Das salas de aula a Roland Barthes: “o prazer do texto” literário

Em novo livro acadêmico, organizadores reúnem artigos que discutem os problemas que envolvem o ensino de literatura

O livro é composto de nove capítulos-artigos de renomados estudiosos das letras no Brasil

O livro é composto de nove capítulos-artigos de renomados estudiosos das letras no Brasil | Divulgação

Gismair Martins Teixeira
Especial para o Jornal Opção

Até meados do século 19, a moderna crítica literária não havia se estabelecido tal como na atualidade, ainda que os primeiros estudos, que remetem a ela, tenham surgido na antiguidade clássica; de forma mais precisa com o filósofo grego Aristóteles e sua Arte Poética, que integrava o conjunto de escritos desse expoente do pensamento ocidental. Nesta obra singular, Aristóteles já apontava a necessária distinção entre o historiador e o literato, pontificando em seu nono capítulo que ao primeiro compete narrar o que aconteceu, enquanto ao segundo cabe a narrativa daquilo que poderia ter acontecido. Essa segunda perspectiva aristotélica marcará de maneira acentuada os estudos em torno da paródia no século 20, com nomes importantes da narratologia e da metaficcionalidade, como Gérard Genette e Linda Hutcheon, respectivamente, dentre outros.

Porém, no século 19, os estudos versando sobre a literatura eram predominantemente de cunho historicista e as análises literárias que se distanciavam deste enfoque eram denominadas de crítica de salão. A mobilidade na teoria do conhecimento, que foi se estabelecendo entre o fim e o início dos séculos 19 e 20 nas ciências naturais, alcançou o campo das ciências sociais, conforme aponta o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos em sua vasta produção sobre a epistemologia ou teoria do conhecimento. É neste momento que a história e a literatura começam a destacar-se uma da outra, seguindo caminhos próprios, quando a arte literária se consolidará de vez através de toda uma série de aparatos teóricos que se constroem e se estratificam no século 20, com estudos que vão do estruturalismo ao pós-estruturalismo, contemplando textualidade, autoria e recepção, dentre outros campos de abordagem próprios da crítica literária, nos dias atuais.

Curiosamente, o historicismo que parecia fundir a literatura e a história se perpetuou em grande parte das salas de aula, onde se tenta ministrar o ensino literário, como se pode depreender de Olhares Críticos Sobre Literatura e Ensino, obra organizada pelos professores e pesquisadores de literatura da Universidade Federal do Tocantins (UFT), Flávio Pereira Camargo, Miliane Moreira Cardoso Vieira e Vilma Nunes da Silva Fonseca. Editada pela Fonte Inspirata e composta de nove capítulos-artigos de renomados estudiosos das letras no Brasil, como Eliana Yunes, Olhares Críticos Sobre Literatura e Ensino traz entre os seus autores a colaboração de dois dos organizadores, Flávio Camargo e Vilma Fonseca.

Ensino emoldurado

Em sua obra “Palimpsesto: A Escritura de Segunda Mão”, o teórico francês Gérard Genette disseca a textualidade em suas várias nuanças, propondo, dentro outros, o conceito de paratexto, que é apresentado, em linhas gerais, como tudo aquilo que acompanha o texto: título, subtítulos, notas de rodapé, epígrafes, prefácios, ilustrações, comentários e análises em torno da textualidade central, etc. “Olhares críticos sobre literatura e ensino” debate em seus artigos, dentre outros aspectos, este emolduramento a que o texto essencialmente literário está sujeito. Ou seja, os livros didáticos apresentam todo um aparato paratextual em torno de algum recorte literário, numa avalanche historicista em torno de escolas literárias, nomes, datas e relação de obras de cada autor que quase nada contribuem para a formação de leitores que possam fruir esteticamente da literatura.

Assim, dentre as propostas que se espraiam ao longo de “Olhares críticos”, destaca-se aquela que pretende centrar a prática das aulas de literatura na leitura por parte do professor e dos alunos de alguma obra literária, buscando na recepção de ambos e na instrumentalização teórica do primeiro as bases para uma análise que estabeleça uma formação de leitores através daquilo que o teórico Roland Barthes denominou de “o prazer do texto”. O conjunto do material selecionado pelos professores Flávio Camargo, Miliane Vieira e Vilma Fonseca apontam não somente a constatação dos problemas que envolvem o ensino de literatura, mas também exemplificam, sobretudo para os professores que trabalham com esta disciplina, a interação interdisciplinar que se pode levar a efeito junto aos alunos.

O capítulo-artigo de Flávio Camargo oferece um bom exemplo, tanto ao pesquisador de literatura quanto ao professor que lida com o ensino direto da matéria, da prática da análise literária. Dedicado às pesquisadoras Zênia de Faria e Solange Yokozawa, nomes exponenciais da pesquisa literária goiana, a contribuição de Camargo para “Olhares Críticos” recebe o título de Arte e Crítica em “Um Crime Delicado”, de Sérgio Sant’Anna. O romance do premiado escritor apresenta complexidades em sua feitura que são esmiuçadas e explicadas por Flávio Camargo com o aporte teórico da ciência literária. Após apresentar a sinopse da obra, Camargo apresenta um rico exemplo de interpretação do vai e vem metaficcional de Sérgio Sant’Anna que abre um diálogo entre a arte literária e a arte cênica, numa abordagem que exemplifica que a aula de literatura pode e deve priorizar a textualidade em si, utilizando-se dos paratextos em sua condição mais de acessório, desemoldurando a produção literária dos excessos paratextuais que, por vezes, toma conta da obra, como é o caso do livro didático.

O capítulo-artigo de Vilma Fonseca constitui outro bom exemplo da prática de ensino de literatura centrada na obra em si e não somente na sua paratextualidade. Com o extenso título de Página a Página e O Sertão Surge Envol­vendo Seus Leitores Numa Rede de Significações: Uma Leitura de Guimarães Rosa no Curso de Letras, a contribuição da professora de literatura apresenta um acompanhamento da leitura da obra do escritor mineiro durante aulas do curso de letras. Um dos aspectos mais curiosos do trabalho é a dificuldade inicial dos alunos com a apreciação de uma das obras mais complexas e geniais da historiografia literária do Ocidente, conforme a apreciação do decano da crítica literária brasileira, Antonio Cândido. Não deixa de ser surpreendente, sobretudo, pelo motivo de que os alunos de letras serão os futuros professores encarregados da formação de leitores.

O conjunto das contribuições de “Olhares críticos sobre literatura e ensino” apresenta, pois, sem exceção, abordagens instigantes que remetem à onipresente questão do ensino de literatura nos seus mais intrincados matizes, constituindo-se em leitura essencial para os aficionados de qualquer modalidade da literatura.

Gismair Martins Teixeira é Doutor em Literatura pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Seduce-GO.

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