Dias de Fogo: memórias de um carbonário que se perdeu no caminho

Sucesso literário do escritor goiano Antônio José de Moura conta com ironia e leveza o que aconteceu com um candidato a guerrilheiro que não vingou

Mariza Santana

O romance “Dias de Fogo”, do escritor goiano Antônio José de Moura, é daquelas obras literárias que ficam melhores com o passar do tempo, tanto por serem escritas de forma primorosa, como por terem como protagonistas os chamados anti-heróis, aqueles que contam suas desventuras com leveza e ironia, propiciando momentos hilários ao leitor. Foi assim que avancei com rapidez por suas páginas, embalada pela trajetória do fracassado guerrilheiro Zanone Capuchinho, suas memórias e desejos mais secretos.

Não que o fracasso de Zanone se devesse ao fato de ele ter sido preso e torturado pelos agentes da repressão, mas sim porque sua pretensa atividade revolucionária não passou de reuniões regadas a discursos inflamados e alguns poucos meses reunido com alguns ‘camaradas’ numa propriedade rural em uma serra qualquer, sem que nada mais acontecesse de perigoso ou alarmante. Mas o protagonista conta que as atividades do grupo, nessa época, foram bancadas por um certo barbudo da ilha, que foi ludibriado por um espertalhão brasileiro, bom de papo.

Seguindo a narrativa, nos deparamos depois com um Zanone já quarentão, casado e pai, implicando com os gatos das redondezas, desconfiando da intenção da amizade dos vizinhos, perdido na bebida alcóolica, tomado por ciúmes da esposa Aurelina e acometido por sonhos eróticos com uma vizinha. Nesse cenário caótico, Antônio José de Moura mistura referências esparsas a respeito da sociedade goianiense com um toque de realismo fantástico, ou meio onírico, onde ficção e realidade se misturam, criando um caldo literário gostoso e envolvente.

Zanone viveu um momento difícil da história brasileira, e percebemos que foi o período da ditadura militar. Ele cita os ‘salva-pátria” para ser referir aos militares e faz alusão aos desaparecidos políticos do período. Mas não pense que isso é relatado de forma pesada ou cruel, pois o escritor se serve da mais fina ironia. Algumas tiradas do anti-herói são antológicas, tais como: “não existe treco mais chato no mundo do que leis, principalmente quando são muitas, pelo fato de estarem sempre proibindo alguma coisa”.

O protagonista é assim: anarquista e crítico, fã das músicas de seresta do cantor Nélson Rodrigues, um personagem que nos conquista porque não se apresenta como o bom mocinho, ao contrário, ele deixa suas mazelas bem expostas. Zanone confessa até suas ações mais detestáveis, como o aniquilamento dos gatos (hoje ele seria condenado de forma veemente no tribunal das redes sociais e acusado de crime de maus tratos aos animais).

Antônio José de Moura: escritor | Foto: Reprodução

Ler “Dia de Fogo”, portanto, ajuda a desopilar o fígado nesse momento de tantas notícias ruins: pandemia, invasão russa na Ucrânia, polarização política, campanha eleitoral à vista, para citar algumas. Sem falar nas fakes news plantadas aqui e ali por esta ou aquela ideologia, com o objetivo de confundir e desinformar. O Zanone de Antônio José de Moura pode nos parecer um personagem ultrapassado, que viveu uma história distante e que já está nos livros de história. Porém, ele me parece mais atual do que nunca, com suas contradições, neuras e pressentimentos, dissabores e preconceitos.

Antônio José de Moura é natural de Mambaí, município da Região do Nordeste Goiano, mas fez carreira literária em Goiânia. É autor também do livro “Sete Léguas de Paraíso”, que conta a história de Santa Dica, ou Benedita Cipriano Gomes, que foi a líder de um movimento religioso e social ocorrido no distrito de Lagolândia, município goiano de Pirenópolis, na década de 1920. Ela é considerada a representante goiana do chamado Messianismo, que tem no líder Antônio Conselheiro e na Guerra de Canudos seu principal representante no País.

Mariza Santana é crítica literária. Email: [email protected]

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