Das páginas para as telas

Série Napolitana, tetralogia sobre duas amigas em um bairro pobre de Nápoles, ganhará versão para a TV no canal HBO. Obra da misteriosa escritora italiana  Elena Ferrante é a alegoria da saga feminina em um século em transformação

A atrizes Gaia Girace (à esquerda) e Margherita Mazzucco, que interpretam respectivamente Raffaella Cerullo, a Lila, e Elena Grego, a Lenu, na série da HBO

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

Navegando pela internet, li uma notícia de que a Série Napolitana, da misteriosa escritora italiana Elena Ferrante, ia se transformar em série do canal HBO. Louca por séries de TV, esse fato foi o suficiente para que eu baixasse a versão PDF do primeiro livro da tetralogia — “A Amiga Genial”. Instantaneamente me apaixonei pela história das duas amigas: Rafaela Cerullo, apelidada de Lila, a filha do sapateiro, e Elena Greco, chamada de Lenunccia ou Lenu, a filha do contínuo da prefeitura de Nápoles.

Lógico que não consegui ficar no primeiro livro, cujo desfecho misterioso em torno de um par de sapatos masculinos já pedia imediatamente a continuidade do livro seguinte – “História do Novo Sobrenome”. E assim, com sofreguidão, totalmente imersa na realidade dessas duas amigas, moradoras de um bairro pobre de uma cidade do Sul da Itália, região da Campânia, duas meninas pequenas vivendo em um país europeu que sofria com as feridas deixadas pela Segunda Guerra Mundial. Fui então comprando os demais volumes e lendo o restante da tetralogia – os outros dois livros são “História de quem foge e quem fica” e “História da Menina Perdida”. Sorte que toda a tetralogia já estava disponível nas livrarias, senão seria um pesadelo esperar uma nova publicação com a história suspensa, pelo meio.

Seria um sofrimento não saber o final da história, o que levou a filha do sapateiro, a temperamental e inteligente Lila, a sumir do mapa já na idade madura, sem deixar rastros. Esse fato levou sua amiga Lenu, que tinha se tornado uma escritora de sucesso, a rememorar tudo o que viveram nas últimas décadas e escrever a saga da amiga. Ou melhor, a saga da amizade das duas, desde quando eram apenas duas meninas brincando de bonecas no prédio onde moravam até o sumiço de Lenu, já uma senhora. Ela havia ameaçado fazer isso e tinha proibido a amiga de escrever sobre ela, desejo que não foi respeitado justamente porque ela tinha desaparecido.

Atenção, se você não leu a tetralogia ou vai esperar a estreia da série homônima na TV, pare de ler esse texto por aqui, porque aí vem spoiler!

“A Série Napolitana” vai mostrando a evolução das duas amigas ao longo dos anos, ambas inteligentes, mas que tiveram destinos distintos, embora nunca se separassem definitivamente. Fala sobre amizade feminina, amor, rivalidade e tudo mais o que acontece no universo dessas duas mulheres, com seus percalços, suas lutas para superar a vida de miséria do bairro onde moravam, cada uma trilhando seu caminho. Às vezes juntas, às vezes separadas, suas relações com os filhos das outras famílias do bairro, com a violência doméstica, com a luta diária para conquistar uma vida mais digna e promissora.

As vidas de Lila e Lenu representam também o panorama da Itália, no seu microcosmo do bairro pobre de Nápoles, mas ao mesmo tempo é universal ao mostrar a dura realidade da miséria, principalmente para as mulheres que não tinham muito a que almejar na vida, a não ser se tornarem boas donas de casa, embora infelizes. Lila experimenta um casamento por imposição da família, onde encontra a riqueza, mas também a violência doméstica. Lenu tenta brilhar nos estudos, mesmo se achando menos inteligente que sua amiga genial, e consegue chegar à universidade e ao casamento com um jovem de família de intelectuais. Mas nunca deixa de ser, no âmago, aquela jovem napolitana criada em um bairro miserável e violento de uma cidade de uma região pobre da Itália.

Entretanto, além da forte amizade que as une e as separa, dependendo do momento da narrativa, no meio desse relacionamento surge um rapaz cobiçado por ambas, que coloca Lila e Lenu, ora em confronto, ora mais unidas do que nunca. É, de fato, a alegoria da saga feminina em um século em transformação, onde também estava mudando o papel da mulher, mas não sem lutas, lágrimas, e muitas vezes, desolação.

É melhor não alongar no detalhe do jovem desejado por ambas as amigas, que é o fio condutor da história, para não tirar o melhor que a Saga Napolitana nos reserva, que são os revezes e as reviravoltas das vidas das duas protagonistas. Eles dão um vigor especial à obra e garantem uma história apaixonante em quatro livros, sem perder o ritmo. E, dessa forma, até o final, quando o sumiço de uma menina explica porque a genial Lenu decidiu cumprir a ameaça de desaparecer de uma vez por todas, sem deixar vestígios.

Outro detalhe misterioso, além da história das amigas napolitanas, diz respeito à figura da escritora Elena Ferrante. Vasculhando na internet para saber mais sobre ela, fiquei sabendo que ela não concede entrevista pessoalmente, nunca mostrou seu rosto e que seu nome pode ser um pseudônimo. Ferrante existe ou seria mais uma personagem criada por essa escritora italiana? Existe a suspeita de que ela seria uma funcionária da editora que lançou a tetralogia. Pode ser uma jogada de marketing, ou simplesmente o desejo da escritora de desfrutar da fama e celebridade sem ser importunada pela perda da privacidade, nesse momento em que todos nós expomos nossas vidas pessoais nas redes sociais sem nos darmos conta das consequências.

Mistérios à parte, a escritora Elena Ferrante se tornou um dos maiores fenômenos literários dos últimos tempos na Europa e começa a ganhar fãs também aqui no Brasil. Seu fôlego narrativo, e o fato de contar uma boa história capaz de conquistar leitoras e leitores mundo afora (embora eu ache que ela agrada mais as mulheres por narrar tão bem o universo feminino), são resultados de um talento e tanto. A prova disso é o fato de a tetralogia estar prestes a ser transportada para a telinha da TV. A estreia da série está marcada para este ano, certamente na Europa. Quando será lançada no Brasil não sei, mas garanto que vou aguardar ansiosamente.

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Mariza Santana é jornalista, atualmente chefe de Comunicação Setorial da Secima e uma leitora voraz.

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