De marchand a galerista: a aventura de vender obras de arte

A  goiana Potrich Potrich nasceu em meio a um antiquário, desbravou preconceitos e se consolidou como uma das galerias mais reconhecidas em território nacional

Com Ana Rosa no colo, a mãe Ludmila narra a história da família e galeria Potrich

Com Ana Rosa no colo, a mãe Ludmila narra a história da família e galeria Potrich

Yago Rodrigues Alvim

Por conta da chuva, os lambe-lambes lambrecaram a fachada. O cheiro de tinta alaranjada invadia a galeria recheada de fotografias. Os quadros retinham-se a paredes maiores, ao fundo. Dali, a terceira geração Potrich se protegia, agarrando do peito da mãe a ciência de uma família pioneira na arte marchand. Tiraram os quadros debaixo do braço e perambularam por quase quatro décadas, já, vendendo uma ideia: a de ser galerista em Goiânia.

A historieta nasceu do leito do casal Potrich e se atalhava nas frases da filha, Ludmila –– intercaladas pelos balbucios da pequena Ana Rosa. Os sete meses já preenchiam a galeria de sons impressionistas. É mais uma com a chance de continuar os passos da família que se enlaçou já em terras goianas. De Pontalina, a então Marina se fez Dona ao lado do gaúcho Amilto. O senhorzinho trouxe a sapiência da veterinária e agricultura na chance de crescer em um cargo oferecido na então Goiânia de 40 anos atrás. Aqui, comungou com a Dona a efervescência das artes da década de 1970 e 80.

Queria porque queria, a moça, botar na cidade um lugar das artes. A jovem capital carecia não só de nelore, como carecia de um pouco de tinta –– ou de um lugar em que pudessem descobrir as tais pinceladas. Mas nada se constrói tão fácil. O acaso teve lá um pinguinho de culpa. O caso foi que, junto da irmã e da maternidade já contemplada, sobrava tempo e vontade de aproveitá-lo. Começa­ram com as antiquarias, na troca de móveis, restaurações, e terminaram com os artistas buscando seus trocados já à noite, após deixarem, no início do dia, uma tela na porta da lojinha.

Afeiçoou-se aos artistas e a irmã seguiu com as antiguidades. A filha põe na boca palavras condecoradas, uma vez que se envolver com as artes na tal década era saltar sem paraquedas em um amontoado de estigmas. O preconceito ganhava lá uma quinta potência ou mais se o salto fosse dado por uma mulher.

Mas a aterrissagem foi com maestria ou quase lá, uma vez que a Dona Marina não parou de viajar, conhecendo cada vez mais o Brasil e sua arte. Ela passou a comprar obras fora do Estado de Goiás, engordando a agenda de contatos e consumindo arte além-fronteiras. A coisa foi crescendo com estudo e imersão. Ludmila até conta que as amizades da mãe eram todas do reduto cultural. Foi lá que se amigou de Gessiron Alves Franco, o artista Siron Franco. “A então Galeria Potrich tinha um artista forte e ele tinha galeria que o representava”. A parceria perdurou por muitos anos e destacou em marca-texto o nome Potrich, nacionalmente.

Tudo dependia do olhar. Estatelar os olhos num ponto e ver onde é que ia dar –– foi o que fez a matriarca. Já sob o título de marchand, ela quis um endereço. Ainda que hoje seja muito bem situada, há poucas quadras do shopping Flamboyant, na época construir algo na região surtia reações do tipo “Ah, você vai se mudar para o brejo?”. Não, ela se mudaria para uma sede própria –– retruca Ludmila. E lá fez um prédio tipo o da querença, com um grande salão para exposições, o que lhe proporcionou mostras museológicas. “Espacialmente, a galeria oferecia este conforto”.

Goiânia dava seus primeiros passos. A galeria foi preenchendo tal lacuna. A novidade vinha do “brejo”: ali se parcelava arte. “Tinha que ser acessível. Não podia ser algo de ricos e só. Minha mãe foi a primeira que parcelou as obras de arte; dava para pagar em até dez vezes”, narra a filha.

Já com seus 14 anos, Ludmila não se desgrudava da mãe: “Fui sempre rabinho, eu ia a todas as viagens; sempre fui muito companheira”. O interesse pela arte veio cedinho, já com a escolha da profissão batendo à porta. Ela, então, adentrou no mundo das artes. Não como artista; nada disso. Não queria, pois “não era artista”. Daí, passou pela cabeça o curso de arquitetura, mas passou rápido, também. O que queria mesmo era continuar dentro da galeria. Gostava de vendas, da coisa marchand toda. E, além do mais, as expectativas eram poucas, na época. “Estas profissões de curador, crítico de arte não existiam na época; isso é recente, de dez anos para cá. Nada era muito favorável”, o jeito então foi buscar novos artistas.

Já conceituada galerista, Lu­d­mila conta que a produção goiana é muito sofisticada, tem técnica apurada e personalidade própria. A Potrich, ainda que tenha alcançado seu ápice, teve lá seu mo­mento de desencanto. Ela explica que o mercado goiano não estimulava tal tendência; a venda, em si, de arte era algo ínfimo. “Hou­ve momentos, até, em que minha mãe pensou ‘A minha paixão não está valendo isto [de continuar com a galeria]’”. E mesmo com mostras, exposições, o público era pequeno: dava para contar nos dedos quantos visitavam.

É que as pessoas preferiam ir a São Paulo ver uma exposição. O hábito de visitar mostras na capital goiana é algo que ainda hoje está sendo construído. Afinal, como ela diz, não é algo que se cria do dia para noite. E há que se considerar, ainda, as condições pessoais. A mãe, com a pequenina Rosa no colo, se exemplificava como quem está numa fase difícil de apreciar eventos em geral e, assim, ampliou “existem períodos em que se está predisposto a consumir tal coisa e outros em que não; afinal, até para se divertir é preciso estar afim. Um bom vinho não faz a festa sozinho”.

E, para consumir arte, é preciso estar muito afim. Primeiro ponto: é preciso abrir mente e coração. Tem que descobrir “porquês”. É feito uma investigação do próprio “eu”. Segundo ponto: não se deve pendurar na parede uma obra para ignorá-la no comer dos dias. É um jogo de olho no olho –– não vale medo ou desgosto e nem dá para enjoar. Às vezes, se ama algo num dia e o odeia no outro. Ludmila mesmo brigou consigo mesma e a culpa foi toda do Picasso.

O artista espanhol era desgosto da galerista. Batia o pé que o odiava. “Eu dizia que ele não tinha personalidade e que não havia nada de novo e seguia criticando” até que apareceram algumas respostas. O jeito foi erguer bandeira branca. Ludmila descobriu, então, a genialidade do pintor. O embate no início, no entanto, não ganhou os maus olhos da moça, muito pelo contrário: “Isso foi muito positivo, pois eu não aceitei algo, simplesmente; ‘mastiga isso porque é bom’. Eu mesma, aqui na galeria, não imponho uma obra a algum cliente nosso. ‘Compra porque é maravilhoso!’; isso não se faz”. Na atual Potrich Potrich, tem obras do consagrado Vik Munis a obras do novo nome do mercado goiano, Evandro Soares.

As obras de G. Fogaça e Pitágoras Lopes estarão presentes na exposição “Boderline”, que tem abertura nesta quarta-feira, 14. As simultâneas individuais trazem o universo caótico dos artistas

As obras de G. Fogaça e Pitágoras Lopes estarão presentes na exposição “Boderline”, que tem abertura nesta quarta-feira, 14. As simultâneas individuais trazem o universo caótico dos artistas

Diversidade

Foi logo após uma pesquisa, coisa científica, a fim de revelar o nicho mercadológico e, assim, propiciar mídia, publicidade mais direcionada, que Ludmila descobriu a imprevisibilidade da área em que trabalha. “O mercado artístico goiano é sui generis, fora de qualquer expectativa que conhecemos”, diz. E o motivo vem da própria constituição da cidade. O multicultural resulta em interesses diversos. As pessoas consomem artes variadas, pois tem influências vindas de diferentes lugares. E isso faz um galerista expandir sua atuação.

Existem, em Goiás, pessoas de estados diferentes, países, inclusive. Muitos consomem arte fora, o que mostra um problema: a falta do que elas procuram, pois há qualidades diferentes de arte. E, voltando aos pontos, arte tem que fazer “o olhinho brilhar”, tem que despertar interesse pela coisa. Outra problemática é acreditar que aqui só se produz um tipo de arte em Goiânia. “Não é verdade. Até na música é assim. Goiânia é conhecida como a capital sertaneja, mas é também a cidade mais roqueira que eu já ouvi falar”, exemplifica. Tal mis­tura amplia a dificuldade em ver o mercado artístico como algo único, específico, “esperado”.

Esse resultado mostrou para Ludmila que qualquer coisa que se faça, em Goiânia e no Estado, é positivo –– ainda que não a agrade, pessoalmente. As ações revestidas de mostras, produções, contribuem para uma área que tem sido vista com outros olhos, aos poucos. “Não existe patrocínio. As pessoas não escrevem projetos. E não dá para ficar só pensando, é preciso raça. As pessoas precisam acreditar nas ideias que têm e escrever, pôr no papel. Existe muito recurso que fica sem ser investido. Precisamos trabalhar nisso”, aconselha. Se isso não acontece, são outros passinhos para trás e isso vale também para galeristas ou entusiastas.

Se relacionar a população goianiense, apenas, e a quantidade de galerias dá para dizer que “não existem” galerias na cidade. Principalmente, ressalta ela, se comparada a outros centros. “Goiânia é uma capital e, ainda assim, tem alguns aspectos, comportamentos de cidade pequena”, alerta. Para isso, vale também se especializar, entrar no “ramo”.

Marchand e galerista

O sr. Amilto explicou a diferença entre ser marchand e ser galerista. Um galerista tem um estabelecimento e o marchand independe de um local físico –– ele bota a obra de arte debaixo do braço e a vende perambulando. Já a filha brincou “eu não sei bem esse significado Wikipédia”. A definição da moça residia noutros argumentos. Quanto à atuação, o termo marchand é muito tradicional. É o dono da galeria, alguém que entende de arte e não chega a ser um mecenas, mas ele fomenta, contribui muito com o artista, tem uma relação direta.

Já o termo galerista refere-se a um profissional recente, “muito atualizado”, que envolve delegar. Afinal, apareceram muitos outros nomes. O galerista não é o curador, não é o crítico de arte, o produtor. “Marchand engloba mais ações; ele ia desde ter a um ateliê a montar uma exposição. Hoje não. O galerista é o cara que tem uma galeria. Ele delega mais as funções. Todo marchand tinha sua própria galeria. Alias, vender arte é uma coisa muito antiga; e, desde que se produz, é preciso alguém para descobrir”, esclarece.

Ludmila foi cria de galeria. Toda sapiência, informação que recebeu foi em sua vivência diária. Se a mandassem para a vida acadêmica, conta, ela não se encaixaria mais. Aprendeu o jeito de tocar Potrich, experenciando a própria galeria. “Quando você está neste universo, nesta riqueza, se você senta com um cliente, você acaba tendo uma euforia, uma troca. Existem clientes muito mais simples, outros que já tiveram muita experiência e, cada caso, é uma delícia. Por isso, eu não trocaria pela sala de aula”, diz.

A experiência a leva a comentar as perspectivas para o ano. As perspectivas se não são muito favoráveis em outros ramos, outras áreas, certamente também não serão boas para as artes. “E todo ano existe isso, parece até temoroso. Todo ano parece que o mundo vai acabar. E, porque ao invés de todo ano dizerem isso, não avisem que ele será maravilhoso, já que não acaba nunca”, brinca.

Passando pela Av. Bernardo Sayão, no setor Fama, onde o comércio é muito forte na cidade e milhares de transeuntes decoram a avenida, Ludmila pensou “e se eu abrir uma galeria aqui?”. A pergunta foi um jeito de exemplificar que existe mercado, o que implica outros fatores. Muitos procuram obras consagradas, as tais peças de desejo que sempre encaixam nas lojas. O problema é que um galerista vende o que tem paixão por; ele não se trai. Tudo bem, diz ela, você pode buscar cópias depinturas europeias, mas o que esse profissional realmente quer é acreditar no novo.

A internet mesmo tem propiciado certa independência dos artistas, que acarreta certas consequências à atuação de quem vende obras de arte. Ludmila explica que muitos estão interessados em ir para outros países, buscar certo renome. “Você, então, procura mostrar ao artista outros caminhos. E, além do mais, é preciso ressaltar a importância do currículo. Muitos colecionadores pesquisam em quê o artista foi premiado, em qual salão já expôs, qual mostra participou; se pegar um livro e não ver que o artista participou de uma coletiva em determinado espaço institucional, não adianta. Não sou eu que consagro um artista, não é o galerista”, destaca.

Neste sentido, tem sido feito algo muito positivo. Alguns curadores catalogam, nas diversas cidades do enorme território brasileiro, os artistas. Isso permite que as instituições, a exemplo da Itaú Cultural, ao montar uma exposição, procurem tais curadores para que eles levem o Brasil pa­ra tais paredes. A diversidade é um ponto muito valorizado na arte. Além do mais, Ludmila conta que o brasileiro é muito bem cotado no mercado mundial: “A nossa arte é desejadíssima, muito bem vista no exterior”.

Individuais simultâneas

Nesta quarta-feira, 11, a Potrich Potrich recebe a mostra “Border­line”. As individuais simultâneas trazem dois artistas independentes, G. Fogaça e Pitágoras Lopes, que já exibiram seus trabalhos na Venezuela e Espanha. Ludmila ressalta a mostra como exemplo de um projeto bem estruturado, o que dá a ele uma vida maior, permite que circule por mais estados e países. A exposição segue, depois de Goiânia, para Bahia e Argentina. A curadoria foi do cubano Dayalis González Perdomo e do brasileiro Gilmar Camilo. Malu Cunha cuidou da produção. A proposta é trazer o universo caótico dos artistas em suas obras. São traços, linhas, cortes, texturas, nuanças desenhando obsessões pessoais.

Por fim, a mostra, ainda que tão atual e recente, carrega uma das maiores e antigas características da arte: o humano. “A pintura, escultura, a obra de arte é uma área muito humana. Não tem como desumanizá-la”, conta. O bom, segundo ela, é que isso permitiu uma maior valorização do que também é profissional. Arte envolve paixão e o artista, que põe seus dias sobre telas, precisa mais que apenas sobreviver, afinal é ele quem pega uma pedra bruta e vai esculpindo de pouquinho a pouquinho; é ele que junta um bocado de pontos, riscos; é ele que causa estranhamento e só basta olhar. E, bem como o produtor, o crítico de arte, o curador, o galerista –– num termo antigo, o marchand –– tem contribuído para desautomatizar e colorir o dia a dia.

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ludmila potrich

Adorei! Muito Obrigada Yago e jornal Opcao.

Nonatto Coelho de Oliveira

Não é verdade que “Críticos de Arte” surgiram em Goiás de uns 10 anos para cá; nas décadas de 70 e 80 tínhamos uma atuante critica de Arte tanto local como nacional, mas na década de 90 grandes críticos considerados informados e dedicados, cederam seus espaços ao famigerado mundo do CURANDEIRISMO que assolou o mundo, esta leva de reaccionários post movimento DADAISTA, muitas vezes “curadores” alienados presta um serviço epidérmico e sem compromisso com a arte na contemporaneidade..

dmtrius

Palavras duras as suas heim Nonato?
Elas foram pensadas?
Notou o” Hurbano” no post da Maria?
Contra isso é que existe o CURADOR, alguém destinado a lançar luzes nas trevas e a curar a insensatez.

Dmtrius
Claro que sou curador

maria borges machado

Tenho uma Tela “Paisagem Hurbana” 40×50(Roosevelt-1982) – Uma Tela
“Paisagem Hurbana” 40×50(Alexandre Liah-2010) – Duas Telas “Natureza
Morta” 60×60(Alexandre Liah-2010) – Uma Tela “Casario” (Goiandira deo
Couto-19..), quero vende-las pelo melhor preço.
([email protected]).

zuleika de Abreu Porto.

Minha querida PRIMA!!! Ache a sua explanação perfeita!! Desde os primórdio tempo o caminho do artista é árduo e de todas as pessoas que estão envolvidas!! Precisa acreditar e amar a arte, pelo visto os seus olhos brilham quando vc vê um ARTISTA!! Obrigada!!

Vera Lucia

Tenho quadros para vender de Trinax Fox.

Vera Lucia

Gostaria de vender telas de Trinaz Fox -arte brasileira, nanquim em papelão.

claudinei

Sou artista plástico tenho 36 anos sou auto de data gostaria muito que meus trabalho fosse visto mas não sei como divulga-los meus temas preferidos são paisagens vida do campo adoro retratar coisas simples da roça, alguém tem uma sugestão , abrigado

ANTONIO CARLOS ALMEIDA

TENHO UMA OBRA DE ARTE DE UM PINTOR PORTUGUÊS OU ESPANHOL DE MAIS DE 100 ANOS, NÃO SEI AO CERTO, MEU PAI, JA FALECIDO TROUXE DE PORTUGAL, GOSTARIA DE UMA AVALIAÇÃO.
COMO PODERÍAMOS NOS COMUNICAR PARA QUE VOCÊ POSSA IDENTIFICAR O PINTOR E AVALIAR A OBRA?

ATENCIOSAMENTE

AA

José Mário Santos

Bom dia
Tenho uma tela original de Bertina Lopes, de 1959, bem no início da carreira dela, que gostaria de vender