Das memórias vividas e histórias contadas: “Bisa Bia Bisa Bel”

A descoberta de que tem uma avó permite que uma menina busque a sua própria história para, a partir das suas inquietações, começar a construir sua identidade

Soninha dos Santos

Temos todos vivenciado um tempo de estranhezas, de muitas angústias e questionamentos ímpares. Há uma crise extenuante e constante de valores e o que tínhamos como certo e errado já ultrapassa nossa real significância de seres humanos e terminamos por nos sujeitar, muitas vezes, ao que nos é imposto, por ser mais fácil, mais rápido e prático. Assim, perdemos num emaranhado de ideias que pouco dizem ou muito falam do que nada explicam. Não nos permitimos questionar quem somos, de onde viemos e o que estamos fazendo aqui…

Dessa feita, Ana Maria Machado (1941), escritora carioca e bastante premiada da Literatura Infantil e Juvenil Brasileira (Ganhadora do Prêmio Hans Christian Handersen em 2000), nos presenteou, com o brilhante e original livro “Bisa Bia Bisa Bel” (Editora Salamandra).

A narrativa é construída a partir da comovente história de uma menina que descobre, por acaso, que tem uma bisavó. Tal descoberta possibilita a ela, personagem principal, uma busca pela sua própria história para, então, a partir das suas inquietações, começar a construir sua própria identidade. Por si só, a originalidade do tema remete às buscas de todos nós, com o olhar focado no passado, vivido no presente para ser reencontrado no futuro: uma mistura de tempos e espaços diferenciados, mas que, somados, inclusive nos objetos dos tempos antigos, desenham, dizem e representam quem de fato somos.

Ana Maria Machado, escritora e crítica | Foto: Reprodução

Conhecer nossos antepassados, suas histórias, saber como viveram e como eram os objetos que tocaram nos mostram, assim como mostram à personagem Bel que, mesmo deixando a infância, passando pelas transformações da adolescência, num espaço social com tantas alterações e mudanças, se faz necessário, pois isto é crescer e que o futuro guarda surpresas também incríveis para também serem experimentadas e vividas.

A História marcha rumo ao futuro, sabemos disso, e a dinâmica do tempo urge fazendo de nós, enquanto leitores, crianças ou não e, sobretudo, enquanto formadores de leitores, representarmos bem e conscientemente nosso papel na sociedade.

Enquanto aguardamos esse futuro ainda incerto, apresentamos essa boa sugestão de leitura: “Bisa Bia Bisa Bel” continua atual e traça um diálogo com todas as idades, pelo menos com quem cresce e não tem receio nenhum de olhar para trás, aprender com o passado, viver bem o presente e traçar um futuro glorioso.

Soninha dos Santos é professora de Literatura Infantil do Colégio Agostiniano e Mestre em Letras e Linguística. É colaboradora do Jornal Opção.

2 respostas para “Das memórias vividas e histórias contadas: “Bisa Bia Bisa Bel””

  1. Avatar Íris Valéria Morais Di Ferreira disse:

    Este livro e a autora Ana Maris Machado são excelentes. Também indico a sua leitura!

  2. Avatar Edgard de Mattos disse:

    Belo texto de uma verdadeira contadora de histórias.
    Muito interessante.
    Remexer o passado e pedir referências para a caminha.
    Conselhos silencioso e mudo.
    Pedir um, talvez, um rumo.
    Talvez trotes.
    Talvez…

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