“Ditadura no Ar” traz a claustrofobia e paranoia presentes naqueles que eram contra o regime militar

História de Raphael Fernandes e Abel, que relata a procura de uma jovem que foi presa pelo Dops, ganhou o Oscar dos quadrinhos brasileiros

Francisco Costa

Clima claustrofóbico, sentimento de paranoia e uma esperança de tempos melhores que parece improvável. A história em quadrinhos “Ditadura no Ar”, de Raphael Fernandes (roteiro) e Abel (arte) é ambientada no período da ditadura civil-militar do Brasil (1964 a 1985) e conta a história fictícia do fotógrafo Félix Panta, que procura pela namorada comunista, Nina Coimbra, uma militante idealista.

A HQ é fictícia, mas bem que podia ser verdade. A trama traz, com a caprichada arte de Abel, um clima pesado, com pessoas com medo do que falam, toques de recolher, esconderijos secretos, tortura e jornalismo sob a pressão da censura.

Com uma pegada noir (até no título “No Ar”) com base no roteiro de Raphael e na arte de Abel (também é conhecido como Rafael Vasconcelos), a HQ de 94 páginas lembra até alguns títulos italianos. De fato, o clima detetivesco e o protagonista com cara de canalha carismático me remetem, de cara, ao incrível investigador do sobrenatural Dylan Dog — que realmente serviu de inspiração, como foi confirmado pelo roteirista em um encontro que tivemos em uma feira de quadrinhos em Goiânia.

Raphael Fernandes: autor de “Ditadura no Ar” | Foto: Reprodução

História e a HQ

A história, ambientada em São Paulo, começa com Félix de tocaia, em busca de fotos comprometedoras de um certo figurão militar, que saberia onde está sua companheira, desaparecida em ato estudantil. O fotógrafo é pego com a mão na massa, mas consegue se desfazer do filme e sair da cadeia com ajuda de um editor de jornal com certa influência.

Sem sua arma secreta (as fotos), ele resolve ir atrás de outra pista: viajar a Jundiaí, interior de São Paulo, com um repórter inexperiente, mas com uma boa dica, atrás de um comunista foragido do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), que pode saber alguma coisa. Lá, outras surpresas, que não devo revelar para evitar spoiler.

A trama tem reviravoltas e enredo que cativam. Apesar de ser 100% inventada — se isto é mesmo possível (até as invenções partem do real, ainda que este seja difuso) —, a história passa bem a mensagem do que foram os anos de repressão da ditadura. Inicialmente lançada de forma independente em 2011, o título foi republicado pela Editora Draco, da qual Raphael Fernandes é o editor, em 2016, e levou o troféu HQ Mix (o Oscar dos quadrinhos brasileiros) na categoria Melhor Minissérie.

Além de uma boa história, o título é um lembrete de um dos períodos mais obscuros de nossa história moderna. A obra vale também como memória daqueles que lutaram pela democracia e, claro, pelos que não puderam vê-la voltar.

Porém, mais do que isso, a história permanece muito relevante. Em tempos em que chamam o golpe de 1964 de revolução, ler é o melhor caminho. Reinventar o passado a bel-prazer não contribui para se ter uma história o mais ampla possível, contemplando versões e se chegando a um consenso que se pode denominar de mínimo.

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