Dias perturbadoramente perfeitos

Raphael Montes dá um sopro de frescor no gênero policial nacional, substituindo a banalização da violência por choque e terror psicológico bem-construídos

Alex Sens Fuziy
Especial para o Jornal Opção

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Raphael Montes, autor de “Dias Perfeitos”, romance que revitaliza o gênero policial no Brasil

Quando falamos de arte, estamos falando de uma projeção, seja por parte do artista, por parte do objeto artístico ou ainda por parte do espectador que oferece sua percepção a esse objeto. Talvez seja uma irradiação desses três pontos, ligando-se num constante vai-e-vem de impressões e ricocheteando infinitamente até formar um triângulo ao qual chamamos de… arte. Enquanto o teórico de arte e historiador Giulio Carlo Argan registrou que ela, a arte, “existe para ser percepcionada”, Simon Schama, historiador, professor e crítico inglês, acrescenta a esse universo vasto e dilemático a ideia do poder da arte, que seria o “poder da surpresa perturbadora”. Nem sempre o que nos perturba pode ser considerado arte, não quando acrescentamos a esse caráter de perturbação todo o rasgo de violência que inflama dos telejornais e da carne exposta no realismo da raça humana. Mas tudo o que é considerado arte, bela ou feia, calma ou histérica, serena ou aterradora, efêmera ou eterna, pode perturbar — em diversos e diferentes níveis que só dependem dessa percepção citada por Argan. Esta é uma palavra que estará sempre associada à arte como um todo: percepção. Você percebe o mundo de acordo com o mundo que leva no olhar, que traz consigo, Anaïs Nin já falava disso. O sujeito tem a percepção ou que escolhe ter, pelo jeito que é, ou que está dentro do seu nível de consciência.

Voltando a Schama, o que seria essa perturbação, essa poderosa ferramenta (bênção ou maldição?) que a arte traz consigo? Que faz alguém sensível e entregue a uma observação mais cuidadosa sentir os pelos da nuca eriçados diante de uma tela mórbida de Munch? Que faz com que os olhos deixem de represar o silêncio líquido logo nos primeiros segundos de “The Death of Åse”, de Grieg? Que faz com que o corpo, mesmo parado, sinta vontade de flutuar enquanto outro corpo dança a sua frente como um convite à alegria de viver? Que faz com que um leitor, exposto à uma linguagem cheia de códigos e figuras, sinta-se tocado, invadido, violentado, perturbado, pela palavra, por um cenário ficcional, uma história que só existe quando interpretada, codificada pelo cérebro, enfim, percepcionada?

Um dos maiores nomes, senão o maior, da cena literária nacional contemporânea, o escritor carioca Raphael Montes não ganhou somente os epítetos de “príncipe dos horrores” ou “prodígio do crime” como estratégia de um mercado editorial que quase sempre se vale da propaganda e da difusão crítica como forma de atingir a grande massa de leitores. É essa mistura essencial de perturbação e curiosidade que, somada a um talento indiscutível, trouxe à literatura policial nacional uma nova roupagem, uma nova possibilidade e um novo olhar sobre o poder da arte no entretenimento e vice-versa.

Foi no fim da adolescência, entre os 16 e 19 anos, que Raphael escreveu “Suicidas”, romance primorosamente bem-construído numa teia intrincada na qual a estética da violência e camadas esmagadoras de suspense sustentam o mistério do suicídio coletivo de nove jovens do Rio de Janeiro. Finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, cuja posição garantiu ao autor sua primeira publicação individual, a história não só tocou um imenso grupo de leitores atraídos por sua perturbação, mas também se alastrou como um incêndio pelo mercado das palavras, acendendo a curiosidade de várias casas editoriais. Enquanto os leitores ficaram com o talento de Raphael Montes, bolo que a cada livro vendido regenera uma nova fatia, a grande Companhia das Letras ficou com a cereja: o próprio autor e sua prolífica produção. “Dias Perfeitos”, seu segundo romance, acaba de ser lançado pela editora (e comprado pela imensa Penguin) e já carregando tanto elogios da crítica quanto do público, não veio para provar nada, nem a força criativa (e absolutamente possível a despeito da idade) de um jovem escritor, nem o valor de seu talento, mas sim para tornar maciço o mérito de quem manifesta esse tipo de desejo num país de pouco leitores, além da possibilidade (e sejamos sempre gratos à sua existência) do caráter qualitativo de uma literatura mais comercial que não esbarra na pobreza linguística nem no ranço preguiçoso entupido de clichês brasileiros encontrados em muitos dos livros nacionais.

Há alguns anos, iniciei a resenha de um livro da seguinte forma: “No dia 7 de janeiro de 1923 Virginia Woolf escreveu em seu diário: ‘Love is the devil’. ‘O amor é o diabo’, diz a curiosa frase que nada tem a ver com a boa relação que a escritora mantinha com a amiga e amante Vita Sackville-West. Sendo ou não tal afirmação produzida a partir de uma experiência amorosa insatisfatória, ela se encaixa perfeitamente na vida de qualquer pessoa que tenha experimentado tanto o lado hipnotizante como o lado obscuro do amor. Se o amor é o diabo, sendo este o caráter maligno daquele, o que nos faz mal às vezes de forma incontrolável, então o amor é o que nos desorienta, desequilibra, possui, transforma”. O livro era “Amor sem Fim”, do inglês Ian McEwan, e não podia estar mais próximo de “Dias Perfeitos”, no qual Raphael narra a história desse amor que desorienta, que desequilibra, que com a mesma surpresa e intensidade que surge, se dilui rapidamente num sentimento corrosivo e convicto de angústia, obsessão e possessão.

cul1Diferentemente do romance anterior, que conta com mais de 20 personagens e uma estrutura não linear narrada em sua maior parte em primeira pessoa, “Dias Perfeitos” conta a história de dois personagens e se apresenta em terceira pessoa, embora o uso de um — novamente — perturbador discurso indireto livre aproxime o leitor do protagonista: Teodoro, ou simplesmente Téo. Os dois primeiros capítulos têm um contraste bastante claro e envolvente: sendo Téo um estudante de medicina, no primeiro o leitor é apresentado a um cadáver usado em seu curso, o encanto que ele exerce sobre o personagem e como isso não deixa de ser uma primeira vértebra desta que será a espinha dorsal do seu caráter. Já no segundo capítulo, entramos num dia comum na vida deste personagem, cuja mãe paraplégica parece a razão pela qual esse rapaz aparenta ser um belo exemplo de ser humano e filho dedicado: “Enquanto a água fervia, ele varreu a sala do apartamento e lavou a louça do dia anterior. Trocou o jornal de Sansão e encheu as tigelas de comida. Como de costume, deixou o café na cabeceira da mãe e a acordou com um beijo na testa, pois é assim que os filhos amorosos devem agir”. As águas estão calmas e a isca foi jogada: logo o leitor será preso pela boca e puxado para o ar de lâmina que o aguarda numa superfície monstruosa onde nem tudo é o que parecer ser.

Após uma manhã comum, Téo é forçado a ir com a mãe a uma festa de aniversário e lá conhece a outra — afiada — ponta desse romance: Clarice. Estudante de História da Arte que tem fome de liberdade e desejo de “ser diferente”, nascida em uma família de burocratas, ela conta que está escrevendo um roteiro para um road movie, intitulado “Dias Per­feitos” — como em “Suicidas”, mas de forma muito mais sutil, Raphael brinca com a metalinguagem e um leitor mais atento sente nesse jogo uma indicação de perigo. Clarice logo cria uma atmosfera invasiva de perguntas e respostas para conhecer melhor (sem verdadeiro interesse) essa figura solipsista que não come carne, que bebe pouco e cujo retraimento cria com o leitor um frágil laço de empatia. É essa empatia que num primeiro momento deixa a narrativa expectante, porque embora Téo seja, aparentemente, a personificação do homem tímido e inexperiente que se apaixona facilmente, são seus impulsos e o desenvolvimento de sua paixão por Clarice que revelam pouco a pouco seu lado obscuro — e o quanto ele pode ser profundo. Somente com este encontro e após planejar como se aproximar da estudante enquanto assiste a uma missa junto à mãe, “ladainha” que Téo ironiza com frieza e acidez, ele conclui que Clarice é o amor da sua vida e fará de tudo para que ela sinta o mesmo. Então eis que o verdadeiro problema está nessa linha sensível e quase invisível que divide a percepção de Téo e a realidade que diz respeito aos sentimentos de Clarice. É dessa divergência de emoções e um encanto não correspondido que torna o rapaz a máquina obsessiva que nos remete a Annie Wilkes, de Stephen King em “Misery”, ou ao próprio Jed e sua erotomania em “Amor sem Fim”, de McEwan.

Depois de algumas baldadas tentativas de aproximação e perseguição, o ritmo do romance acelera com a surpresa de uma pancada, tanto no leitor quanto em Clarice: Téo a deixa inconsciente após bater em sua cabeça com um livro de capa dura (de Clarice Lispector, porque ironia e humor negro são ingredientes constantes e essenciais na escrita de Raphael) e esconde seu corpo numa grande mala que ela levaria para Teresópolis a fim de escrever o seu roteiro. Em Teresópolis, hospedados numa pousada administrada por anões e onde Téo obriga Clarice a escrever enquanto a deixa presa num dos chalés que levam os nomes dos anões da Branca de Neve, tem início o terror dessa saga obsessiva que durará semanas. Em alguns momentos, Clarice oscila entre o tédio, o conformismo e o ódio, chegando a abusar de uma preciosa, mas fracassada, atuação para se livrar de seu algoz. Tudo o que ele quer é que a estudante aceite em seus atos alucinados a verdade de que são perfeitos um para o outro, de que podem ficar juntos para sempre, mesmo forçadamente, mesmo por meio de seu prisma liricamente doentio, e como em “Pelos Olhos de Maisie”, de Henry James, vemos a obsessão e a certeza de amor irrecusável de Téo pelos olhos de Téo. Coin­cidência ou não, o termo “teo”, do grego Theos significa Deus, e como um deus que cria suas próprias regras e um governo justo conforme sua própria consciência, Téo se vale de sua psicótica teocracia para reger a nova vida de Clarice e seus cárceres, físicos e emocionais. Ela, por sua vez, que tem a origem do nome do latim Clarus — brilhante, claro —, a­pe­sar do brilho que irradia nas perturbadas e inconstantes emoções de Téo, demora a ofuscar sua confiança e seu poder de ilação.

“Dias Perfeitos” tem uma súbita pausa em seu ritmo cerimonioso de lua-de-mel macabra quando o cenário é alterado. Os dias chuvosos e escuros no chalé e o estranhamento causado pela família de anões dão lugar a uma nova viagem depois de um fato que assombrará Téo pelos capítulos seguintes. Clarice já está sedada em seu próprio mimetismo e se torna ora um apêndice, ora mais um órgão necessário, quase vital, do que uma barreira defensiva a qual o rapaz antes se via obrigado a romper para fazer passar a sua percepção de amor. A narrativa flui um pouco mais lenta numa importante passagem de descobertas e violações do personagem, e volta a torturar, tanto personagens quanto leitor, quando a dupla viaja para uma praia deserta em Ilha Grande. Se antes Raphael traz o leitor para a condensação tenebrosa da neblina de Teresópolis, na ilha ele o envolve, sutilmente, com uma corda presa ao pescoço, tornando a leitura mais sufocante, e talvez por isso mesmo, mais necessária. Nesse novo ambiente e no desespero quase transferível para além das páginas, a narrativa escalpela lentamente muito dos desejos de Clarice, revelando não só o osso de suas intenções, como os mais profundos cortes de suas emoções.

É sempre difícil resenhar, destrinchar, querer explorar uma obra que se vale do inusitado (e do mal contido no inusitado), que se apoia na perturbação, sem deixar cair um fragmento de surpresa, tornando assim o livro menos inesperado. Por isso “Dias Perfeitos” pode ser revelado somente dessa forma, pegando o leitor e a própria literatura pelas mãos da curiosidade, ainda que uma curiosidade sádica. Elogiado por Scott Turow, Raphael Montes dá um sopro de frescor no gênero policial nacional, substituindo a violência banalizada pelo sensacionalismo jornalístico por choque e terror psicológico bem-construídos. O que era um simples encontro, o argumento de um roteiro que passeia por alguns dos pontos mais belos do estado do Rio de Janeiro, se torna o realismo chocante de um sequestro doentio, cheio de suspense, terror, tortura, e a cegueira de um amor mantido, explorado e rasgado com precisão cirúrgica. Literalmente.

Alex Sens Fuziy é escritor e crítico literário.

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