“Despachos do Front” é a carne do filme de Coppola

Há 50 anos, o jornalista correspondente de guerra americano Michael Herr publicou uma reportagem na revista “Esquire”, transformada em livro que alimentaria o roteiro do filme “Apocalypse Now”; ambos se fizeram clássicos

Soldados sul-vietnamitas lutando junto com os americanos na guerra contra vietcongues (sul-vietnamitas que defendiam o outro lado) e norte-vietnamitas, no sangrento campo de Khe Sanh

Por uma questão de prestígio, sempre que se vai falar da fonte narrativa de “Apocalypse Now”, fala-se apenas de “Coração das Trevas”, clássico da literatura mundial escrito por Joseph Conrad. Mas o conteúdo de “Despachos do Front”, de Michael Herr, sustenta o filme de Francis Ford Coppola.

Publicado em 1977, o livro é derivado de uma reportagem de 1968 publicada na revista “Esquire” sobre a Guerra do Vietnã (1955-1975), cujos direitos autorais foram logo comprados por Coppola.

Herr não assina o roteiro, mas aparece nos créditos como autor da narração em off do filme, na voz do protagonista, capitão Willard (Martin Sheen). Seu livro, no entanto, fez muito mais. Embora o romance de Conrad empreste uma espécie de alma à trama de “Apocalypse Now”, a musculatura do filme é toda de “Despachos”.

O livro de Herr nos ensina muitas coisas, como o fato de que a guerra é o lugar onde se vê mais do que é necessário para se dizer experiente sobre a vida. O livro de Herr nos lança na noite da violência insana, no epicentro de uma troca de mortes onde ninguém se livra da sensação da barbárie, e quanto mais rápido você se une a ela, mais rápido você se salva do sofrimento de ter de senti-la como algo anormal. Mais rápido você se lança no absurdo.

Guerra é isso, diz Herr, que tinha 27 anos quando desembarcou em Saigon, em dezembro de 1967. Guerra é uma espécie de faculdade hard core, onde todos estudam a mesma coisa, mas se você for morto, não se forma. Herr não se formou, e precisou de muitos anos de psicanálise para se ver livre de algumas neuroses, porque de outras, nunca se livrou até sua morte, em Nova York, em 2016, mesmo nunca mais tendo ido a uma guerra.

Seu livro permanece vivo. Quem o ler, não verá do mesmo jeito “Apocaly­pse Now”, nem “Pla­toon”, de Oliver Sto­ne, ou “Nascido pa­ra Matar”, de S­tanley Kubrick, nem qualquer outro grande filme de qualquer guerra posterior, porque todos, de um modo ou de outro, passam pela perspectiva de cobertura de guerra do maior jornalista desse campo.

Os mortos

“Despachos do Front” é impa­c­tante ainda hoje. As cenas do livro que denunciam algum tipo de de­sespero são muitas. “Às vezes, você voava com mortos”, diz Herr sobre uma dessas cenas. “Certa vez eu pulei num helicóptero cheio deles.”

“Eles não estavam sequer em sacos”, continua o jornalista. “Havia um pequeno espaço para mim e para o atirador, que sempre ficava na porta. (…) Quando decolamos, o vento soprou para dentro do helicóptero, sacudindo os ponchos até que o que estava perto de mim foi arrancado numa puxada brutal, deixando o rosto exposto. Eles não haviam nem fechado os olhos dele.”

Quando lemos um relato pungente como esse, o mínimo que queremos é o cerne da questão da guerra. Mas quando encontramos algo tão central e tão simples como a fala de um soldado, e essa fala bate com a mais fina literatura, descobrimos que o autor superou o fim jornalístico e alcançou os estratos da literatura.

Descobrimos que o jornalista atingiu o cerne da linguagem literária não com o que poderia ser, mas com o que é. Em outras palavras, a competência do jornalismo literário foi alcançada. No livro “Grande Sertão Veredas”, há um parágrafo de meia linha que define a guerra entre os jagunços de Joca Ramiro e os de Hermógenes, quando Riobaldo diz o seguinte: “Atirei. Atiravam”.

Esse parágrafo no romance de João Guimarães Rosa é o osso da descrição de um combate. No livro de Herr, um soldado dá o veredito do espírito da guerra ao descrever a mesma coisa dizendo o seguinte: “Se não é a porra dos tiros que eles dão é a porra dos tiros que nós damos”.

Morte, medo e rock’n roll

A fineza da narrativa de Herr é incomum. Ele se cerca de espaço e tempo como nenhum outro repórter, e entre essas duas trincheiras, coloca a alma dos soldados, a alma toda, e o leitor consegue ver o rastro volátil e triste dessa alma, essa alma jovem, essa alma vigorosa e cheia de vida, que vai se desfazendo nas brumas da guerra (“homens caçando homens” para matar).

O leitor acompanha essa alma se esvaindo, gastando sua preciosa aura, sua paixão, até sobrar muito pouco na volta para casa, quando volta, quando não volta apenas o invólucro dela, silencioso e oco, e às vezes, ainda assim, incompleto, e às vezes, ainda assim, nem isso. Na guerra, às vezes, o que sobra é só a lembrança e um nome condecorado.

A loucura, o medo, a raiva, o devaneio e a morte – em raro oásis de alegria e farra, que amiúde surge apenas como disfarce das neuroses que brotam e se instalam – estão a céu aberto, no meio dos soldados, fincados nas trincheiras. Para manter a verve pulsando para frente, eles usam a música, “rock and roll do cassete num ouvido e rajadas da metralhadora da porta no outro”, em meio ao som do helicóptero, que completa o concerto nefasto.

Os horrores vão entrando na narrativa de Herr como educados vampiros convidados a participar de uma ceia. E de repente, o leitor também está no meio da teia. “Diziam que se você ficasse na base de uma coluna de fumaça de napalm, ela arrancava o ar direto de dentro de seus pulmões”, diz o jornalista em um trecho.

Você sai do modo vida-como-filme e entra na guerra-como-filme, mas logo a violência e o medo encarregam de fazer você entender que está mesmo é dentro da guerra-como-vida, e é tudo que se tem. Quem pode, como os jornalistas, sente apenas medo. Quem não pode, enviado para os fronts para matar ou morrer, se não consegue agir, fatalmente morrerá mais depressa.

“Às vezes seu medo ia em direções tão loucas que você tinha que parar e prestar atenção à trajetória. Esquece o congue, as árvores podem te matar, o capim-de-elefante se tornou homicida, o chão que você pisa foi possuído por uma inteligência maligna. (…) E era um privilégio somente ser capaz de sentir medo.”

Kurtz and Lurps

Essa paranoia assume as diretrizes da guerra. Essa paranoia é a herança maior, o saldo levado para casa de quem sobrevive. No redemoinho da angústia surgem as características do que viria a ser o coronel Kurtz de “Apocalypse Now”, um homem que perderia o medo de morrer e assimilaria o horror como essência de si mesmo, tal como o Kurtz de “Coração das Trevas”.

O homem descrito por Herr, com quem ele conversou, a quem ele observou, de quem ouviu falar muitos relatos, era um dos lurps, “patrulheiros de reconhecimento de longas distâncias, que faziam saídas noite após noite por semanas e meses a fio, esgueirando-se perto de campos de base VC (vietcongue) ou em torno de colunas móveis do Exército norte-vietnamita”.
Esse lurp, fonte de Herr, consumidor de inúmeras pílulas e bolinhas de anfetaminas, “era capaz de ver a selva noturna como se estivesse olhando através de uma lente feita da luz das estrelas”. Uma vez, conta o jornalista, “teve de se esconder debaixo dos corpos de seus companheiros enquanto o VC inspecionava as baixas”.

Esse lurp tinha muita história para contar, principalmente de paranoias e do universo paralelo ao dos meros mortais que cobriam a guerra, o universo marcado pelo nonsense da guerra e pela violência. “Ele me contou que, quando voltou para casa da última vez, ficava sentado em seu quarto o dia inteiro, e que às vezes punha um rifle de caça na janela e ficava seguindo, pela mira da arma, as pessoas e os carros que passavam.”

Esse lurp “sempre parecia estar de tocaia, acho que dormia de olhos abertos”. O rosto dele “vivia pintado de camuflagem noturna”, e nas horas seguintes “ele ficaria tão invisível e imóvel na selva quanto uma árvore caída, e que Deus tivesse pena de seus inimigos”.

Os combatentes de qualquer unidade, do exército ou da marinha, não chegavam aos pés de um lurp. “Não importa o quanto eles tivessem sido enrijecidos pela guerra, ainda pareciam inocentes quando comparados com os lurps.”

A guerra era um campo devastador de esperanças, era um ambiente autofágico, um espaço devorador de si mesmo, com todos dentro. A Guerra do Vietnã era “um poço vivo e sem fundo de lurps, seals (tropa de elite para operações especiais), batedores, boinas-verdes, mutiladores, estupradores barra pesada, pistoleiros, fazedores de viúvas, vampiros”.
Herr conhecia o perigo de estar ali, e transitava entre todos esses tipos. Ele cobria a guerra locomovendo-se entre um front e outro, como Khe Sanh (sitiada por 11 semanas pelos vietcongues, libertado pela Operação Pégaso, em abril de 1968), Dong Ha, Danang, ao longo do Rio Perfume, Cam Lo, entre outros campos.

A questão da noite traça um paralelo importante com a temática de “Coração das Trevas”. “A noite era o ambiente mais verdadeiro da guerra”, diz Herr. “E era lindo à noite. Até mesmo o fogo inimigo era lindo à noite, lindo e profundamente aterrorizante.”

Michael Herr (1940-2016), autor de “Despachos do Front”, livro emblemático, cujos ecos reverberaram em todos os grandes filmes sobre guerra

Como cachimbos de ópio

À noite, o medo e o torpor da guerra causavam efeitos psicodélicos no jornalista, atmosfera muito presente na narrativa de seu livro que foi transportada completamente para “Apocalypse Now”. “Às vezes, dormir em Khe Sanh era feito dormir depois de alguns cachimbos de ópio.”

Como jornalista, Herr conseguiu captar as filigranas daquele universo, suas implicações políticas, mas sobretudo, a vida em sua brutalidade e doçura, a vida com o jovem rosto dos americanos sacrificados (muitos deles “vindos do Sul e do Meio-Oeste, de fazendas e pequenas cidades rurais”), a vida em sua magistral capacidade de se adaptar, e o preço pago por essa adaptação.

Nunca mais ninguém poderia ser o mesmo no regresso à pátria após 13 meses no inferno, a maioria voltava, mas não como foram. Nunca mais. Não me refiro aos generais, que poderiam sobreviver muito bem em seus bunkers, mas aos pelotões de frente, soldados, comandantes imediatos que se brutalizavam para sobreviver, treinados para matar sem pensar, porque o segundo entre a reflexão e a decisão a ser tomada poderia lhe custar a vida.

Do outro lado da guerra, a recíproca era verdadeira. Ninguém se salvava naquela selva. Os relatos sobre o que os soldados americanos faziam com os vietcongues (vietnamitas do Sul lutando contra os americanos) e os vietnamitas do Norte são de pura selvageria.

Rastros…

Leitor da fina literatura, Herr sempre soube como incluir na tessitura de sua trama os elementos da narrativa dos clássicos literários, como Stendhal, Conrad, Tolstói (ao citar “Guerra e Paz” apenas com estas palavras: “éramos dúzias de correspondentes lá em cima, como aristocratas vendo Borodino das alturas”), Charles Dickens, Ernest Hemingway, George Orwell e Stephen Crane.

“Apocalypse Now” é tido como o divisor de águas dos filmes de guerra. Mas o é graças à visão de Herr, ao seu modo de contar a história da Guerra do Vietnã tão crua e rica de nuanças humanas, tão replena de morte e de resistência da vida, de sonhos e pesadelos horrendos, de almas ingênuas que amadurecem e se amargam ou morrem antes de entender o significado de sua ida para o front.

A guerra, como explicita o jornalista, estava cheia de almas brilhantes que poderiam ter se tornado nomes importantes na malha do sonho americano de liberdade. No entanto, elas viraram gravuras em lápides e em medalhas dependuradas em paredes tristes ou guardadas em gavetas que jamais foram abertas.

No jogo insano do conflito, a morte não era “privilégio” de soldados. Correspondentes também tornavam-se presas de enredos macabros. Muitos morriam. Muitos eram feridos ou mutilados, como foi o caso do jornalista brasileiro José Hamilton Ribeiro, citado como estatística por Herr, sem mencionar seu nome, que perdeu a perna ao pisar sobre uma mina, exatamente em 1968.

E trilhas

Algumas partes de “Despachos do Front” devem ser lidas ao som de Aretha Franklin e Jimi Hendrix, outras sob a voz de Bob Dylan cantando “Visions of Johanna”. Muitas canções foram citadas ao longo do livro de Herr, não por ele querer inculcar seu gosto na preferência dos leitores, mas porque a guerra tinha sua trilha sonora.

Em 1968, o conflito foi invadido por uma onda libertadora de rock and roll, folk-rock e soul. O barulho dos tiros e dos helicópteros competiam com o som das músicas nas rádios das Forças Armadas americanas.

The Rolling Stones, com “Satisfaction”, Ottis Redding, com “Sitting on the Dock of the Bay”, Buffalo Springfield, com “For What it’s Worth”, Joan Baez, cantando “Where Have All the Flowers Gone?”, Mothers of Invention, Airplane, Frank Zappa, Grateful Dead, “banda de rock psicodélico, jazz e blues”, e The Doors, “com seu som distante, gelado”, todo mundo invadia tormento da guerra, tentando aliviar de algum modo a tensão permanente no ar.

A reportagem de Herr virou livro e filme revolucionários porque ele deixou de conversar com os oficiais e foi se enturmar com os pracinhas. Enfurnou-se no campo de batalha, ouvindo mais do que perguntando. Foi assim que ele fez a diferença em sua cobertura.

Foi assim que ele fez emergir a atmosfera hostil da guerra junto ao olor fresco do discurso pela liberdade nas canções em pleno ano de 1968, o mais emblemático do século 20 para a juventude, que já estava de saco cheio da guerra.

Mil novecentos e sessenta e oito, diz Herr, tinha esquentado o ânimo da sociedade ocidental, sobretudo dos jovens. “Tinha sido tão quente que acho que deu um curto-circuito em toda a década.” E deu mesmo, nas décadas seguintes.

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