A diáspora que está em nós

“Jó, Romance de um Homem Simples” agradará a leitor comum e a leitor exigente, pois Joseph Roth tem a magia de um povo milenar cujas narrativas já seduziram todo gênero de público. O romance se insere entre as grandes narrativas do princípio do século 20

Ronaldo Costa Fernandes

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Jó — Romance de um Homem Simples | Autor: Joseph Roth | Preço: R$ 39,00 | Companhia das Letras

A diáspora está por trás de toda literatura feita por judeus sobre temática judia, seja de maneira explícita, seja de maneira implícita. No caso de Joseph Roth, sua literatura contém todos os elementos da literatura de cunho judaico, sem perder a modernidade e ser um dos grandes livros da literatura de língua alemã. E mais ainda quando sua história é uma declarada paródia à bíblica história de Jó que desafiou Deus. Jó não é o único personagem da Bíblia a ser testado por Deus. Deus gosta de colocar seus filhos mais amados numa provação que chega ao limite do desespero. Não é diferente aqui com esse Jó russo e judeu, chamado Mendel Singer, que emigra de um vilarejo pobre da Rússia, onde é simplório professor, para os Estados Unidos, para se tornar pária. Sua recompensa virá ao final, depois de sofrer provação e blasfemar severamente.

“Jó, Romance de um Homem Simples” é tradicional em sua forma de apresentação linear e con­tínua, tendo um só narrador onisciente. Mas a aparente fábula e paródia de Roth tem tanto vigor narrativo e sua construção em ritmo trepidante, emocional e direta carrega muito da modernidade de outros seus contemporâneos. O livro, dizem alguns críticos, se insere entre as grandes narrativas do princípio do século 20.

Joseph Roth (1894-1939) nasceu em Brody, cidade que integrava o Império Austro-Húngaro, hoje pertencente à Ucrânia. Jornalista de êxito, dedicou-se à literatura no final dos anos 1920. Tem outras narrativas, entre elas o romance “A Marcha de Ra­det­zky”. A Cia das Letras publicou, em 2006, “Berlim”, em sua série de jornalismo literário. Em 1933, emigra para a França onde irá falecer no final da mesma década. Querem colocá-lo entre os renovadores da literatura moderna, mas Joseph Roth é um grande narrador, excelente romancista, um dos grandes mestres do século 20, mas não se enquadra na tropa vanguardista de Proust, Kafka e Joyce, em que querem alistá-lo.

“Jó, Romance de um Homem Simples” trabalha também com um dos elementos primordiais das antigas narrativas: a metamorfose. Não a metamorfose fantástica, mas a transformação inesperada e a surpresa a partir da transformação. Muito utilizada nas narrativas até o romantismo, a transformação radical, não a lenta maturação psicológica do personagem ou a mudança de comportamento, deixa no romance um traço da tradição — laica e religiosa — que permeia a história descrita por Roth.
Não são poucos os que criticam a América como lugar de sonho e de degradação, das perdas dos valores fundamentais.

América é a fuga e o mal, Deus e o Diabo. O país da oportunidade e da propalada igualdade social é aquele que manda o filho de Mendel para morrer na guerra por uma pátria que supostamente não é a dele. Mendel Singer é mais que um imigrante judeu: Singer é a desilusão com o mundo da terra prometida. América não é Canaã.

Um espírito de fábula mo­derna permeia o romance e o insere na tradição das narrativas moralistas. São moralistas os escritores ingleses e franceses do século 18: Stern, Fielding, na Inglaterra, e, na Fran­ça, Diderot e Voltaire. Em­bora todos esses citados tenham influenciado o nosso Machado e sejam irônicos, o caráter moralista da fábula de Roth não é isento de outro tipo de ironia: a ironia ácida, o destino visto como trapaça irônica. Não há sarcasmo nem humor, mas o que o povo chama de ironia do destino. A fábula de Roth, como toda fábula, também torna o particular coletivo. O drama de Mendel Singer não é só o drama individual, mas o drama de seu povo. Roth amplia a condição humana. E Jó passa a ser todo o povo sofrido e perseguido.

Nesse sentido mais amplo, diria que a fábula explícita de Roth torna-se um dos paradigmas do romance moderno. O romance moderno é uma fábula moralista em que é elidido o segundo elemento de comparação. Moralistas são os escritores modernos na medida em que não querem apenas deliciar seu público leitor (falo dos escritores sérios e não autores de outro gênero e espécie), mas ao transgredir estética e tematicamente estão apontando para uma degradação social. E, mesmo quando são autores intimistas ou solipsistas, a moralidade está em rejeitar a massificação e condená-la por rejeitar o humanismo. O mergulho na subjetividade não é alienação, mas o recurso para buscar no fundo do homem sua humanidade última como quem recolhe água barrenta do fundo de um poço vazio. Mas “Jó, Romance de um Homem Simples” é garantia de emoção e beleza, de uma história rica de encantamento como nas fábulas antigas e que agradará a leitor comum e a leitor exigente, pois Roth tem a magia de um povo milenar cujas narrativas já seduziram todo gênero de público.

Ronaldo Costa Fernandes é escritor.

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