De Caetano a Beatles, “Rosa Blanca” marca nova etapa na carreira de Fernando Perillo

Músico Fernando Perillo: “O país não tem sabido se cuidar muito bem. Acabamos com o futebol, como temos acabado com a música. Precisamos reverter isso” | Foto: Divulgação

Músico Fernando Perillo: “O país não tem sabido se cuidar muito bem. Acabamos com o futebol, como temos acabado com a música. Precisamos reverter isso” | Foto: Divulgação

Com participações especiais, como Nila Branco, o álbum mostra a jornada do músico que também é compositor e conhece as dificuldades de uma profissão dura de se seguir

Cultivo una rosa blanca
en junio como enero
para el amigo sincero
que me da su mano franca

Y para el cruel que me arranca
el corazón con que vivo
cardo ni ortiga cultivo
cultivo la rosa blanca
José Martí

Yago Rodrigues Alvim

Filho de Palmeiras de Goiás, Fernando Perillo começou a tomar gosto pela música e a tocar alguns instrumentos com os amigos. Logo formou com eles um corpo de baile e embalou, noite adentro, canções da década de 1970. O ofício livrou qualquer preconceito do músico, que, mesmo com as suas preferências, agradava o público. “A música tem que ser boa”, diz ele.

Já na capital goiana, com os efervescentes festivais de música, passou a compor junto a nomes como João Carlos, João Caetano, Silvo Barbosa, Bororó, Cesar Canedo e, ainda, Marcelo Barra. Mais que cantor e instrumentista, Perillo seguiu carreira além das festas e festivais. Cantava em barzinhos, as famosas choperias da época, que muito ajudou os músicos a se profissionalizarem, como diz ele — “ganhávamos cachês”.

Ainda no início dos anos 1980 e com a dúvida do que fazer na vida, ele se decidiu por seguir a carreira de músico. “Sinal de Vida”, álbum de estreia lançado em 1982, deu início à jornada de Perillo que, muito recentemente, mostrou ao público, hoje do mundo todo, seu novo trabalho, o intitulado “Rosa Blanca”.

A estreia na carreira sinalizava um caminho frutífero, pois o “muito bem aceito” disco deu a ele vontade de seguir na vida de músico, sempre com shows e viagens que seguem até hoje, com o novo álbum. Ele conta que, até então, não tinha uma música goiana, feita na cidade, como se faz atualmente.

— A música goiana é uma música autoral, a qual é muito difícil dar vida, pois nunca tivemos empresários que investissem pesadamente, como existe na música sertaneja atual. Ainda assim, seguimos sempre como artistas independentes. Por sorte, de um tempo para cá, as leis nos têm ajudado. O Brasil é um país de culturas, mistura que dá um resultado muito interessante e que é valorizado lá fora, onde já fiz shows, como Áustria e França, que têm uma visão muito boa da nossa música. Atualmente, perdemos muito em qualidade musical, como perdemos em tudo no Brasil; afinal, o país não tem sabido se cuidar muito bem. Éramos pentacampeões de futebol, e hoje… Las­timável. Acabamos, portanto, com o futebol, como temos acabado com a música, que sempre foi fator de enobrecimento do país, por seus grandíssimos compositores. Percebemos isso também quanto à renovação da música. No entanto, como renovar, se tevês e rádios não tocam as músicas de novos artistas, já que é preciso um investimento que não acontece? Vivemos uma perda lastimável no mundo da música.

Mundo este que deu a ele grandes influências. A música popular brasileira era riquíssima quando começou a carreira, conta ele. Vivia uma efervescência de artistas como Caetano, Gil, Tom, João Gilberto, Gonza­guinha, Bethânia, Simone, Gal, Roberto Carlos e muitos outros que foram fundamentais para que se tornasse músico.

Perillo diz que os copiava, uma vez que os bailes e os barzinhos exigiam um repertório de músicas estouradas da época. Aprendiam e apreendiam como compor. Além dos citados nomes, Milton e clássicos do rock in­ternacional como os Beatles e Rolling Stones, além da música caipira, com Tião Carreiro, alimentavam Perillo. Ele conta ainda dos circos que levavam duplas sertanejas para os quatro cantos do país. “Em Palmei­ras, eu vivia próximo a uma praça, onde se instalavam os circos e, também, os músicos, com quem eu aprendia”, narra.

As misturas sonoras desaguaram nos seus diversos álbuns. “Rosa Blanca” nasceu de um poema de Jose Maria Martí, de mesmo nome. Poeta revolucionário, Martí foi morto es­quartejado em 1895, quando Cuba ainda era colônia da Espanha. “Pacífico poema”, música que tem a participação de Nila Branco, resguarda o tom que borda o disco. “Ele tem disso, de paz.” Gravada em espanhol, a canção musicada por Perillo se junta as nove demais, que marcam a parceria com Nasr Chaul e Marcos Caiado.

Da primeira leva de parceiros, Chaul dá a Perillo grande liberdade nas diversas formas que compõem, seja começando pela letra ou música. Já Caiado, brinca Perillo, às vezes fica bravo quando mexe muito no poema escrito por ele, que é “muito atualizado e de boas ideias” — acrescenta o músico.

— O disco é muito importante para minha carreira. Eu fiquei muito contente de tê-lo feito, pois já há alguns anos, eu vinha gravado discos com o goiano e produtor da Globo, Ricardo Leão. Ele, que tem um bom estúdio no Rio de Janeiro, não pode gravar e me sugeriu que eu buscasse o André Vasconcellos, o que se deu em um disco aberto a novas sonoridades. Ele, co­mo é um bom músico e já tocou até com Djavan, levou para o estúdio os melhores instrumentistas. Fizemos um disco diferente, pois todos estavam ao mesmo tempo no estúdio; então, é sem nenhum retoque. Foi como um disco ao vivo. Uma experiência técnica e estética.

Lançado em junho, o álbum ainda tem uma agenda cheia de shows. “Adulto”, como lembrou Perillo da definição do produtor Vasconcellos, o álbum mantem a maneira do cantor e instrumentista de fazer música. “Segundo Paulo Rolim, é meu melhor disco”, lembra ele, dono de uma blanca rosa que vale a pena apreciar.

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Adalberto De Queiroz

Parabéns, Yago, pela matéria. É preciso dizer aos fãs do Perillo que o disco – que vê seu fim nessa mídia CD – já está disponível no Deezer… Veja o link abaixo. Sinal de que Fernando está preparado p’ra um novo salto no futuro, uma nova etapa.
http://www.deezer.com/track/124960120?utm_source=deezer&utm_content=track-124960120&utm_term=325568253_1471462767&utm_medium=web