Dante e Tolkien: quando um “deus” e um “best-seller” têm mais em comum do que se imagina

Mesmo separadas por seis séculos, as obras do florentino e do britânico possuem traços de proximidade, sobretudo em relação às suas representações daquilo que é maligno, mas necessário

Dante Alighieri (retratado acima) e J.R.R. Tolkien: o primeiro foi resonsável pela quebra de uma tradição; o segundo, pela retomada. Por isso, é possível achar pontos em comum na obra dos dois autores | Fotos: Pintura de Agnolo Bronzino e LA Times

Dante Alighieri (retratado acima) e J.R.R. Tolkien: o primeiro foi resonsável pela quebra de uma tradição; o segundo, pela retomada. Por isso, é possível achar pontos em comum na obra dos dois autores | Fotos: Pintura de Agnolo Bronzino e LA Times

Marcos Nunes Carreiro

Comparar um “deus” da literatura como Dante Alighieri com um autor “best-seller” como J.R.R. Tolkien soará como um pecado para muitos. Assim, àqueles que conseguiram superar o preconceito acadêmico e começaram a ler o texto, uma nota de abertura é necessária: o texto não faz comparações profundas entre os dois autores, até porque a importância de cada um na época em que viveram é completamente diferente. O que o texto faz, então? Analisa um traço específico que aproxima duas publicações: “A Divina Comédia” e “O Hobbit”.

Comecemos pela “Comédia”, obra que é o marco de uma mudança de rumo na representação do homem na literatura, visto que rompe com um preceito que estava presente de forma ativa no fazer literário do mundo ocidental desde a Antiguidade, quando sequer literatura existia: a do homem superior, representado pela figura de heróis lendários, modelos de ética e virtude, como Ulisses, Aquiles, Heitor, Teseu, Hércules e Eneias; reis e seres descendentes de deuses, dignos de atenção, homens superiores a nós.

A tradição de representar o “homem superior”, o “homem mítico”, se manteve por séculos, até porque a ligação entre mitos e sociedade se fez presente também por muito tempo. Gilbert Durand, ícone dos estudos do imaginário, afirma que, sobretudo a partir do Renascimento, houve uma separação progressiva entre os mitos e a vida social no Ocidente. Isto é, houve uma espécie de substituição dos “poderes da imagem” pelos “poderes efetivos”, tecnológicos, científicos e políticos.

E um dos grandes responsáveis por isso foi justamente Dante Alighieri. Foi ele que, já no século XIV, conseguiu quebrar a premissa do “homem superior” ao representar o homem não por meio de lendários heroísmos, mas como o conhecemos na realidade histórica. O poeta, porém, embora realize uma quebra com a figura do herói mítico, mantém aquele que pode ser considerado o principal tema da literatura ocidental e que tem relação com os próprios mitos: a viagem.

Trata-se de uma jornada própria, visto que Dante se insere na obra, sendo ele mesmo o protagonista, e em muitos aspectos, mítica. A jornada começa em uma selva escura, que pode ser definida como ante-Inferno. É lá que Dante, tornado peregrino, encontra Virgílio — poeta romano, autor de “Eneida” —, o enviado da providência divina que lhe serve de guia através do Inferno e do Purgatório.

Ao se inserir na obra, Dante inscreve o mundo terreno ao seu outro mundo e o presentifica. Isso é necessário para que a intenção do poeta fosse alcançada, uma vez que seu objetivo, desde o início, foi o de compor uma obra que servisse a todos e não apenas aos letrados. Isso explica a razão de a “Comédia” não ter sido escrita inteiramente em latim, como era costume, mas em grande parte utilizando o dialeto toscano falado por Dante — dialeto esse que é a base do idioma italiano como o conhecemos na atualidade.

Esse conjunto de fatores marca o início de uma nova fase na literatura ocidental. Católico, ele ultrapassa propositalmente a barreira do heroico, tal como instaurado até então, e se utiliza daquilo que é apontado por Joseph Campbell como sendo o segredo final do mito: ensina como penetrar no labirinto da vida ao passo que manifesta seus valores espirituais. Isto é, ao tecer um poema cujo tema central é a busca pela salvação, Dante transforma si mesmo em objeto de identificação.

Sua jornada é para salvar a si e aos outros, uma vez que, na incerteza de sua jornada através da floresta escura e, depois, dos três reinos – Inferno, Purgatório e Paraíso –, só ele não tem ainda lugar definitivo. Como aponta Erich Auerbach, Dan­te é o homem vivo em geral, e, por isso, todo homem vivo pode identificar-se com ele, pois o drama humano é um perigo que ameaça a todos os viventes.

Algo semelhante é visto na obra do escritor britânico J.R.R. Tolkien. Se Dante quebra com a estrutura do herói, fazendo com que todos depois dele seguissem esse exemplo, é Tolkien o responsável por retomar essa motivação. Ao fazer com que sua obra se tornasse um híbrido do romance modernista com o gênero épico medieval, o autor conseguiu não apenas tornar compreensíveis as imagens e ideias desta antiga literatura ao leitor do século XX, como também revigorou tradições até então ignoradas pelos modernistas.

Isso permitiu a abertura de um espaço imaginativo totalmente novo na ficção e fez de Tolkien uma figura proeminente no âmbito literário mundial. Contudo, embora o motivo seja o heroico, o lendário, o escritor não consegue se afastar de todo da tradição iniciada por Dante. Melhor dizendo: não pôde. Se Tolkien fizesse uma retomada completa aos costumes pré-dantescos, o mais provável é que não conseguiria alcançar a abrangência que teve, sobretudo na segunda metade do século XX.

Dessa forma, mesmo tendo em sua obra personagens do mais arraigado arquétipo heroico, Tolkien sempre manteve no centro de suas obras figuras que mais se assemelham ao homem concreto da realidade histórica. É assim, por exemplo, em “O Hobbit”, primeiro livro publicado do autor, em que Bilbo Bolseiro, um “homem” comum, se vê na necessidade de empreender uma jornada para salvar a si e ao restante da Terra-média — território criado para servir de passado mitológico à Europa, mais especificamente à Inglaterra. Mas isso só é possível em Tolkien, devido a Dante, visto que, apenas depois dele, mitologia e lenda também se tornaram história.

Tolkien, que foi membro da Sociedade Dante de Oxford por um tempo, sempre foi um estudioso das jornadas heroicas, a exemplo do poema Beowulf, o qual traduziu para o inglês moderno. Isso justifica sua fala em um comentário feito sobre a crítica de W.H. Auden sobre O Retorno do Rei no New York Times Book Review, em 22 de janeiro de 1956: “Para um contador de histórias, uma viagem é um artifício maravilhoso. Ela fornece uma forte linha a qual uma grande quantidade de coisas que ele tem em mente pode ser amarrada para criar uma coisa nova, variada, imprevisível e ainda assim coerente. Minha principal razão para usar essa forma foi simplesmente técnica”.

A presença de personagens comuns também se dá pela inter-relação, considerada importante pelo autor, entre o nobre e o simples, visto que achava “comovente”, por exemplo, o enobrecimento do ignóbil, do comum. Logo, é possível dizer que as jornadas tolkienianas também tratam da elevação de caráteres que, de uma maneira ou outra, são ignorados normalmente. Também por esta razão é que os hobbits funcionam, no trabalho de Tolkien, como a representação desse homem concreto, comum (não heroico), ao qual Dante deu vida literária.

Obviamente, há diferenças entre Dante e Tolkien. Para o primeiro, o tempo não é o épico, no qual existe uma elaboração gradual do destino, e sim o tempo final, no qual o destino se completa. Além disso, em Tolkien, se o comportamento de Bilbo Bolseiro é de um “homem”, ele próprio não o é, pois pertence à raça dos hobbits, seres fantásticos criados por Tolkien e que estão no centro de suas obras mais conhecidas: “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”.

Porém, a estrutura usada pelos dois autores faz com que seus mundos comecem a existir na medida em que são explorados. Por isso, encontramos na “Co­média”, como relata Auerbach, “uma imagem do mundo terreno em toda a sua diversidade, transposto para o mundo do destino final e da ordem perfeita”.

Essa ordem perfeita acontece também em “O Hobbit”, afinal, a lenda ordena o assunto de modo unívoco e decidido, destacando-o do restante de sua conexão com o mundo, de modo que este não pode intervir de maneira perturbadora. E é dessa forma que eles conseguem mostrar em detalhes, por exemplo, suas visões a respeito do mal e do inferno.

As florestas escuras

Do lado esquerdo, a Floresta das Trevas de Tolkien; do direito, a floresta escura de Dante: há semelhanças entre as funções das duas florestas nas obras dos autores | Fotos: Ilustração de Ven Locklear (esq.) e Ilustração de Gustave Doré (dir.)

Do lado esquerdo, a Floresta das Trevas de Tolkien; do direito, a floresta escura de Dante: há semelhanças entre as funções das duas florestas nas obras dos autores | Fotos: Ilustração de Ven Locklear (esquerda) e Ilustração de Gustave Doré (direita)

Em sua biografia crítica de Dante, a pesquisadora estadunidense Barbara Reynolds mostra que a visão do poeta, mesmo sendo possuidor da inabalável crença no bem final, é a de que o inferno é a condenação definitiva. Isso acontece porque, embora o desejo mais elevado de toda alma seja voltar ao Criador, ela ainda está sujeita a tomar o “caminho errado”, imagem descrita por ela como de origem bíblica e que foi repetida várias vezes pelo filósofo romano Severino Boécio.

A mesma imagem seria usada por Dante na metáfora de abertura do primeiro canto de “Inferno”, nos três versos que devem estar entre os mais conhecidos da literatura ocidental:

Da nossa vida, em meio da jornada,
Achei-me numa selva tenebrosa,
Tendo perdido a verdadeira estrada.

Se Dante se afasta do arquétipo do herói, ao estabelecer a jornada como meio estruturante de sua obra, porém, ele mantém traços importantes do regime heroico. Esse regime, como explica a pesquisadora e professora da UFG, Maria Zaira Turchi, “tende a elevar-se e tem horror à queda, conhece também as trevas noturnas, mas, diferentemente do místico que se refugia nelas, afasta-as como inimigas tenebrosas”. E isso é algo central também em Tolkien. Encontramos, portanto nos dois autores, o objetivo da elevação, seja espiritual, rumo ao paraíso, como em Dante, ou físico, rumo à liberdade, como em Tolkien.

Por isso, logo no início da “Comédia”, nos deparamos com um Dante que se perdeu no meio do caminho e, assim, se vê em uma “selva tenebrosa”, “selvagem”, uma “floresta escura”, da qual quer desesperadamente sair. Tal floresta representa o ante-Inferno, que pode ser visto como o verdadeiro inferno para Dante, visto que, embora tenha passado por provações no inferno propriamente dito, é na floresta que ele experimenta a verdadeira agonia, como é possível ver dos versos 4 a 9 do canto I, de “Inferno”:

Ah! que a tarefa de narrar é dura
essa selva selvagem, rude e forte,
que volve o medo à mente que a figura.

De tão amarga, pouco mais lhe é a morte,
mas, pra tratar do bem que enfim lá achei,
direi do mais que me guardava a sorte.

Dante teria passado a noite inteira perdido na floresta escura, noite esta que seria a da Quinta-feira Santa, 7 de abril do ano 1300, dia estabelecido pelo poeta, segundo Harold Bloom, como data fictícia de sua jornada. Dessa forma, é possível perceber que Dante, ao longo desse período descrito no Canto I, esteve em situação de miséria, para a qual só encontra certo alívio quando se depara com Virgílio, a sorte que aguardava o peregrino.

Em “O Hobbit”, também encontramos o mal como algo a ser combatido e, neste caso, a agonia e a miséria são encontradas na Floresta das Trevas, o inferno tolkieniano, que funciona como uma provação a qual Bilbo Bolseiro é submetido e precisa vencer caso queira ascender à salvação, da mesma forma que é necessário a Dante passar pelo inferno para, assim, chegar ao paraíso.

Por necessidade, abriremos um parêntese aqui:

(A formação da Floresta das Trevas merece uma explicação, pois, como alerta Ronald Kyrmse, o maior tradutor de Tolkien no Brasil, a obra do autor britânico está intimamente intrincada e, por isso, as partes que compõem um livro têm referências em outros: o estabelecimento do mal na região da Floresta das Trevas é narrado em “A Balada de Leithian”, um poema composto por Tolkien poucos anos antes da escrita de “O Hobbit”. O poema conta a história do casal Beren e Lúthien.

A lenda, narrada em prosa no livro “O Silmarillion”, relata a fuga de Sauron, o Segundo Senhor do Escuro, depois que foi derrotado em batalha por Beren e Lúthien: “De imediato, Sauron assumiu a forma de um vampiro, imenso como uma nuvem escura que encobre a lua, fugiu, gotejando sangue da garganta sobre as árvores, e foi para Taur-nu-Fuin, onde permaneceu, enchendo a região de horror”. Taur-nu-Fuin seria a designação em Quenya, um dos idiomas criados por Tolkien, para a Floresta das Trevas.

Segundo o pesquisador John D. Rateliff, é inevitável a conclusão de que o resultado da batalha entre o casal e Sauron, também chamado de Thû, é visto diretamente em “O Hobbit”, pois deixa claro que a Taur-nu-Fuin de “O Silmarillion” é a mesma Floresta das Trevas de “O Hobbit”. Para ele, tal referência é reflexo do pequeno intervalo existente entre a escrita de “A Balada de Leithian” e “O Hobbit”: “He [Tolkien] had written the passages in the poem referring to Thû in March and April of 1928 — that is just over two years before beginning The Hobbit”.

Este resgate histórico explica duas coisas: primeiro, o porquê de a Floresta das Trevas ter recebido este nome com o passar dos anos; e segundo, deixa claro que ela, a maior das florestas do mundo do norte, é um lugar de habitação do mal. Aqui, fechamos o parêntese).

Tomar tais conceitos é se achegar ao cristianismo. Porém, essa aproximação é inevitável quando se analisa o trabalho desses dois escritores. Tolkien era católico como Dante, mas este, ao contrário daquele, tomou a Bíblia de forma mais literal, o que não significa que o trabalho do britânico não tenha sofrido uma influência bíblica direta.

Dessa forma, ambos tomam o mal como aquilo que percorre o mundo para destruir o que é bom. Porém, enquanto Dante centra seus esforços no combate ao pecado em suas diferentes formas, como aponta Auerbach, Tolkien foca sua visão do mal no poder, uma vez que esta é uma de suas intenções ao compor a Terra-média: estudar as disputas pelo poder como o mal da humanidade.

Esse catolicismo dos dois autores não pode, entretanto, ser tomado como literalmente religioso, visto que sofreu influências outras, sobretudo de símbolos e arquétipos pagãos. As florestas, por exemplo, podem ser tomadas pelo aspecto do mito, que é caracterizado como um esforço do homem em oferecer luz a algo por meio da razão, através do discurso. Ao menos assim o é caracterizado por Gilbert Durand, para quem os símbolos são explicados pelas palavras e os arquétipos pelas ideias.

É possível ir além. É possível dizer que as florestas funcionam, tanto em Dante quanto em Tolkien, como o rito de iniciação do qual fala Joseph L. Henderson, discípulo do psicanalista Carl Gustav Jung. Trata-se de “um processo que começa com um rito de submissão, seguido de um período de contenção a que se sucede um outro rito, o de liberação”. Em outras palavras, as florestas dantesca e tolkieniana representam a luta do homem para alcançar o seu objetivo. É por meio delas que as personagens tanto deste quanto daquele se elevam após terem superado as dificuldades do “inferno”.

Por essas razões, a Floresta das Trevas funciona como inferno na obra de Tolkien, do mesmo modo que na floresta escura da “Co­média”. Isso acontece porque esses locais são o desafio que, uma vez vencido, dá à personagem condições de emergir para um mundo iluminado. Após deixar a Floresta, Bilbo se descobre em um mundo em que a luz do sol nunca foi tão clara, assim como na “Comédia” em que, após passar pelo inferno, Dante emerge num mundo iluminado por estrelas, o purgatório.

Mas como é possível que dois autores de realidades e períodos tão distintos — um do século XIV, outro do século XX — possam dialogar com os mesmo símbolos? O psicanalista Carl Gustav Jung explica: “Há muitos símbolos (e entre eles alguns de grande valor) cuja natureza e origem não é individual, mas sim coletiva”. Isso ocorre porque os arquétipos, ao se realizarem, ligam-se a imagens diferenciadas pelas culturas, dando origem à manifestação dos símbolos propriamente ditos que podem apresentar vários sentidos.

Assim, o inferno, tal como descrito nas obras, representa a perdição do homem, símbolo este que surge da natureza coletiva preconizada por Jung, que é, aliás, parte importante da composição das obras tolkienianas. Em sua biografia crítica de Tolkien, Michael White afirma que parte do grande sucesso do autor vem de sua compreensão do conceito dos arquétipos junguianos, visto que o entendimento de tais concepções permitiu a ele empreender de maneira mais hábil uma escrita que atingisse de forma mais profunda certa universalidade.

Tal universalidade é tomada pelo ponto vista de que mito e literatura relacionam-se como criações humanas que atualizam, por meio de imagens, os arquétipos presentes nesse inconsciente coletivo. Maria Zaira Turchi explica: “O mito exprime a condição humana e as relações sociais no grupo onde ele surge e configura-se em formas narrativas”, que, por sua vez, “veiculam imagens simbólicas, calcadas em arquétipos universais, que reaparecem, periodicamente, nas criações artísticas individuais, entre elas, a literária”.

Virgílio e Gandalf: as representações da razão necessária à jornada
Ilustração mostra cena do Canto XII, quando Virgílio livra Dante das garras do Minotauro, que enfurecido morde a própria mão | Foto: Ilustração de Gustave Doré

Ilustração mostra cena do Canto XII, quando Virgílio livra Dante das garras do Minotauro, que enfurecido morde a própria mão | Foto: Ilustração de Gustave Doré

A visão de inferno para Dante Alighieri pode ser entendida como a necessidade suprema de um guia que conheça o caminho e não o deixe se perder novamente. Embora não seja possível formar uma ideia perfeita a respeito da intenção de Dante, o poeta, talvez seja possível dizer que, para ele, o caminho passa pelo conhecimento, que descreve e demonstra a unidade da ordem, que é o conhecimento supremo.

A busca pelo guia e protetor Virgílio, na “Comédia”, se assemelha à dependência que Bilbo Bolseiro tem de Gandalf em “O Hobbit”. Essas duas figuras representam nas obras, por meio da razão, a certeza de salvação. A viagem de Dante começa no ante-Inferno, mas é somente no encontro com Virgílio que há o esclarecimento de que a jornada será, de fato, empreendida: “A ti convém seguir outra viagem”, diz o guia no verso 91 do canto I, de “Inferno”.

A fala do poeta romano implica na revelação de que ele, Dante, precisa cumprir a jor­nada se quiser ser salvo e, assim, também salvar os outros viventes, uma vez que os mortos já têm seu lugar definido. Em “O Hobbit”, e também em “O Senhor dos A­néis”, a figura de Gandalf obedece ao mes­mo princípio: o de guia para a salvação. Em ou­tras palavras, as jornadas de Dante e Bilbo não poderiam ser executadas sem o auxílio dessas duas figuras, representantes da Razão.

Mesmo que Dante, a personagem, não seja um herói clássico, visto que Dante, o poeta, quebrou com essa tradição ao compor a “Comédia”, é preciso lembrar que ainda há traços míticos e heroicos no poema. Logo, como figura semi-heroica, Dante, assim como Bilbo, precisa orientar-se pelo racional para superar o mal.

Gandalf, retratado entrando na casa de Bilbo, é o grande responsável pelo sucesso da jornada de “O Hobbit” | Foto: Ilustração de John Howe

Gandalf, retratado entrando na casa de Bilbo, é o grande responsável pelo sucesso da jornada de “O Hobbit” | Foto: Ilustração de John Howe

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Adalberto De Queiroz

Só uma palavra pode definir o artigo do jovem mestrando Marcos Nunes Carreiro: Maravilhoso! Compartilho porque merece (e muito) ser lido por mais gente. Parabéns, Mr. Carreiro.