Desculpe pela porta, amor

Reprodução

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Natânia Carvalho
Especial para o Jornal Opção

A minha ingratidão vale mais do que todos os seus sorrisos juntos, porque agora, só agora, sei que devia ter te procurado mais cedo. Deveria ter gritado seu nome na rua, ter levantado naquele feriado, deveria ter te seguido, te intimidado, te assustado.

Você veio tarde. Tarde como seus meios risos tortos, quebrados, incompletos, sempre atrasados.

E, então, você gritou. Jogou coisas fora. Esmurrou o próprio peito. Brincou com as veias do pescoço. E eu não me mexi. E você ficou vermelha. E quebrou as coisas que havia jogado fora. E arrancou os cabelos. E eu só pisquei duas vezes, embora você não tenha notado.

Senti a porta fechando atrás de mim. Com força. Sua raiva controlava o vento, batendo a maçaneta de novo e de novo e de novo, como uma balada furiosa. E eu não fiz nada, por que era a primeira vez que eu via sua alma; ela era vermelha, quente, salgada e ficara presa no fecho, perto da maçaneta que ainda vibrava.

Empurrei a porta, puxei a alma e vi o momento exato em que sua fina membrana se partiu.  Eu vi a dor, o tecido, o pulsar, mas eu queria o

quente,

o vermelho,

o sal.

Natánia Carvalho é jornalista.

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