De um sopro pro pó

Retrato de Lucas Zaparolli de Agustini pela artísta plástica e ilustradora Cíntia Eto

Retrato de Lucas Zaparolli de Agustini pela artísta plástica e ilustradora Cíntia Eto

Da capital paulista, o poeta Lucas Zaparolli de Agustini se dedica a obra “Don Juan”, de Lord Byron, a qual tem traduzido em seu doutorando na Universidade de São Paulo (USP). E é dele os versos desta “Terça Poética”. “De um sopro pro pó” ganhou, especialmente para esta edição, um retrato do poeta feito pela artista plástica, ilustradora e também paulista Cíntia Eto. Quer participar da nossa “Terça Poética”, um projeto que verseia as tardes de terça-feira com poesia? Envie-nos, por meio do e-mail [email protected], os seus escritos poéticos. Eis o sopro de Zaparolli!

Lucas Zaparolli de Agustini

Da séria miséria
resta esta
desolação da ação
de desconhecer o ser.

Na areia, Reia
enxerga a cega
chama, que a chama
a um restrito rito:

um frenesi que se
sacode, a ode de
mago magro a ago-
rafobia e o money, né?

Tem independente pendente,
alergia da alegria,
azul ao sul,
e um osso só.

Que bactéria teria
afronta contra
a órfã que mofa amorfa
no pântano de antanho?

Nada sutil é útil.
O que corrompe não rompe.
Nem sempre cabe quem abre.
Mas a brecha não fecha.

Só desencanto no canto
sem voz, a vós.
Capaz de paz?
Onde o som do om?

Afeto ao feto
que parte a arte
no osso do esboço
da porta da horta.

Salve a azia da afasia!
A isca da faísca!
O beijo do brejo!
O batom sem bom-tom!

Salve tudo que aludo,
incluindo a manhã de amanhã,
mas do universo só um verso:
breca-te, Hécate!

Não ultrapasse a paz, e
nem te atrevas às trevas:
só, caminha minha
sola ao sol.

Que apontem o ontem,
e o murmúrio do futuro
pareça essa
parede sem rede:

acode a ode,
salva a alma alva,
enquanto o canto
do hoje foge.

Deixo o eixo
ao âmago do relâmpago,
pra que se rache a acha
pra um fogo logo.

Depois, ois, pois
não há ninguém, nem
nada: a cada
dádiva vã, um divã.

Do mor amor
leva Eva
um mar amaro,
e tudo dói.

Na sequência a consequência
da lavra da palavra:
bronco ronco,
faltar altar e ar.

Então cantes antes
que a mágoa n’água
se dilua — a lua
muda muda.

O miasma, a asma
é desespero, espero.
Resta esta
vida ida.

Doravante, avante.
Após, pós.

Uma resposta para “De um sopro pro pó”

  1. Avatar Thiago Lucarini disse:

    Lindíssimo. De uma criatividade admirável.

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