Nonatto Coelho
Especial para o Jornal Opção


Nosso comportamento subjetivado através da sensibilidade dos artistas se faz espelho antropológico, e explicita nossas esperanças, decepções, desejos, medos e, aspirações individuais e coletivas.

Desde os tempos que habitávamos as cavernas, a pintura, a modelagem, a escultura formam as primeiras e as mais interessantes formas de comunicações visual que temos desde o mais remoto período ancestral da humanidade até a era contemporânea.

É inegável que vivemos na fascinante era da comunicação com vertiginosa e espetacular rapidez, e que ao mesmo tempo que tem a capacidade de informações que possa auxiliar nossos progressos, o efeito contrário também pode acontecer diante de nossa própria capacidade ou não, de interpretação da realidade cotidiana.

Arte é um exemplo paradigmático para quem queira fazer uma profunda reflexão sociocultural no mundo pós humano. E Pablo Picasso, considerado por muitos estudiosos, ser o maior artista que atuou no século passado – ou pelo menos o criador do mais influente ISMO do século XX, tem um farto material de estudo sociólogo que extrapola o próprio campo da arte.

Picasso preconizava que a arte até poderia servir para enfeitar nossas casas ou ambientes públicos, mas, antes disso, ela poderia ser uma “arma” que o indivíduo criador pudesse lançar mão, para denunciar, explicitar, mostrar e até atacar o inimigo, o opressor, ou mesmo a tirania dos despóticos poderosos da política em seus diversos níveis existenciais.

Pablo Picasso nasceu no dia 25 de outubro de 1881, e faleceu no dia 08 de abril de 1973, foi pintor, gravador, desenhista, cenógrafo e poeta. Filiado ao Partido Comunista.

Na Espanha de Picasso, acometida de uma guerra civil (fascistas contra republicanos 1936 – 1939), o dia 26 de abril, em um domingo no ano de 1937, o dia amanhecera ensolarado, quase risonho, apesar do medo e da tensão latente na população de uma cidade composta de apenas 7 mil habitantes, denominada Guernica, situada na província de Biscaia, região independente Basco/Espanhola.

Apesar da guerra civil, a população naquele domingo, acordou e foi fazer suas tarefas diárias; as crianças brincavam, cavalos pastavam, as cigarras zumbiam, os pássaros gorjeavam…parecia um dia normal, não obstante a guerra.

Mas, na parte da tarde, aconteceu a tragédia: Das 16h40 até as 19h45, 43 aviões da força aérea alemã da legião Condor Luftwaffe – operando na Espanha desde 1936, despejaram 250 quilos de bombas incendiárias e metralharam sem dó nem piedade a vida contida na pequena cidade espanhola.

Ao final, 70% da cidade estava destruída, 1.654 mortos, 889 feridos, a mando do General Francisco Franco, o amigo de Adolf Hitler.

Picasso o comunista, já era considerado o mais importante artista vivo do mundo, tinha seu atelier na Rue des Grands-Augustins número 07, em Paris. No dia do bombardeio de Guernica ele pintou, como d’habitude até de madrugada, e fora dormir; mas, pela manhã, sua musa e amante Dora Maar, o acordou aflita e trêmula, tinha em mãos os periódicos Ce Soir, e L’Humanité, recheados de fotos e reportagens da tragédia que acontecera no dia anterior em sua Espanha amada.

Centenas de pessoas, adultas e crianças mortas e feridas.

As fotos nas efemérides parisienses mostravam à um Picasso colérico, pessoas, a maioria com queimaduras de terceiros graus jazendo pelo chão à espera de socorro. O hospital da cidade destruído…

As imagens estarrecem Picasso e Dora, que as olham pálidos, e em silêncio mútuo. Sabartés, o secretário fiel de toda a vida de Picasso, solene, serve o café da manhã. O casal alimenta seus corpos, observando as imagens perturbadoras congeladas pelas lentes dos correspondentes da guerra.

Picasso que já detestava Franco, está em estado lancinante de ódio daquele general que iria se tornar um ditador implacável, totalitário da Espanha.

Um pouco mais tranquilo, depois do café da manhã, o pintor pega um maço de Galoise, acende um cigarro e traga fundo. Conversa com sua musa Dora Maar – ele a tinha conhecido no início de 1936 no bar restaurante Deux Magots no Boulevard Saint Germain – falam sobre a tela que prometera pintar para o Pavilhão da Espanha, encomendado pelo próprio governo, a ser exposta na Exposition Internatinale que iria acontecer em Paris de junho à outubro de 1937. Tinha um mês para realizar a tarefa.

O grande gênio, em conversa com sua amante, decide que vai pintar um quadro sobre o ataque covarde que acabara de ler nos jornais, feito pelos nazi/fascistas contra aquela pequena cidade chamada Guernica.

E em 1° de maio, dia internacional do trabalho, Picasso faz o primeiro esboço tendo como intenção de denunciar para o mundo o massacre de Guernica. E daquele horror, nasce uma das obras primas da pintura mundial: Guernica.

A grande tela monocromática que esteve exposta na Bienal de São Paulo em 1953, depois de anos exposta no MoMA de New York – de 1939 até 1981, hoje é parte permanente do acervo do Museu Rainha Sofia em Madri.

Perto da tela o pintor que media 1,63 cm de altura, parecia um anão, a grande tela tem a medida de 3,50 X 8,79 largura/altura e contou com a ajuda de sua fotógrafa/musa/amante Dora Maar, essa que era também uma exímia pintora, ajudando-o a pintar o painel em tempo hábil para estar exposto na grande mostra internacional em Paris no mês de junho seguinte, portanto em menos de um mês.

Das mãos de Picasso, auxiliadas por Dora Maar, da gigantesca tela monocromática, pululam de figuras que gritam, choram, mães abraçam filhos mortos. Cavalos relincham, o Minotauro como metáfora da besta fera humana brande seus chifres e balança seu rabo com fúria destrutiva. É a arte da representação simbólica da violência, alegoria sem ser panfletária, a arma que denuncia eternamente o fatídico dia 26 de abril de 1936.

A labuta humana é uma constante viagem de conquistas e recuos, fonte interminável da busca de que possamos melhorar o mundo, como ambiente de coabitantes vivendo em um mínimo de paz e harmonia.

A Espanha, uma terra rica na tradição artística, no qual seus ilustres artistas tem sido exemplos de árbitros de denúncias contra as opressões de ordem política social, Francisco de Goya (1746-1828) foi o primeiro ilustre espanhol à se valer da arte, como uma “arma” de denúncia social.

No momento em que o nazifascismo avança no mundo, vem da Espanha a lamentável imagem do movimento, em que na arena de um estádio de futebol (Picasso amava a arena das touradas naquele país), um jogador brasileiro é brutalmente atacado com gestos e frases de racismo.
Para mim, a arte é mais forte do que a vida, ela tem a capacidade de apontar caminhos a serem trilhados pela raça humana, e seu papel de coadjuvante em acreditar em melhores dias deve ser relevado. Sempre.

Ainda em tempo, a propósito da violência covarde dos torcedores nos estádios da Espanha, eu diria que somos todos pró-Vinicius Jr.

Nonatto Coelho é artista e pesquisador, sócio-titular do Instituto Cultural Bernardo Élis Para os Povos do Cerrado (Icebe), ex presidente da AGAV – Associação Goiana de Artes visuais.