Debate sobre totalitarismos e discurso político deve ser rigoroso e não redutor

É seminal formular ideias de maneira precisa e articular argumentos de modo objetivo. No campo de batalha da democracia, a aquisição de vocabulário é a única esperança

Fernando Sahium e Frederico Pacheco de Souza e Silva

Especial para o Jornal Opção

Dar o nome errado às coisas é acrescentar à infelicidade do mundo.” — Albert Camus

Pintura de Igor Morski

Animados pela dúvida que nos cercou, se o Brasil está cheio de fascistas e comunistas no tanto que se “acusam” uns e outros no cenário político atual, Fred e eu montamos o texto abaixo, que se seguiu a uma bate-papo feito na casa dele em julho deste ano. Nós concordamos no ponto de que o fascismo italiano (de Benito Mussolini) e o nazismo na Alemanha (de Adolf Hitler) foram formas de rejeição do liberalismo. Daí para a síntese que pretende obedecer a um critério central: não ser raso nas explicações, não se limitar ao senso comum e oferecer ao leitor algo que não fosse um pio (twitter em inglês), e sim bom material de reflexão, para ser lido com vagar e por mais de uma vez.

A internet possibilita a comunicação instantânea, a publicação imediata e a disseminação planetária tanto das mais rigorosas ciências quanto das imbecilidades de botequim. No oceano amorfo da World Wide Web, um soneto do britânico Shakespeare, um verso do italiano Dante Alighieri, um parágrafo do brasileiro Machado de Assis ou um aforismo do alemão Nietzsche têm o mesmo status, o mesmo valor e carregam a mesma autoridade que um slogan partidário, que um meme anônimo ou uma frase de Paulo Coelho. O discurso político e sobre a política tornou-se uma verdadeira torre de Babel: todo mundo fala mas ninguém entende. Nossos políticos sofrem de glossolalia crônica, e os comentaristas, de logorreia aguda. Os mal-intencionados promovem a confusão de ideias e a desordem intelectual. E já é sabido a aonde leva o caminho das boas intenções.

Pintura de Igor Morski

O marxismo estabelecido com grande insistência das universidades públicas brasileiras chama de “fascista” e “fascistas” tudo que desagrada e todos que discordam da sua ruminância ideológica. Os reacionários, do outro lado, regurgitam o mesmo adjetivo. E assim temos marxistas que defendem a Declaração Universal dos Direitos Humanos sem sequer suspeitar da irônica dissonância cognitiva que encarnam. É preciso desatolar o pensamento dessa gosma ideológica.

O totalitarismo é um evento histórico particular, o fascismo é uma forma de totalitarismo específica, localizada no tempo e no espaço. O uso do termo “fascista” para designar “abuso do poder” ou “autoritarismo” é uma fraude intelectual que desonra as ciências humanas, descredita o usuário, lesa o leitor e insulta as vítimas dos “verdadeiros” totalitarismos (fascismo, nazismo e comunismo). O fenômeno totalitário pertence ao século 20, e descreve um evento histórico único (isto é, específico) que só tem sentido dentro de seu contexto particular. Somente quando reinserido em sua especificidade histórica pode-se resgatar sua significação própria, compreender seu sentido histórico e esclarecer seu projeto político.

Pintura de Igor Morski

Uma topologia de características básicas nunca revela o significado profundo de um movimento histórico. Ao contrário, essa metodologia tende a mascarar o motor histórico, camuflar a intenção dos atores, escamotear o projeto que sustenta a ação e ocultar a vontade que anima as decisões coletivas. No discurso panfletário e na sopa ideológica dos esquerdistas, a violência estatal generalizada é apresentada como característica fundamental do “fascismo”. É uma herança intelectual de Hannah Arendt (“Origens do Totalitarismo”, Companhia das Letras, 832 páginas, tradução de Roberto Raposo), autora ilustre que privilegia o nazismo como expressão quimicamente pura do fenômeno totalitário, e exclui o fascismo italiano da lista dos “verdadeiros totalitarismos” porquê nele não houve terror de massa (mesmo se os inimigos do sistema não eram especialmente bem tratados).

O totalitarismo, como todo movimento histórico, é dinâmico, vivo, orgânico, e resiste à descrição topológica. O fascismo responde à uma situação histórica específica, viva, inédita e única: a crise do liberalismo do século 19. Nesse período histórico das recém-nascidas democracias ocidentais, o governo representativo das Assembleias, coroado pelo sufrágio universal, entra em crise: de um lado, o parlamentarismo se mostra incapaz de representar concretamente a vontade popular, traindo o projeto democrático; do outro lado, a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) revela a estonteante resiliência do Estado. No início da Grande Guerra, os especialistas estimavam que o conflito não passaria de agosto de 1914 (!), não por motivos sentimentais, mas por deficiência técnica e falta de meios concretos. O Estado mostrou seu poder (inesperado) e sua surpreendente resistência: o candidato perfeito pra fechar a distância entre a política e a vontade popular. O governo totalitário tem como projeto realizar o que o liberalismo não conseguiu: a verdadeira democracia; e tem como modelo político o contrário do liberalismo. Se este é fundamentalmente a divisão do corpo político em sociedade civil e Estado, o totalitarismo volta ao modelo religioso, onde a divisão liberal não existe.

Em outras palavras, os regimes totalitários do século 20 são tentativas de instaurar um regime concretamente democrático utilizando o dispositivo estrutural da religião (o nazismo segundo uma ideologia de extrema direita, e o bolchevismo segundo uma ideologia de extrema esquerda). Donde a apelação de “religião secular”, não por provocação, mas porque é uma descrição exata do fenômeno, tanto da sua forma paroxística quanto do seu conteúdo ideológico.

A experiência totalitária falhou espetacularmente, assim como, mutatis mutandi, falhou o projeto do Estado Islâmico, e pelas mesmas razões de fundo. O liberalismo ocidental ainda não achou a solução de seu problema central, do seu radix malorum: o abismo entre o Estado e a sociedade civil. O século 20 nos ensinou que não se deve colocar vinho novo em odres velhos. Se o discurso político deve evoluir, é necessário cultivar um discurso que esclarece, que formula ideias de maneira precisa e que articula argumentos de forma rigorosa. É preciso separar o joio do trigo, e publicar o trigo. No campo de batalha da democracia, a aquisição de vocabulário é nossa única esperança.

Fernando Sahium é professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG). Formando em Ciências Sociais pela Faculdade de Filosofia Bernardo Sayão (1985); mestre em Educação e doutor em Ciências da Religião (2018) concentração em Movimentos Sociais pela PUC-GO (e-mail: psahium@hotmail.com). Frederico Pacheco de Souza e Silva é graduado em História e Filosofia pela New Jersey City University (EUA) e mestre em Filosofia.

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