Edmar Monteiro Filho

Em “Histórias”, Heródoto narra um episódio no qual o rei persa Cambises derrota e captura o rei egípcio Psammenit e decide humilhá-lo publicamente. O cativo é colocado num local por onde deve passar o cortejo triunfal dos persas. Primeiramente, vê sua filha reduzida à condição de criada, carregando vasilhas de água. Depois, surge seu filho, acorrentado, que segue para ser executado. O povo egípcio lamenta a sorte dos filhos do rei, mas este permanece silencioso e impassível. Entretanto, quando passa diante dele um de seus servidores, um homem velho e miserável, o soberano prostra-se ao chão, tomado pelo mais profundo desespero.

O breve relato de Heródoto encerra-se dessa forma, deixando espaço para as inúmeras hipóteses que podem surgir para explicar a atitude do rei. Esse silêncio que sucede a narrativa, a impossibilidade de encontrar conforto numa solução pronta ou num final tranquilizador que o narrador se recusa a oferecer é a característica que garante o caráter atemporal das antigas histórias. A partir do momento em que a solução dos enigmas propostos começa a fazer parte do corpo das narrativas, estas passam a negar ao leitor a possibilidade de agregar ao enredo que ouve ou lê as suas próprias impressões, sua experiência de vida. Com isso, perde-se o principal encanto das histórias: a possibilidade de seguirem adiante, vivas, sempre transformadas e transformando ouvintes em narradores originais.

Fico imaginando que formato o escritor tcheco Franz Kafka escolheria para narrar a mesma história contada por Heródoto. Provavelmente, colocaria em primeiro plano as razões da atitude do rei egípcio perante o cortejo dos cativos, descrevendo-as clara e objetivamente, com suas nuances e possíveis incoerências fortemente realçadas. Quanto à derrota, o calvário da prisão, a cena narrada por Heródoto, estas seriam descritas de forma a transformá-las em algo enigmático, o prisioneiro submetido a uma estrutura punitiva complexa, organizada de forma incompreensível e que o conduziria lentamente até um inevitável castigo. Após a leitura da história, restaria ainda um silêncio, mas um silêncio diverso, que nasce do vazio, do desconforto.

Kafka foi um grande narrador. Mas trata-se de um narrador moderno, sujeito aos apelos que essa modernidade impôs. Escreveu a partir de uma Europa que começava a sofrer a efervescência dos movimentos desagregadores que iriam fazer em pedaços o império austro-húngaro, do impacto das ideias de Freud, Nietzsche e Marx e do furor das inovações tecnológicas, que levariam o homem não a uma era de prosperidade e paz, mas à catástrofe da Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Nesse ambiente, criou uma obra que se distanciou das convenções literárias vigentes ao fundir elementos da fábula com um sentido marcadamente realista. Tal paradoxo tem como efeito um estranhamento, produzido não pela pena do autor, mas que resulta do desvelamento das impenetráveis estruturas da realidade. Segundo a professora Jeanne Marie Gagnebin, os textos de Kafka adquirem a conformação de um discurso místico que não conduz a nenhuma possibilidade de redenção, ou seja, não há um sentido salvador, não há mensagens definitivas, mas somente “fragmentos esparsos de histórias e sonhos”.

Na narrativa tradicional, a figura do narrador onisciente orienta a leitura e, por vezes, compartilha com o leitor verdades que o próprio personagem desconhece. Talvez a mais importante inovação trazida por Kafka seja a presença de um narrador que nada revela, não como recurso para criar determinados efeitos literários, mas simplesmente porque vive a mesma perplexidade e o mesmo vazio experimentados pelo leitor. Trata-se de uma voz que desconhece as respostas para as questões surgidas ao longo da narrativa e que não tem qualquer poder sobre o destino dos personagens, abandonados à sua sorte. Perante essas criaturas desnorteadas, Kafka planta uma galeria de poderosos e misteriosos juízes e burocratas, prestes a esmagar os sonhos e o mundo do homem comum sob o peso de leis tanto inexplicáveis como implacáveis.

O “Essencial” (Penguin Classics/Companhia das Letras, 302 páginas, seleção, introdução e tradução de Modesto Carone”) de Franz Kafka reúne alguns dos mais conhecidos textos do autor, como: “Diante da Lei”, “O Artista da Fome” e “Na Colônia Penal”, além dos 109 “Aforismos” e da novela “A Metamorfose”, considerada por muitos o ponto mais alto de sua produção. A leitura desses textos é um percurso pelo universo de um dos escritores mais intrigantes da literatura moderna, um universo labiríntico, onde reina a estranheza, onde cada linha é um encontro com o inesperado e um desafio à imaginação do leitor.

Edmar Monteiro Filho é crítico literário.