morte e as Paixões’ é a diversidade. Aqui exibimos desde indicados aos Oscar até o filme feito em Goiás, passando pelos maiores festivais do mundo e pelo melhor do cinema brasileiro. Emocionar e refletir é nosso lema”, diz Lisandro.

Feminino
Muitos filmes da edição deste ano trazem uma temática em torno da mulher. “A linha da mostra é o feminino. Você terá vários filmes sobre a mulher contemporânea e sobre a mulher do século 19, como ‘Lou’, que narra a história de Lou Andreas-Salomé (1861-1937), intelectual russa que virou a cabeça de meio mundo de homens por sua inteligência e senso de liberdade”, diz Lisandro.

Na avaliação do curador, “Lou” (Cordula Kablitz-Post) é um filme que não só é capaz de emocionar, mas traz também uma grande reflexão sobre o feminino. “Eu estava na Áustria, dando uma garimpada nas produções contemporâneas, quando me deparei com esse filme. O Cine Lumière, na pessoa de Gerson Santos, diretor da rede de cinemas e cofundador da mostra, batalhou para adquirir seus direitos de exibição. Sem dúvida, é um dos destaques da mostra”, comenta.

A história de Lou Andreas-Salomé é realmente fascinante. Se o roteirista conseguiu colocar no plot as questões principais de sua existência como, além de sua beleza extasiante, o fascínio que homens sentiam por ela, por sua inteligência, e os dramas particulares suscitados por causa dela, pode ter-se tornado de fato um grande filme, que será exibido cinco vezes na mostra. Certamente esta é a rara oportunidade de se ver no cinema uma peça dessas.

“Lou Andreas-Salomé abre o feminismo no século 20”, diz Lisandro. Homens como Nietzsche, Freud e Rainer Maria Rilke eram apaixonados por ela de alguma maneira. Nietzsche chegou a pedi-la em casamento duas vezes, e por duas vezes foi negado. Freud disse a ela: “Você tem um olhar como se fosse Natal”. Paul Rée, um filósofo obscuro, e um outro sujeito chamado Tausk se mataram por causa dela.

Ela mudou o nome do poeta René-Marie Rilke para Rainer Maria Rilke. Freud confiou a ela a análise de sua filha Anne Freud. Lou Andreas-Salomé fez o diabo. Rilke era tão abiloladamente apaixonado por ela que escreveu:

“Tu eras para mim a mais maternal das mulheres,
eras um amigo como são os homens,
ao olhar, eras uma mulher
e eras no mais das vezes ainda uma criança.
Eras a coisa mais terna que encontrei,
eras a coisa mais dura com a qual lutei.
Eras o cimo que me tinha abençoado –
e te tornaste o abismo que me devorou.”

Reflexão
A diversidade dos filmes da mostra também passa pela questão política. Entre os filmes em destaque neste quesito estão o português “A Fábrica de Nada” (Pedro Pinho), os brasileiros “Cartas para um Ladrão de Livros” (Carlos Juliano Barros, Caio Cavechini) e “Vazante” (Daniela Thomas) – cujo tratamento dado ao conteúdo desagradou alguns setores da consciência negra –, o francês “A Natureza do Tempo” (Karim Moussaoui) e o americano “The Post – A Guerra Secreta” (Steven Spielberg).

“A Fábrica do Nada” faz uma ironia com o sistema de emprego atual. Os funcionários tomam conta da fabrica, e eles é que vão dirigir os patrões, numa inversão de comando e de valores como crítica ao liberalismo. Já “Cartas para um Ladrão de Livros”, também garimpado por Lisandro, narra a história real de um sujeito que se especializou em roubar livros raros. Ele rouba por amor à arte (de roubar e de expressar), como se tivesse fome daquilo.

“A Natureza do Tempo”, segundo Lisandro, é um filme fundamental na mostra porque apresenta a sociedade árabe contemporânea, com suas dificuldades e contradições. “Temos também ‘Almas Silenciosas’, que eu diria ser um dos meus preferidos dentro da mostra”, diz o curador, “porque trata, como ninguém jamais tratou, da diferença entre morrer e a própria morte.”

Mostra dentro da mostra
“O Amor, a Morte e as Paixões” deste ano tem o diferencial de trazer uma mostra dentro da mostra, com a exibição de filmes que celebram os 40 anos do Cineclube Antônio das Mortes.
Além das exibições, haverá palestras com os professores da Universidade de São Paulo (USP) Ricardo Musse e Ismail Xavier, na sessão da sexta-feira, dia 9, às 17 horas. No dia 13, debate com Rubens Machado (prof. de cinema da USP) e Rafael Parrode (crítico de cinema), dia 16, debate com Marina Campos (jornalista e pesquisadora de cinema), sempre às 17 horas.

A mostra principal vai trazer também, na sessão do dia 16, às 21 horas, Paulo Betti para apresentar seu novo filme como diretor, “A Fera na Selva”. E no dia 21, na sessão das 20h30, o diretor goiano Daniel Nolasco falará sobre seu longa, “Paulistas”. l

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