Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

“Joana e a Pandemia” (Cânone Editorial), livro da jornalista/psicanalista Lisa França, é um aceno ao nosso bom senso e, por que não dizer, à nossa humanidade “quase “perdida”.

Poderíamos classificá-lo, sem delongas, como um diário de memórias refletidas no cotidiano difícil trazido pela pandemia da COVID no Brasil e no mundo. O livro resgata perdas dolorosas de sentimentos e celebrações que deixaram de ser vivenciadas no dia a dia… Coisas simples como abraçar e beijar pessoas queridas e próximas não puderam acontecer e as pessoas se trancaram não só dentro de casa, mas também dentro de seus corações.

Lisa França: escritora | Foto: Reprodução

Não é necessário dizer ou repetir as consequências da pandemia, mas é bom lembrar o quanto nossa fragilidade humana foi devassada e exposta juntamente com nossa impossibilidade de agir, de fazer acontecer o necessário, o trivial, o desejado…

O livro trata dessas questões todas, sem deixar de lado a visão das crianças, mais prisioneiras ainda do que os adultos, de um ser vivo microscópico, mas muito *capaz de fazer estragos* grandes nas vidas rotineiras das famílias: a visão de alguém que estava para aprender a ler e escrever na escola, mas que vê seu sonho interrompido, as aulas remotas que distanciavam ainda mais as pessoas, dificultando laços, apertos de mão e abraços. Outro aspecto importante da história/memória/diário é a maneira como a personagem se refere à “mãe” em muitos momentos do texto. A ausência do pronome para representar a figura materna parece simbolizar uma distância tão longínqua entre pessoas que só a poesia pudesse explicar.

Ser humano não é uma ilha

O texto flui de maneira calma e tranquila como se a história batesse lentamente dentro de cada um, de cada ser, cada família que perdeu alguém na pandemia. O ser humano, como dizia o poeta britânico John Donne, “não é uma ilha, sozinho em si mesmo, cada um é parte do todo”… No entanto, a pandemia, por que não dizer, mal gerenciada no Brasil e em outras partes do mundo, nos fez efetivamente pensar sobre isso: como é bom poder conviver encher de abraços quem é importante para nós. Importante de tal forma que ser sozinho deixa de ser uma opção, que o bom mesmo é estar junto e compartilhar momentos e sentimentos.

Um livro lindo, escrito com a mestria dos poetas e que nos remete a nós mesmo enquanto seres humanos.

As ilustrações, de Gilberto Miadaira, tão sensíveis e lindas quanto o texto são um deleite, permitem enxergar além da palavra escrita, o complementam como se fossem frases compostas para o entendimento total da história.

Vale muito a pena conferir, não só pela atualidade dos temas tratados mas também pelo tratamento delicado dado à história. Vale a pena conferir, de verdade mesmo.

Soninha Santos, professora de literatura infantil e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.