Diário de Altino Arantes revela a mentalidade das elites num Brasil em dificuldade

Entre 1910 e 1920, o País se defrontava com os obstáculos de se inserir no mundo moderno capitalista. Livro de professores goianos mostra com profundidade como foram esses anos

Retrato da política brasileira do século 20, a obra é um documento histórico de valor inestimável

Retrato da política brasileira do século 20, a obra é um documento histórico de valor inestimável

Ademir Luiz
Especial para o Jornal Opção

O casal de historiadores Robson Mendonça Pe­reira, professor da Uni­versidade Estadual de Goiás (UEG), e Sônia Maria de Magalhães, professora da Uni­ver­sidade Federal de Goiás (UFG), durante anos, pesquisou os escritos do político paulista Altino Arantes, presidente do Estado de São Paulo entre maio de 1916 e maio de 1920.

O resultado é o livro “O Diário Íntimo de Altino Arantes (1916 – 1918)”, lançado pela Paco Editorial, em 2015. A obra é, ao mesmo tempo, um saboroso relato literário do cotidiano de um homem sofisticado, um revelador retrato da política brasileira de meados do século 20 e, principalmente, um documento histórico de valor inestimável.

Nesta entrevista, Mendonça e Sônia Maria falam sobre o processo de pesquisa para o livro, sobre a Belle Époque paulistana, a importância de se estudar diários íntimos de personalidades e acerca dos pontos de intersecção entre a política paulista e goiana.

Os textos que compõem o livro foram escritos num período extremo da história do Brasil e do mundo: Primeira Guerra Mundial, gripe espanhola, crise na economia cafeeira, greve anarquista e outras coisas. De modo geral, de que forma esse cenário é apresentado e interpretado por Altino?

Mendonça — Os indivíduos em geral comparam a realidade vivenciada em função do passado imediato que conhecem. Altino começou a redigir seu diário quando assumiu o governo do Estado de São Paulo em meio ao que hoje interpretamos como uma espécie de crise calamitosa; no entanto, nossa análise se baseia em uma visão mais ampla dos eventos e, mesmo correndo sérios riscos ao afirmamos certas coisas sobre os anos 1910, temos essa vantagem. Altino era um membro bem informado da elite política paulista, tinha consciência da gravidade da situação da “guerra europeia”, sobretudo de seus efeitos nos negócios do café, uma vez que a receita obtida com a cobrança do imposto de sua exportação constituía a mais importante rubrica do cofre estadual paulista. Altino registrou seus esforços em conversas com diplomatas e embaixadores na tentativa de liberar navios cargueiros do Lloyd Brasileiro e de conquistar novos mercados consumidores como o russo, o japonês e o norte-americano, para reverter o quadro de crise no comércio exterior.

Em certos momentos, Altino parece pensar que a guerra não iria se prolongar, permitindo que o progresso vigente até então fosse retornar como num passe de mágica, sanando a questão da carestia e de movimentos paredistas. Com­partilhava como muitos contemporâneos a ideia de que o anarquismo se tratava de uma espécie de “flor exótica” trazida por imigrantes espanhóis e italianos expulsos de suas pátrias e de que o “povo” era obreiro e pacífico.

A greve de 1917, que paralisou a cidade de São Paulo, provou o contrário; inclusive, a fragilidade da administração paulista para resolução da chamada “questão social”. Houve pouco tempo para uma recuperação, pois no ano seguinte, a pandemia de gripe estabeleceu o caos na cidade. Nestes dois eventos, Altino mantém a convicção que acertava mais do que errava, sobretudo, depois dos excessos cometidos pela Força Pública durante a greve anarquista e das deportações de imigrantes. Era capaz de um mea-culpa, mas cerrava suas convicções no ideário conservador predominante entre os pares do Partido Republicano Paulista (PRP).

Altino Arantes começou a escrever o diário no dia 1º de maio de 1916, exatamente no mesmo dia em que tomou posse como presidente do Estado de São Paulo. Portanto, a própria existência do texto se filia diretamente ao exercício da função pública. Produzir este tipo de relato era comum entre os políticos da época ou o caso de Altino, em algum aspecto, é singular?

Sônia Maria — Podemos dizer que é muito comum este procedimento, principalmente em autobiografias de políticos; momento este em que o autor cria um personagem de si mesmo por meio do qual conta sua própria trajetória, procurando estabelecer certa coerência entre os fatos narrados e a “grande” história, donde o resultado da operação seja revelar o protagonismo — objetivo inconfesso do autor para consagrar sua individualidade para as gerações futuras.

Mendonça — A título de exemplo, citamos o caso do diário Getúlio Vargas, cujo primeiro registro se deu no dia 3 de outubro de 1930, data do início da Revolução; isto no momento em que o autor sequer tinha certeza de que assumiria dali um mês a chefia do Governo Provisório. Existem exceções, no caso dos diários, de situações nas quais a escrita de si teria como função para o indivíduo o autoconhecimento, a rememoração ou simples escrita terapêutica.

O estudo introdutório do livro dá bastante destaque aos conflitos no interior da oligarquia paulista. Quais são eles e como Altino se posicionava?

Mendonça — A própria eleição que levou Altino à presidência paulista se deveu a uma crise interna no PRP que rachou o partido, devido ao imbróglio gerado pela indicação pessoal efetuada pelo governador Rodrigues Alves, que desejava impor seu secretário mais fiel na sucessão, com o objetivo incontido de alçar apoio a sua futura candidatura como presidente da República.

Nos primeiros registros de seu diário, Altino confirma a preocupação em manter a unidade partidária ao presidir uma reunião da Comissão Executiva. Em vários outros registros posteriores, manifesta hesitação, seja em relação à própria capacidade de atenuar os conflitos político-administrativos ou para conduzir o governo. Uma forma de impor sua vontade diante da forte influência do conselheiro Rodrigues Alves se deu durante a resolução de apoiar o deputado Washington Luís como candidato a prefeito da capital, a despeito de posições contrárias dos chefes do partido.

Com o passar do tempo, Altino foi se firmando e adquirindo mais autoconfiança, algo perceptível nos comentários que produz sobre as exaustivas audiências aos secretários, chefes e políticos do interior. Sua experiência como Secretário do Interior o havia habilitado para lidar com questões locais e regionais, tecendo acordos e atendendo aos interesses de grupos rivais de maneira a anular completamente a oposição. Na segunda metade de seu mandato, a cisão partidária havia sido superada com a reintegração de antigos próceres, como o proprietário de “O Estado de S. Paulo”, Júlio de Mesquita.

Resolvida essa questão, Altino pode estruturar os acordos necessários para alçar a candidatura do conselheiro na sucessão de Venceslau Brás, que foi exitosa. Entretanto, Rodrigo Alves faleceu antes de tomar posse, sendo convocada nova eleição pelo vice Delfim Moreira para abril de 1919. Foi neste momento que Altino chegou a ter seu nome veiculado como possível candidato, mas desentendimentos entre os chefes do partido e a oposição de outros estados, sem o qual não haveria acordo possível, minguaram aquela possibilidade. Altino voltaria à carga na sua própria sucessão, indicando mais uma vez o nome de Washington Luís, mas teve de costurar apoios e mais uma vez superar oposições, levando o prefeito da capital ao Palácio dos Campos Elíseos.

Como era a relação entre Altino e o presidente da República no período, o mineiro Venceslau Brás?

Mendonça — Pelo que percebemos das notas no diário, Altino mantinha uma relação cordial com o mineiro Venceslau. Quando Altino assumiu o governo paulista, Venceslau encontrava-se no meio de seu mandato e sua eleição havia sido proposta pelos mineiros que vetaram a candidatura do gaúcho Pinheiro Machado, em conciliação com os paulistas que se opunham a Rui Barbosa. Daí, Venceslau se lançou com o apoio de outros estados.

É preciso lembrar que cada eleição na Primeira República, na ausência de partidos nacionais, surgia de acordos tecidos entre os diferentes entes federativos, dependendo de circunstâncias conjunturais específicas, sendo difícil afirmar que existiu propriamente uma política do “café com leite”, que as pesquisas historiográficas mais atualizadas revisaram. Um excelente trabalho que ilustra esta questão é o de Cláudia Maria Ribeiro Viscardi, “O Teatro das oligarquias: uma revisão da ‘política do café com leite’”.

O que havia era uma estratégia de conciliação, na qual São Paulo ce­deu seu protagonismo na esfera fe­de­ral a partir do final do mandato de Rodrigo Alves, em 1906, em troca da manutenção da política de valorização do café, espécie de “pedra de toque” para garantir as vantagens econômicas e uma polpuda arrecadação gerada pelo imposto de exportações. Altino negociou intensamente a candidatura de seu mentor conselheiro Alves a sucessão de Venceslau.

Havia alguns impedimentos, a avançada idade do conselheiro e seu estado de saúde, que tornavam sua candidatura algo um tanto arriscada; mas, em meados de 1917, a solução para o caso foi aceitar como vice na chapa o mineiro Delfim, selando o apoio do líder gaúcho Borges de Me­dei­ros, Nilo Peçanha e do próprio Venceslau. Como se sabe, o conselheiro venceu o pleito, mas acabou falecendo antes da posse co­mo uma das vítimas da pandemia de gripe espanhola, encerrando o sonho de Altino de ver um paulista reassumir o poder e, quiçá, ele mesmo ambicionasse sentar um dia na cadeira presidencial.

Estendo a pergunta para as relações entre Altino e Washington, considerando que o sr., professor Mendon­ça, escreveu o livro “Washington Luís na administração de São Paulo (1914 – 1919)”, editado pela Unesp.

Mendonça — É interessante esta menção, pois a trajetória de ambos é de alguma maneira o reflexo de como funcionava o sistema político da época. Altino se referia ao período em que, como uma espécie de “advogado da roça”, havia se iniciado nas lides políticas pelas mãos do fluminense Washington, que havia se mudado para Batatais, município cafeeiro localizado no nordeste paulista, servida pelos trilhos da estrada de ferro da Mogiana, ainda no início dos anos 1890.

Altino era filho de um coronel influente em Batatais. Depois de estudar no Colégio São Luís, em Itu, teve a ajuda de Washington para ingressar na Faculdade de Direito de São Paulo (o famoso Largo do São Francisco). Washington conquistou enorme clientela endinheirada e elegeu-se vereador. Nas memórias sobre este período, Altino revela que, após a formatura, fez sociedade com seu amigo e fundaram um jornal oposicionista, mas acabaram ficando em campos opostos quando seu tio o convocou para organizar o diretório do PRP, pois sua família era socialmente ligada aos Junqueira de Ribeirão Preto.

O casal de professores Robson Mendonça Pereira e Sônia Maria de Magalhães se debruçou sobre os escritos do político paulista Altino Arantes, presidente do Estado de São Paulo entre maio de 1916 e maio de 1920

O casal de professores Robson Mendonça Pereira e Sônia Maria de Magalhães se debruçou sobre os escritos do político paulista Altino Arantes, presidente do Estado de São Paulo entre maio de 1916 e maio de 1920

Washington foi presidente da Câmara e depois prefeito, quando se mudou para capital paulista para ocupar a cadeira de deputado estadual. Alguns anos depois, Altino foi eleito deputado federal. Vieram a se encontrar novamente como membros do secretariado do governo de Albuquerque Lins (1908-1912). Quando Altino assumiu a presidência do Estado, parecia ter levado a melhor, pois Washington angariara o posto de prefeito da capital que se encontrava em estado de solvência financeira grave.

A relação entre eles se tornou tensa neste período e pode ser aferida pelas reclamações registradas por Altino pelos arroubos e gestos impulsivos do prefeito que, constantemente, ameaçava renunciar ao cargo por motivos banais. Mesmo assim, Altino bancou Washington em suas empreitadas; primeiro, quando pediu o restabelecimento da eleição direta para prefeito da capital, quando convenceu os cardeais do partido a aprovarem a lei com a garantia de que o mesmo fosse reconduzido ao cargo. Liberou recursos e ajudou Washington a aprovar um empréstimo externo para dar fôlego a alguns projetos urbanísticos paralisados devido à guerra e à crise cafeeira. E, ao final, ainda es­co­lheu Washington como seu sucessor no governo estadual. É im­portante dizer que Washington não teve a mesma condescendência com o fiel amigo, pois alçado ao posto em 1920, afastou-se de Altino e isolou seu grupo politicamente.

Como se deu o acesso à documentação que compôs o livro?

Sônia Maria — Começamos a trabalhar com os diários no início dos anos 2000, ainda no doutorado. A documentação, cópia do diário, está guardada no Arquivo do Estado de São Paulo. Somente em contato com as herdeiras que descobrimos os originais na Academia Paulista de Letras. No início da investigação, tínhamos somente a preocupação de explorar a fonte para pesquisas históricas. No processo de transcrição do diário, contamos com o apoio de vários alunos bolsistas da UEG. Não pensávamos em publicar; este interesse surgiu muito tempo depois quando tínhamos transcrito vários cadernos que demonstraram o enorme potencial da documentação e a importância da sua divulgação.

O contato com os parentes do Altino aconteceu muito recentemente, há uns três anos. Depois de muito procurarmos, conseguimos o telefone de duas das suas netas, a Maria Sylvia e a Theresa Christina, que residem na capital de São Paulo. Tivemos a primeira conversa por e-mail; ocasião em que mandamos o manuscrito do livro para apreciação das duas. Em seguida, marcamos um encontro com elas na residência de Theresa. A conversa foi ótima, reconheceram a seriedade do nosso trabalho e autorizaram a publicação.

Foi um alívio para nós, pois, na ocasião, a questão da publicação de biografias sem autorização prévia estava na pauta do dia, gerando debates calorosos; ora a favor ora contra a divulgação deste tipo de literatura. Para nós, que trabalhamos com história, esse impedimento dificulta o nosso ofício. No ínterim, foi aprovado o Projeto de Lei 393/11, afiançando a autorização de publicação de biografias sem autorização do biografado, garantindo a democratização das informações. Resolvida esta questão crucial, a publicação veio em seguida.

O sr. é especialista em “escrita de si”, o estudo de diários, memórias, autobiografias e similares. “O Diário Íntimo de Altino Arantes” se insere nesta linha de pesquisa. De que forma os relatos autorreferenciais devem ser encarados pelo historiador? Quais os limites da interpretação? Existe o perigo de se acreditar “demais” no autor?

Mendonça — Os cuidados que historiadores e outros pesquisadores devem ter com os escritos autobiográficos são quase os mesmos que se adotam em relação a outras fontes. O procedimento consagrado por Marc Bloch, da atitude de “desconfiança” em relação aos interesses que permeiam a produção das fontes, é perfeitamente aplicado aos documentos de caráter subjetivo. Pierre Bordieu coloca perfeitamente o problema específico deste tipo de fonte, assinalando-o como “ilusão biográfica”, ao considerar que seria falaciosa a afirmação de que uma vida é uma história, não sendo, portanto crível a concepção de linearidade proposta pelo discurso biográfico. Fazia como afirma Ângela de Castro Gomes, um alerta aos historiadores para que não se deixassem levar pelo sedutor “efeito de verdade” da escrita autorreferente.

No entanto, é inegável que, na era moderna, conforme Artières, os indivíduos são levados a arquivar as próprias vidas e, neste processo de guarda de materiais, poderíamos incluir aqueles diretamente relacionados à escrita de si (autobiografias, diários, cartas) ou à constituição de uma memória de si (fotografias, cartões-postais, etc.). Caberia afirmar que se trata de um dispositivo de resistência por parte do sujeito que deseja constituir uma imagem íntima de si próprio.

Neste processo, manipulamos a existência, rasuramos, riscamos, sublinhamos ou damos destaque a certas passagens de nossas vidas. Só é possível entender a vida de alguém levando em conta o contexto no qual esta pessoa viveu, o grupo social no qual se inseriu; trata-se de uma operação historiográfica rigorosa e, ao mesmo tempo, imaginativa, que tem certa similaridade com o procedimento adotado pela micro-história.

Como a “escrita de si” pode ser utilizada na didática e no ensino de História em nível superior e mesmo em salas de aula do ensino médio e fundamental?

Sônia Maria — O uso da “escrita de si” na licenciatura em História e nos cursos da pós-graduação possui enorme potencial. O diário de Altino, em particular, apresenta possibilidades inesgotáveis como fonte. Colabora ainda no estudo da mentalidade vigente entre as elites letradas e econômicas de um Brasil que se defrontava com as dificuldades de inserção no mundo moderno capitalista na Primeira República (1889-1930).

Como material didático para o ensino de história, ele possui características peculiares que não se encontram em livros didáticos e outras fontes correlatas à área. O diário apresenta a trajetória pessoal e política de um indivíduo que galgou a vida pública no alvorecer da República. O relato é feito na primeira pessoa; são impressões e posicionamentos pessoais e não podem ser encontradas em outro lugar.

Relativiza também aquela ideia tão difundida pela história tradicional de que certas pessoas já nascem “prontas” para ser ator principal da história. Claro que ele teve uma preparação prévia para assumir a política, anos de capacitação no curso de direito do Largo de São Francisco. A sua formação humanística, bem como o domínio de vários idiomas, também ganham destaque nas suas missivas, denotando as grandes diferenças entre a preparação para carreira política do início do século 20 e dos dias atuais.

Como homem, pai e político, Altino mostra todas as suas inseguranças diante de seus vários papéis sociais. Evidencia, sobretudo, que o protagonismo na história é construído diariamente conforme as demandas vão se impondo.

Altino foi um homem de vida social intensa. Como o cenário cultural da Belle Époque paulistana foi vivenciado por ele?

Mendonça — Na verdade, a cena cultural paulistana deste período era bastante restrita se comparada à carioca, por exemplo. Havia uma tentativa de criar espaços de convivência para a alta sociedade, de imitar o gosto estético e atrair trupes e grupos teatrais que se apresentavam na capital federal. Altino costumava participar das temporadas líricas que ocorriam geralmente no segundo semestre de cada ano. O diário é rico de registros da passagem de companhias operísticas que se apresentavam costumeiramente no Teatro Municipal, apresentando quase sempre um mesmo roteiro ao gosto do romantismo oitocentista da elite paulistana, apreciadora de Verdi, Puccini, Rossini, Donizetti e de outros compositores italianos.

Frequentava também operetas e assistia aos filmes em cinematógrafos improvisados. Quase sempre se fazia acompanhar de algum conhecido. Havia os passeios de automóvel ou corso na avenida Paulista, excursões ou raids para cidades no interior e as temporadas no balneário do Guarujá, onde se hospedava num hotel-cassino.

Livro Washington Luís

Altino muito se relacionou com o fluminense Washington Luís, que é estudado no título acima; obra também do professor Robson Mendonça

Sônia Maria — Uma das notáveis possibilidades do diário de Altino é recriar uma agenda cultural para a cidade de São Paulo, nas primeiras décadas do século 20. As óperas no Teatro Municipal, os espetáculos teatrais e musicais mais o cinema de­mons­tram a dinâmica da vida cultural da elite paulistana. Sabe-se que os segmentos sociais inferiores consumiam cultura: operetas, ci­nematógrafos, danças, eventos humorísticos e outras coisas; mas não aparecem referências no diário.

Os pobres insurgem na fonte como categoria perigosa que de­via ser reprimida, a exemplo dos o­perários da greve de 1917. As passagens que também gosto muito se referem às várias temporadas do Altino e seus meninos no hotel La Plage no balneário do Gua­rujá. Fico imaginando como era a viagem de trem rompendo a Ser­­ra do Mar até a estância. O be­lo hotel, extremamente requintado, destruído num incêndio em 1897, reconstruído por Francisco de Paula Ramos de Azevedo em 1912.

A beleza e as instalações sofisticadas deste hotel foram difundidas para o mundo inteiro por meio de fotos, cartões postais e pinturas. Nessa época não havia o costume difundido de tomar banhos de sol e de praia. Altino buscava paz e descanso, uma fuga da sua vida exaustiva e responsável como governante. Mas até neste lugar paradisíaco encontrava meios de se enlutar. Maria surgia em meio às brumas tão costumeiras nas praias de São Paulo.

Altino tinha pretensões ao cargo de presidente?

Mendonça — Exploro melhor esta questão em artigo que publiquei juntamente com Sônia Maria na revista Topoi, em 2013. O processo de desgastante negociação que levou a oficialização da candidatura do conselheiro Rodrigues na Convenção Republicana, em junho de 1917, na qual Altino se envolveu fortemente, levou ao seguinte registro em seu diário: “Com este resultado, que restitui ao Estado de São Paulo a sua hegemonia política na federação, considero terminada a missão de meu governo na ordem externa”.

Este comentário não é trivial, pois revela a dimensão do cargo que ocupava, como se São Paulo fosse um país dentro de outro país. Alguns autores chegam a comentar que, dado o peso econômico e político de São Paulo no sistema federativo, fosse mais importante ser presidente paulista do que presidente do Brasil — o que talvez não deixasse de ter a sua verdade. Porém, é uma ilusão achar que Altino não aspirasse chegar ao Palácio do Catete.
Seu nome chegou a ser aventado quando da crise sucessória, momento em que Delfim, então presidente interino, convocou novas eleições para maio de 1919. Por não obter apoio dentro de seu próprio partido e ter sua indicação recusada pelos mineiros, desistiu momentaneamente do intento. Fez como Arthur Bernardes, presidente de Minas, que buscou se fortalecer dentro de seu estado. Na sucessão seguinte, Bernardes levou a melhor, pois Altino não pode contar nem sequer com um gesto de apoio da parte de Washington, que tinha suas próprias ambições de poder.

Num registro preliminar, Altino escreveu que “este caderno de notas intimas é absolutamente privado. Destina-se (…) à destruição do fogo purificador. Se alguém, entretanto, der por qualquer forma, publicidade a ele (…) terá traído o meu pensamento e contrariado formalmente a minha vontade”. Obviamente, não se discute aqui o registro histórico como superior a pretensa vontade do autor. Minha pergunta toma outra direção: o propalado desejo de destruir os textos era real ou fazia parte da “mise-en-scène” de quem escrevia um diário?

Sônia Maria — Esta é uma questão interessante, pois essa reserva do autor, quanto ao resguardo de sua privacidade, é na verdade muito comum neste tipo de escrita de si. Poderíamos ver isto sob o ponto de vista da psicanálise e, neste sentido, Contardo Calligaris assinala que o escrito autobiográfico é fruto de uma cultura na qual o indivíduo passa a situar “sua vida ou seu destino acima da comunidade a que ele pertence”; o que importa, neste sentido, é o desejo individual de permanecer, de durar, de “sobreviver pessoalmente na memória dos outros”.

Mendonça — É muito claro que Altino expresse este desejo ao assinalar a intenção original que o levou a feitura do diário: produzir um relato de sua experiência como governador para, de alguma maneira, resguardar sua imagem para posteridade. Não se trata, é claro, de um esforço qualquer, pois ele se dedicou com afinco nos seus registros até o último dia na presidência do Estado. Desta maneira, entendemos que a afirmação de que o diário se destinava ao aniquilamento não procede.

A apresentação do livro é, ao mesmo tempo, um estudo sobre o contexto de época e uma análise detida sobre a personalidade de Altino. Emerge daí não apenas o político, mas também o pai de família, o viúvo enlutado, o homem de cultura, o espectador de cinema e de ópera, o torcedor de futebol e diversas outras facetas. Existe uma chave interpretativa para estas, como vocês chamaram “muitas faces de Altino Arantes”? Ou seja: existiu algum “rosebud” na vida dele?

Mendonça — Acredito que se existe uma “chave interpretativa” para entender esse diário está, então, no profundo sentimento de ambiguidade vivido por Altino, perceptível desde o primeiro registro no diário. O cenário da posse como presidente de Estado é descrito de maneira intensa, no qual dois sentimentos contrapostos o afligem: a sensação do poder conquistado ainda jovem e a ausência sentida da amada esposa. Esta tensão o aflige e permeia o diário, recheado de notas alusivas a Maria Theodora, mesmo depois de seu segundo casamento.

Sônia Maria — Além de ser uma personalidade pública, Altino assumiu, sozinho, a função de pai de dois filhos; o Paulo e a Stella. Avocar a paternidade após a morte da sua esposa não foi tarefa fácil, obviamente. Na sua escrita íntima, ele sempre lamenta esta dificuldade, questionando se estava cumprindo devidamente a função; ele olhava para os seus filhos com angústia e tristeza bastante tocantes. A sua agenda de entretenimento, aparentemente, parece muito extensa: cinema, futebol, teatro, visita aos amigos e outras coisas. Ele comprometia vários dias da semana. Mas, naquela época, São Paulo ainda não era uma metrópole e estas recreações serviam também para fazer contatos com pessoas importantes, bem como negociações políticas.

Também eram costumeiras as visitas na Vila Kyria do José de Freitas Valle, onde tinha encenações de peças teatrais, música e degustação de comidas e bebidas preparadas pelo dono da casa. Da mesma forma, visitava diariamente o túmulo da finada Maria Theodora; ocasião em que demonstra que nem seu ingresso na presidência do maior Estado da nação e tudo aquilo que sobreveio desta ascensão política consolavam a sua dor e luto. Parece que a vida pessoal de Altino parou no momento em que a sua esposa faleceu, evento recorrente em seu diário íntimo.

Por meio das orações de um devoto fervoroso, quase um beato, rezava o rosário todas as noites e participava das missas dominicais — meio que encontrou para aproximar-se da finada que nunca sepultou de verdade. Recorria a ela todas as noites, buscando conselhos cruciais para a administração do Estado de São Paulo, bem como no trato com os seus filhos. Era nesta personagem perecida que a sua vida era feliz de verdade. Neste aspecto existe um paradoxo: a vida e a morte. Esta última parece ser a mais recorrente razão da sua existência e, muitas vezes, pediu por ela. Queria morrer para se juntar a Maria. Não sei se existiu “rosebud” na vida de Altino Arantes, mas Maria era o símbolo da candura, do amor, da perfeição, da segurança e da felicidade.

Altino é apresentado como uma figura profundamente paulista. Talvez até mesmo como um símbolo de São Paulo. Nesse sentido, existem, em seus diários íntimos, referências às relações dele com outros estados, particularmente com Goiás?

Sônia Maria — Acredito que sim, que Altino personificava a imagem de São Paulo, sobretudo a sua modernidade. Este cosmopolitismo foi vinculado ao Edifício Altino Arantes (também conhecido como edifício Banespa), considerado uma das construções mais emblemáticas da capital paulista. É interessante perceber como ele foi galgando esta projeção e se tornando cada vez mais distante da sua origem interiorana de Batatais. Esta cidade aparece somente em alguns momentos, sobretudo quando tem que visitar algum parente doente ou receber, no seu gabinete, políticos e pessoas comuns solicitando favores ou quando relembra seu início de carreira com Washington.

Goiás abrolha nas missivas, principalmente, nas suas relações políticas com José Leopoldo de Bulhões Jardim e Brasil Ramos Caiado — membros do Partido Republicano Goiano. Existe um fato curioso relacionado a Altino s e a história de Goiás que não está no diário: poucas pessoas conhecem e merecem ser relembrado. A notícia do achado da cruz do Anhanguera, em 1914, na Fazenda Casados, situada em Catalão, ganhou repercussão nacional. Nesta ocasião, o governo de São Paulo tentou disputar este artefato com Goiás.

De acordo com as pesquisas empreendidas, o historiador Antônio César Caldas Pinheiro, o presidente de Estado Altino chegou a nomear uma comissão para verificar pessoalmente o valor do achado, visando levá-la para compor a exposição permanente do Museu do Ipiranga. Posteriormente, o presidente de São Paulo Washington tentou adquirir a famosa cruz, oferecendo uma quantia vultosa no valor de 15 contos de réis (tendo em vista o câmbio de 1920, quando um dólar equivalia a 4.800 réis, este valor alcançaria a soma atual de R$ 300 mil). Mas, o doutor Luiz do Couto, presidente do Estado de Goiás, recusou a oferta e pôs um ponto final nesta história. Para ambos os estados, a cruz do Anhanguera representava um passado mítico, permeado por conquistas e grandezas evocando os destemidos bandeirantes como construtores da identidade nacional.

Para terminar, como é a dinâmica de trabalho de um casal de historiadores?

Sônia Maria — A nossa maneira de trabalhar é bem organizada. O arrolamento das fontes e transcrição dos manuscritos são feitos ora em conjunto, ora separado. Ou seja, fazemos o reconhecimento dos documentos e, em seguida, dividimos as partes que cada um trabalhará. Os debates e discussões são frequentes em todas as etapas. A transcrição é uma das fases mais difíceis e complicadas, pois temos que ser fiéis ao documento, a checagem e confronto de informações são constantes.

Há de se registrar que a letra do Altino é difícil de ser lida; situação que nos obrigava retornar ao texto inúmeras vezes. A análise e crítica são feitas posteriormente, geralmente por meio da redação e divulgação de resultados parciais de pesquisa na forma de artigos. Nesta parceria como historiadores, temos uma oportunidade rara e cada vez mais difícil no nosso meio que é o diálogo e a conversa constantes. O Mendonça é meu precioso interlocutor. Nesta relação, considero-me a mais pragmática, o Mendonça mais rebuscado e aplicado aos detalhes. Combinação bem interessante no nosso ofício de historiador.

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