De como eu olhei para o céu e vi uma estrela diferente: era poesia

Pablo Neruda escreveu poesia adulta? O bardo chileno versou sobre o amor? Pois “Ode a uma estrela” encanta crianças e todos os leitores

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Discuti, em artigo anterior, a ideia de que a criança, sendo criança, tem anseios e inquietações próprios de sua idade cronológica e, como tal, deve ser olhada e entendida. Contudo, ao falar de uma arte voltada para a criança, nos deparamos muitas vezes com o fato de essa obra ser ou não ser adequada para a sua idade. O que devemos apresentar para a elas? Que ou quais manifestações artísticas o olhar infantil alcança e compreende? Ou melhor, dizendo, apreende?

Em um museu ou em uma livraria, o que a criança pode ver ou ler? Parto do princípio de que a arte não tem idade e que cabe aos olhos de quem a observa a capacidade de perceber o que pode ou não alcançar com essa visão. A arte é, por excelência, a expressão que melhor traduz a vida e o ato de existir. Sendo assim, não deveria ser cercada de subterfúgios, fronteiras ou caminhos tortuosos. À estética da recepção ou de como cada um vai percebê-la e recebê-la cabe o papel de atravessar muros e pontes que atravancam, em pleno século 21, a exposição e interação da arte\ser humano.

Quando falamos, por exemplo, de Pablo Neruda, chileno que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura, logo vem a imagem a figura de um poeta que, em essência, não escreveu para o público infantil, e sim para o adulto. Aliás, artista engajado em questões políticas e sociais de meados do século 20, exilado pelo regime militar do Chile por suas posições e questionamentos, Neruda de fato não visou o público infantil ou juvenil.

Contudo, o que comprova nossa tese de que não há limite verbal ou visual para a arte, principalmente a arte voltada para as crianças, é justamente o fato de um de seus poemas retirado de seu terceiro livro, “Odes Elementares”, publicado em 1957, ter recebido uma ilustração maravilhosa de Elena Odriozola, uma diagramação cuidadosa, e ter se tornado um belo livro “infantil” de capa dura, lançado pela Cosac Naify. Um de seus poemas, “Ode a uma estrela”, ganhou essa roupagem peculiar e pode sim, arrastar olhinhos infantis através de suas páginas. Naturalmente a ilustração, a diagramação e o feitio da capa chamam a atenção, mais ainda de quem é acostumado desde cedo, a perceber cores e movimentos mais rapidamente do que os adultos. É para crianças? Não, diriam os mais conservadores leitores, mas… e essa ilustração? E essa capa? E essa diagramação?

Pablo Neruda, poeta | Foto: Reprodução

Se a criança consegue ver, ela pode ler. Mal não fará podem dizer pedagogos e psicólogos. Mas a questão não é essa. A questão é: uma criança que vê e lê Neruda sem nenhuma forma de alienação é capaz simplesmente de dizer ao fim da última página: “gostei dessa ideia de subir no terraço de um prédio enorme, tocar o céu e roubar uma estrela celeste e sair caminhando com ela no bolso”. Imagem muito compreensível para qualquer criança.

Então, o que está latente é o que a criança fará com essa constatação. Ela entenderá a seu modo que podemos pegar estrelas no céu e carregá-las nos bolsos por aí. A diferença é que, sendo criança, ela realmente terá essa estrela consigo e, com ela será capaz de perceber todas as possibilidades de usá-la como material para fazer poesia e modificar espaços por ela percorridos.  A arte humaniza. E se essa humanidade é percebida na infância ainda, a chance de termos um adulto melhor concretiza mais rapidamente. Um mundo de poesia e poetas torna-se essencial em tempos de caos e de barulho. Leia para as crianças, ou melhor, deixe que as crianças leiam o que elas tiverem vontade de ler. O máximo de perigo que pode acontecer dessa atitude é termos, no futuro, um adulto mais tolerante, mais humano e capaz de tomar suas próprias decisões sem medo de errar. Fica a dica, então! Apresente para ela “Ode a uma estrela”, de Pablo Neruda (Editora Cosac & Naify, tradução de Carlito Azevedo).

Quantos de nós estarão ávidos para carregar estrelas nos bolsos? Com certeza, muitos.

Soninha dos Santos, professora de literatura infantil e juvenil, é colaboradora do Jornal Opção.

Ode a uma estrela

Pablo Neruda

Ao subir à noite no terraço de um arranha-céu altíssimo e aflitivo pude tocar a abóboda noturna e em um ato de amor extraordinário apoderei-me de uma estrela celeste. Era uma noite negra e eu deslizava pelas ruas com a estrela roubada em meu bolso.

De trêmulo cristal parecia e era num átimo como se levasse um pacote de gelo ou uma espada de arcanjo na cintura. Guardei-a, temeroso, debaixo da cama para que ninguém a descobrisse, sua luz porém atravessou primeiro a lã do colchão, depois as telhas, e o telhado da minha casa.

Incômodos tornaram-se para mim os afazeres mais comuns. Sempre com essa luz de astral acetileno que palpitava como se quisesse retornar para a noite, eu não podia dar conta de todos os meus deveres cheguei a esquecer de pagar as minhas contas e fiquei sem pão nem mantimentos. Enquanto isso, na rua, se amotinavam transeuntes, boêmios vendedores atraídos sem dúvida pelo insólito clarão que viam sair de minha janela. Então recolhi outra vez minha estrela, com cuidado a envolvi em um lenço e mascarado entre a multidão passei sem ser reconhecido. Tomei a direção oeste, rumo ao rio Verde, que ali sob o arvoredo flui sereno. Peguei a estrela da noite fria e suavemente lancei-a sobre as águas. E não  me surpreendeu notar que se afastava como peixe insolúvel movendo na noite do rio seu corpo de diamante.

(Tradução de Carlito Azevedo)

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