De Albert Camus a Vinicius de Moraes, a metaliteratura em “Nunca o nome do menino”

Na obra, Estevão Azevedo engendra o embate de uma personagem contra a própria existência literária

 Em 2015, Estevão Azevedo venceu o Prêmio São Paulo de Literatura com o romance “Tempo de espalhar pedras”


Em 2015, Estevão Azevedo venceu o Prêmio São Paulo de Literatura com o romance “Tempo de espalhar pedras”

Sérgio Tavares*
Especial para o Jornal Opção

Em 2015, Estevão A­zevedo venceu o Prê­mio São Paulo de Li­te­ratura com o romance “Tempo de espalhar pedras”. Sete anos antes, o escritor potiguar havia sido finalista na categoria autor estreante, com “Nunca o nome do menino”, livro que acaba de ganhar uma nova edição.

Revista pelo autor, a obra se estrutura a partir de duas camadas narrativas, as quais, no movediço da leitura, igualam-se e, por fim, anulam-se. A este efeito, sobressai uma duplicidade que torna a narradora agente da própria história, ao mesmo tempo em que consciente da sua condição de personagem.

“O drama começou quando eu, ao perceber que era personagem de um livro, amputei o dedo mínimo da mão esquerda, imaginando com isso arrancar pelo menos algumas letras das palavras que me descreviam — o que dificultaria a leitura e me possibilitaria, talvez, morrer. (…) Se fugissem, os personagens sempre acabariam com seus criadores”, são as sentenças que iniciam e terminam o primeiro parágrafo.

Instaura-se, assim, um conflito, que será o motor do enredo. Questionamentos e autoquestionamentos descarregados num fluxo que vasculha a memória e recorre a um passado distante e a um que, há pouco, era presente, a fim de desvendar a autoria desta existência ficcional.

O palco da subjetividade é por onde a personagem transita, valendo-se da capacidade de observar a si mesma para extrair, de relacionamentos, meios para pôr em dúvida sua residência nos domínios da realidade. É o que ocorre, a todo o mo­mento, em suas interações com E­mílio, jornalista que abastece uma co­luna, num jornal medíocre, com notícias que não primam pela veracidade.

“Talvez a ficção seja só outra realidade. Talvez sejamos instrumentos de algum deus que, através de nós, escreve nos livros o mundo que realmente quer que seja criado. Talvez a realidade seja a dos livros e sejamos apenas os intermediários que a construímos, alguns a escrevendo, outros a mantendo viva e espalhando-a como um vírus através da leitura. Um sonho que sonha outro sonho. Não me espantaria se não passássemos disso”, considera.
Estevão tece uma trama cujo ar­ranjo está na dificuldade de dar for­ma à trama. Por conta disso, lança mão de exercícios e de recursos, co­mo a metaliteratura e a intertextualidade, recrutando referências que vão de Albert Camus a Vinicius de Mo­raes. Sob um manto de indistintabilidade, é onde também repousa o tal me­nino do título, que a narradora conhece na infância e com quem mantém, ao longo dos anos, um tipo parcial de relação afetiva. Suas aparições esporádicas pontuam o enredo em momentos de transições emocionais, levando a crer que o menino, que não tem nome ou detalhes físicos, é mais um elemento de uma história mental em que a literatura se configura, acima de tudo, enquanto um desafio.

“Eu era personagem e, mais dia menos dia, quando talvez outro alguém já ensaiasse, apaixonadamente e em vão, me fazer esquecer o antigo amor, de algum exílio forçado o menino voltaria, com algumas rugas bastante aparentes, criadas apenas para servirem de indícios do salto no tempo da narrativa, o menino voltaria para viver comigo a história que na realidade nunca haveria terminado. (…) O menino poderia voltar: um personagem!”
No posfácio, escrito para a nova edição, Estevão assinala intervenções no texto original, sobretudo no que julgou excessos poéticos. E é justamente nos trechos em que o lirismo transborda que ocorrem derrapagens; porém, estas são compensadas por uma narrativa que se potencializa e ilumina na medida em que avança a sua composição, dando sinais claros do escritor que, sete anos mais tarde, ganharia um dos principais prêmios literários do país. l

*Sérgio Tavares é jornalista e escritor, autor de “Queda da Própria Altura” e “Cavala”, vencedor do Prêmio Sesc.

Capa Nunca o nome do menino V2 DS

Leia um trecho de “Nunca o nome do menino”, de Estevão Azevedo

Os fatos de hoje tinham pontos de partida traumáticos na infância, na relação com pai e mãe. Eu me esforçava para lembrar, na esperança de ter realmente algum grande problema que me possibilitasse e me obrigasse a seguir em frente. O analista, Sherazade às avessas, escutava a cada sessão um elo desta minha longa corrente de fábulas, para que eu, a paciente, na ânsia de conhecer o próximo elo, não morresse. O que todo mundo busca é o alívio de enfim virar narrativa. O que não sabem é que eu, quando me vi em estado de pura escritura, quando descobri minhas veias como longa escrita cursiva, meus olhos como puro adjetivo, meu sangue como nanquim, minhas contradições, oximoros, meus poros, pontos finais, minha pele, metáfora, e meu desejo, hipérbole, quando o momento máximo de autoconhecimento não foi mais que uma peripécia, a angústia então foi tanta e tão intensa e tão romântica que pela primeira vez desejei, mesmo sendo excessivamente feliz, morrer.

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