Decurso de quedas

Em “Paisagem de Porcelana”, Claudia Nina dá voz a uma protagonista atacada por diversos níveis de opressão, que desmorona passivamente

 

Claudia Nina, autora de “Paisagem de Porcelana” | Foto:  Divulgação

Claudia Nina, autora de “Paisagem de Porcelana” | Foto: Divulgação

Sérgio Tavares
Especial para o Jornal Opção

Depois de um longo período se alimentando de enredos e de personagens que compartilhavam um mesmo céu, a literatura brasileira descobriu novos ares além de seus extremos geográficos. Provas fiéis desse olhar extraterritorial são os títulos “Sérgio Y. Vai à América”, de Alexandre Vidal Porto, e aqueles que integram a série Amores expressos, na qual um escritor passa uma temporada num país estrangeiro e substantifica tal vivência numa história de amor. Em seu romance recente, a escritora Claudia Nina também lança mão desse passaporte para instilar sua ficção. “Paisagem de Porcelana” tem a cidade de Amsterdã como cenário para um trama que, de modo transverso, cuida de uma relação amorosa. E, a propósito, sai-se melhor que muitos produtos da coleção supracitada.

Se toda viagem é uma busca, a brasileira Helena não tem a mínima ideia porque viaja. Aposta que impelida a fazer um curso, mas poderia ser para deslindar o paradeiro da ex-noiva de um primo ou topar com o homem da sua vida. Talvez o que a impulsione seja a Holanda dos cartões-postais, “dos bondes atravessando as ruas, bicicletas retendo a pouca ou quase nenhuma poluição evidente, diamantes e museus, cerveja, arenque defumado, campos de tulipas coloridas, mercados de tamancos e de queijos suculentos, batatas fritas grossas e moinhos de vento”. Uma visão edulcorada que fatalmente se revelará o cadafalso para a sucessão de quedas, o desmoronamento interno “do chão para o chão”.

Helena será uma forasteira numa cidade monocromática, encharcada, que se enrudece sob um inverno rigoroso, por onde circulam pessoas que privilegiam o silêncio imperioso, sufocante. Nada é solar ou salubre, um mundo em que nas ruas e dentro das casas é “tudo mal iluminado por luzes tão frágeis”. Com economias limitadas, abriga-se num alojamento universitário onde se protege com roupas inapropriadas e alimenta-se basicamente de pão e de sopa de ervilha. Torna-se uma espécie de animal moribundo que, sem saída, percebe sua pele rareando até ficar invisível.

Então encontra-se com Ernest, holandês com ascendência paquistanesa, por quem desenvolve uma dependência emocional logo após o primeiro beijo, ainda que a declaração seguinte dele seja: “I will kill you”. Mudar-se para o quarto que ele ocupa nos fundos do restaurante do pai é outra vez enceguecer. Os dias se resumem a comer restos dos pratos dos clientes, enfeitados para conformar provas de afeto, e preencher com paixão o espaço restrito para dois corpos na cama. Momentos fugazes de deleite que logo se mostrarão uma armadilha. Ernest é um sujeito sombrio, igualmente implacável em seus atos e inações. Helena é enredada em jogos sexuais dos quais não tem energia para escapar e, em seu retrato da miséria humana, soma-se a submissão extrema.

Com uma prosa madura e afiada, Nina engendra uma atmosfera opressora que, de maneira impiedosa, encerra sua protagonista em níveis esmagadores. A Amsterdã hostil, a cidade em formato de ferradura que, de fato, “é um cofre”, depois os quartos acanhados, fedidos e infestados de insetos e, por último, o exílio em si, a auto-asfixia. Do mesmo modo, a autora é contundente ao tratar do servilismo feminino, traçando um paralelo entre aspectos culturais e a condição de expatriado. Ainda no alojamento, Helena conhece Yasuko, a quem se alia para romper a redoma de mutismo. Casada com um pesquisador universitário interessado unicamente pelo trabalho, a jovem japonesa frequenta uma rotina de serviço ao marido, “manter as camisas brancas sempre brancas, a comida sempre pronta para a marmita do dia seguinte”. A amizade entre ambas é uma válvula de escape, um pacto firmado pelo diálogo que, embora insinuante, tem uma resistência precária. Yasuko é arrastada de volta para seu país natal, cumprindo os valores milenares de uma sociedade na qual as mulheres se submetem aos homens. Quando humilhada por Ernest, Helena traz essa imagem à tona. Por que, dona de seu alvedrio, não consegue se divorciar do relacionamento que a tranca nesse estado de aviltamento? Não acha resposta.

Não há resposta, afinal, somente uma queda maior a frente. E essa ocorre depois que o pai de Ernest descortina seu covil de prazeres escusos e o expulsa do quarto. A perda do conforto e das refeições gratuitas o embrutece e, agora alojados numa morada sem recursos, mira sua repulsa contra Helena que perde de vez todos os elos que a liga ao seu mun­do íntimo, e “começa a estranhar a própria condição de gente”. Suja e faminta, despersonaliza-se, mergulha num abismo psicológico. A narrativa, portanto, ganha ares de devaneio, transforma-se num fluxo que se desgoverna dos trilhos da realidade.

A mesma cena passa a ter diferentes versões, novos personagens funcionam como pontos de respiro, embora suscitem a dúvida se não são projeções de uma mente confusa. Nina incorpora esse efeito movediço à estrutura do romance, acertando ao deixar arestas nas quais se prende o leitor, na tentativa de decifrar essa voz que narra passivamente um decurso de desabamentos. As nuances se avultam e o uso recorrente de me­táforas, ainda que uma opção ar­riscada, favorece a elaboração da linguagem que se utiliza do impacto pa­ra capturas pictóricas, a paisagem tão dura que se assemelha à porcelana.

No entanto é, sem dúvida, a arquitetura dos personagens que concentra a maior carga de envolvimento do livro. Mesmo em participações menores na trama, tal o caso de Yasuko, todos são muito bem delineados em suas características humanas e subjetivas. A desconexão emocional, o desterro, a misantropia e o naufrágio provêm o crescente clima de tensão, de soterramento, de alguém pressionado ao nível mais rasteiro e ainda assim na iminência de uma queda. De que forma? Talvez se encararmos “Paisagem de Porcelana” como uma história de amor. Quando se tem amor de sobra para emprestar ao outro, mas se esquece de amar a si próprio.

Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

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