Distopia brasileira retrata um país marcado pelo caos

Tratamento Especial, livro de Newton Cesar, insere o leitor num Estado imaginário no qual as pessoas vivem a opressão e o desespero, e faz com que ele, o leitor, experimente momentos perturbadores

Um governo totalitarista, fascista, ditatorial, centrado na figura de um Presidente que extinguiu o Congresso Nacional, que unificou em si mesmo os três poderes – Legislativo, Executivo e Judiciário – promete uma sociedade igualitária; acaba com as diferenças das classes sociais e oferece ao povo um mundo novo. Novo, mas nada admirável. O abominável, o caos, o horror e a opressão fazem desta distopia uma história que, apesar de imaginária, nos faz pensar: “Quanto da nossa realidade cabe dentro desta ficção?”.

“…senadores, tampouco deputados, existiam mais. O Congresso Nacional, extinto por ele – não sem sofrer atentado, não sem protestos e tentativas fracassadas de processos de impeachment – reduziu-se na insignificância dura das formas arquitetônicas. O Supremo Tribunal Federal, essa maior instância do Poder Judiciário, perdeu a supremacia. O Ato Institucional nº 5, repaginado, transformou-o no Todo-Poderoso. Sua autoridade como governante era absoluta. E emanava de Deus. E só por Ele poderia ser deposto. Bem, talvez nem por Ele. Às favas com Deus!

Legislativo. Executivo. Judiciário. Os Três Poderes lhe pertenciam. Era sua exclusividade criar, executar e fiscalizar o cumprimento das leis. Suas leis” (pg.9).

Tratamento Especial, livro de Newton Cesar, insere o leitor num Estado imaginário no qual as pessoas, com destaque para o protagonista, vivem a opressão e o desespero, e faz com que ele, o leitor, experimente momentos perturbadores, desses que acontecem nos melhores livros de ficção, ou, ainda, nos piores momentos da nossa própria história.

O livro é ágil. O ritmo narrativo perfeito. O leitor gruda-se às páginas e envolve-se de maneira tal que de entretenimento literário, pula para questionamentos importantes da sociedade em que vive, em que outros viveram, noutras épocas, ou ainda viverão. Não por acaso, a história traz citações e situações que marcaram a produção artística e a vida real. Esse livro é profundo e “repleto de nuances importantes, como, por exemplo, alguns atos ocorridos na época da ditadura militar, e a citação de produções artísticas emblemáticas: Os tempos modernos; Admirável mundo novo; 1984 e Laranja Mecânica. Mas ao mesmo tempo em que Tratamento Especial, em um e outro aspecto, pode remeter a todas essas obras, não é nenhuma delas. A voz própria do autor torna a obra um livro singular. Dono de grande qualidade literária, Newton Cesar escreve como poucos”. E é com maestria que vai alinhavando os acontecimentos desta história na qual o novo governo tem como base a “coisificação” das pessoas, arrancando-lhes as vontades, os questionamentos, e os bens materiais.

Nesse cenário, no qual a vida é ditada por toques de recolher, “o protagonista, um homem comum, vai crescendo e modificando-se à medida que se modifica o universo a sua volta. Tudo é súbito e arrasador. O conhecimento a serviço do mal coisificando as pessoas”. O Novo Governo, por meio da Nova Droga, deseja fazer com que o cérebro da população diminua, murche, vá perdendo a capacidade de cognição, transformando a sociedade numa sociedade submissa. Além disso, e ao mesmo tempo, o ditador anseia criar um tipo de ser humano extremamente resistente – mente fraca, corpo forte.

O desenlace da trama é aterrorizante. Conforme apresentou o escritor Luiz Bras, “O desenlace deste Tratamento Especial é devastador. Impossível ficar indiferente ao destino do protagonista. O romance tem um ritmo perfeito, cada capítulo apoia-se firmemente no anterior e sobe mais um degrau, até o arremate terrível.”

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